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EDITORIAL Nº 759 – 1/8/2019

patrao
Caro leitor
No fim de semana passado, dia 27 de julho, a Citroen comemorou o seu aniversário – um século. A fábrica em Mangualde, que é uma marca da qual os mangualdenses se orgulham, também quis festejar este marco histórico com um pouco de barulho e graças a todos aqueles que com os seus carros e a seu custo quiseram desfilar pela Cidade de Mangualde.
A Citroen PSA já não é o que era. Em tempos longínquos pagava bons ordenados e era fácil viver para quem trabalhava na Citroen. Atualmente o vencimento é igual ou inferior a outra qualquer, por exemplo Lusofinsa em Nelas 1000 euros com três anos de serviço e a Citroen com 20 anos, na casa dos 700 euros.
Em tempos não muito distantes, as compras da mesma eram feitas em Mangualde e em Mangualde cresceu o comércio local. Hoje em dia, nada é comprado cá em Mangualde, vem tudo de fora.
Defendo a sua continuidade mas coloco em causa o ambiente. Há muitos anos atrás, no tempo que eu era lá Guarda Fiscal, o resto das tintas e lixo iam pelo esgoto abaixo, hoje não sei como são tratados, possivelmente cá fora ninguém sabe.
Esta empresa assim como outras, atualmente, vive com subsídios do Estado Português que todos nós pagamos, em tempos de outrora não era um balão, vivia com contas e lucros.
Quando o Estado Português deixar de meter lá os nossos impostos, fecha no mesmo dia. Todos os funcionários que lá trabalham podem viver descansados e sem percalços porque dentro de uma década vai continuar assim, porque é a política Económica Europeia. Bem ou mal é assim… há duas formas de ser empresário, uma, é que seja tudo do Banco (Estado) os bancos fecham pagamos nós, outra, que é a minha forma, é que seja tudo do empresário e nem sequer ter necessidade do banco. Quem é que está certo possivelmente o que nada tem. São os tempos que correm. Eu sou do tempo antigo, mas sou feliz.

Um abraço e boas férias a 1 de setembro cá nos encontramos novamente.

REFLEXÕES

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CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DE MANGUALDE

GRUMAPA –Grupo Mangualdense de Apoio e Protecção dos Animais
Construção do Canil / Gatil

Em 2005 acertado o esquema de trabalho, que em princípio se iria desenvolver, deitamos mãos à obra. Era um trabalho pensado em conjunto – construtor e elementos da Direcção – contando sempre com o precioso apoio da Autarquia e de alguns Beneméritos de grande valor e que mais tarde iremos enumerar com notoriedade.
Foi com grande entusiasmo e ansiedade que começamos a ver o senhor Joaquim a transportar as máquinas necessárias. Mas logo surgiu um problema que parecia insolúvel e que não nos tinha ocorrido – era indispensável a electricidade, ali, para o funcionamento das máquinas, contudo a rede pública tinha o último poste a cerca de 1 km e não podíamos esperar que a companhia fizesse a extensão com a brevidade necessária !…Estávamos num impasse que parecia insolúvel. Sem luz nada feito! Era inacreditável a nossa distracção! Então todo o trabalho desenvolvido até agora ficaria suspenso ou anulado ?! O pedido de uma baixada demoraria bastante a ser aceite e por sua vez a Câmara também nada podia fazer de momento. Com tanto obstáculo a atravessar-se à nossa frente sentíamos as forças a ceder… Mais reuniões de Direcção, mais hesitações na continuidade do projecto. O desgaste mental. A força anímica estava a falhar. Havia porém uma outra energia positiva que não nos abandonava nos momentos de grandes dificuldades e nos trazia as soluções impensáveis. Ali em frente, a dois passinhos, do outro lado do caminho havia instalação eléctrica particular para obviar às necessidades de um agricultor que possuía uma pequena vacaria. Era o senhor Fonseca, afinal a pessoa que nos tinha feito a limpeza daquele enorme matagal de 3ha, durante várias semanas. Foi com ele que combinamos a cedência de luz com o devido pagamento… E por isso nos sentimos muito gratos.
Mais uma vez, algo para lá de nós, tinha surgido evitando o completo alquebrar das forças. Agora sim. Marcou-se a implantação dos imóveis e avançou-se com a abertura dos caboucos.
Pela parte que me toca, digo agora, com alguma tristeza…. Se pudesse recuar no tempo, com o que a vida me ensinou até aqui, não me iria permitir a tamanha loucura – erguer aquela obra caríssima, sem fundos sólidos e garantidos foi uma odisseia. Até porque como Presidente a minha responsabilidade era enorme e eu nunca me perdoaria que o GRUMAPA vivesse atolado em dívidas. A tempo as faturas eram sempre pagas.
É muito provável que alguém que me leia não encontre nada de interessante. Também não é essa minha intenção mas, tão só, aconselhar a quem tem sonhos que os deve analisar em todas as vertentes para que a sua concretização não se venha a converter num lamaçal sem fim. Encontramos muita gente por aí que entra pelo caminho do facilitismo e quando menos espera está no completo desespero. Bom, começadas as obras passamos a viver, como é de calcular, de grandes impasses…. Mas fomos caminhando…

Agosto 2019

Expressar a dignidade

Ana Cruz
Constato, com grande contentamento, que as pessoas são mais informadas acerca dos seus direitos, especialmente relativos á sua saúde. Apesar, como cidadã, estar satisfeita com esta mudança cultural isto revela que o Estado não escuta e não quer interpretar os dados desta mudança.
Em tempos, a igualdade de oportunidades era algo julgado à sorte de nascer numa família abonada financeiramente e\ou estar bem posicionada na política do Estado Novo. Hoje em dia o favorecimento de familiares ou conhecidos já é uma rampa para escalar a montanha do sucesso profissional, mas mesmo assim todos iniciam a vida académica em condições similares.
Ainda existem muitos indivíduos que iniciaram a sua vida profissional na época da ditadura, e que foram agraciados pela generosidade de uma madrinha ou padrinho. Tiveram uma ação que mudou radicalmente o seu futuro, desviando de uma vida produtiva ligada à terra e muitos sacrifícios físicos, para uma vida académica ligada ao conhecimento que apenas as grandes cidades podiam fornecer e devotando a uma distância de formação pessoal que os coloca a anos-luz dos comuns mortais. Tal é a sua consciência de superioridade, que se esquecem que também eles estão sujeitos às leis terrenas e valores morais. Que o poder não é um joguete de crianças mimadas, mas uma ferramenta de grande responsabilidade e deverá ser conservado e transferido para as gerações futuras. Fico orgulhosa por uma pessoa não tolerar ser negligenciada e insultada de forma omissa, apenas porque quem ofende tem mais reconhecimento académico ou social. Apenas por ser um. Porque somando todos os “uns” desrespeitados, quem detém o poder fica com credibilidade zero. Zero confiança. Infelizmente paga a equipa, porque a atitude de um elemento reflete, incorretamente no todo. Assim uma relação de mais de 20 anos, com complacência em desculpar de quem lhe trata da sua saúde, passa para um corte radical devido à má resposta pessoal de quem devia tratar. Perdeu quem cuida. Perde a instituição, uma pessoa que sempre foi passiva perante adversidade do direito de saúde. Ora a lição é esta, (e que o Estado custa em aceitar), o lesado foi a outro local que nunca tinha entrado anteriormente, e foi atendido meticulosamente, corroborando a necessidade da procura de saúde, e conservou a sua dignidade. Porquê apresentar reclamação? A ideia vulgar, é que este assunto nem é considerado como motivo de ofensa- “Pois, se calhar estava cansado de tanto trabalhar!” ou “Vou precisar dele no futuro quando estiver doente. Respira e aguenta a calúnia!”. Assim a sua opinião foi suportada na mudança de local de atendimento para tratar da sua saúde. Local onde foi sempre atendido desde a sua nascença….Do ponto de vista de gestão, perder clientes no privado é encerramento, no estado perder clientes é cortes de pessoal na certa. Mesmo com sindicatos a defender os direitos adquiridos, ter uma equipa de 20 pessoas a atender 500 pessoas não faz sentido económico!
A desculpa mais frequente é “idade”, “falta de adaptação” a utilização banal de “burro velho não aprende línguas”. Não existe correspondência de diminuição da aprendizagem e o envelhecimento, mas resistência à mudança é algo que escapa do controle do acomodado. Como posso exercer a minha arrogância se tenho que demonstrar que não sei tudo? De fato, esta ideia é tão absurda como um cirurgião sarcasticamente falar em consentimento informado a quem vai operar “Já viste isto? Agora temos de operar com autorização do doente! Sorte tem ele em eu ainda o operar!” É fantástico ouvir isto e não pensar que tipo de desempenho irá ser realizado, porque sob anestesia geral tudo fica no segredo… da equipa!
Numa sociedade organizada, os estatutos sociais são a base para uma interação social. Assim é natural perante uma determinada profissão que o seu papel tenha determinadas expectativas geradas\ adquiridas perante a comunidade\ grupo onde exerce. Mas isto não define a grelha de valores sociais que a pessoa tem ou deverá ter. Esta é a mudança, que considero positiva, que vejo na interação entre estatutos ou papéis sociais. A formação pessoal, outrora designada pela educação dada pelo ambiente familiar, passou a ter várias origens. Assim o brio de ser honesto, respeitoso, generoso, foi substituído pelo egoísmo, competição e cobiça.
A ironia deste revés é que a maior parte dos indivíduos que estão a seguir o caminho de discriminar e não ajudar\ colaborar o próximo esquecem-se que também eles tiveram no papel de ser ajudado. O menino pastor que foi para Coimbra estudar, foi ajudado pelo padrinho; a menina costureira que foi para Coimbra estudar, foi ajudada por uma mãe que perdeu o filho e reviveu a esperança de contribuir para uma melhor sociedade.
O estatuto foi adquirido. Mas muito se perdeu na melhoria de condição de vida. Mas nada é infinito, este ciclo será quebrado pela dedicação dos mais novos em dar equidade a quem nunca ouviu falar do termo. Porque todos somos diferentes, logo temos diferentes necessidades. Esta é uma das bases da justiça social, distribuir para que todos tenham igual direito.

IMAGINANDO

francisco cabral
PARTE 62
SINTRA
Continuação
O tema seguinte do meu imaginando, e inspirado nalguns mistérios relacionados com o oculto e esotérico da nossa Serra de Sintra, contam que existem lendas envolvidas e algumas com um fundo de verdade, cujas origens remontam desde a ocupação serracena.
Sintra, tem despertado para muitas pessoas o seu lado misterioso principalmente para a visão noturna, que como acima mencionei tem muito a ver com a componente esotérica. Ela pende para os dois lados da energia una, sendo que em alguns locais se liberta e noutros se condensa, isto devido à origem atómica de determinado tipo de pensamento e segundo a frequência vibracional de cada um . Eu próprio vivi essa experiência no sítio onde se encontra o Convento dos Capuchos, local pouco aconselhável para quem desenvolve essencialmente  a sua parte espiritual. Creiam caros leitores que não pretendo repeti-la, não só por mim mas também pela pessoa que visitei, inserida num grupo que ela própria desconhecia, e tão transtornada a tal ponto, que o seu campo eletromagnético afetou o meu, causando-me uma indisposição que levei horas a tratar, não fosse a fé interior que me valeu. Essa pessoa mais tarde viria a conselho meu a abandonar o grupo, porque também não aguentou. Isto pela curiosidade na procura daquele lado obscuro e sua repercussão, não obstante a série de avisos que lhe havia dado.
Por isso não é de estranhar, que grupos de jovens com muita frequência se reúnem à noite, uns para aquisição de mais uma experiência espiritual, outros por curiosidade e  ainda outros, infelizmente para práticas de magia negra.
Uma das lendas e que muito se afirma ser real, é a do “Fantasma da rapariga da Serra de Sintra”, que se enquadra na era actual:
Três jovéns de nomes Tiago, David e Tânia passeavem no seu veículo pelo interior da Serra, quando num determinado momento depararam com uma jovem à beira da estrada, completamente isolada pedindo boleia. Contra a vontade de Tânia, foi-lhe permitida pelos rapazes a entrada no veículo, mas notaram que ela se encontrava visivelmente perturbada e perguntaram-lhe: Tens algum problema que possamos ajudar-te a resolver? Ela respondeu: Estão vendo aquele local junto à curva? Tive aí um acidente e morri. Tal conversa provocou um pânico nos três jovens ao ponto de terem um acidente que provocou a morte de Tiago e Tânia. David sobreviveu, mas até hoje desconhece as causas do acidente. Posteriormente as autoridades policiais vieram a confirmar que em 1983, uma jovem de nome Teresa Fidalgo teve um acidente mortal, exatamente naquele local.
Há outra lenda de uma gruta, junto ao Jardim da Pena e perto do portão de entrada, que conta a história de uma fada que se materializou e passado algum tempo, pensamos ter- se apaixonado ferverosamente por um humano e que até hoje chora não ter concretizado o seu desejo.
Sobre a Quinta da Regaleira, em capítulos anteriores tive oportunidade de desenvolver a sua origem, mas permitam-me que revele mais um um pouco a parte mística. Encontramos no seu interior Símbolos esotéricos relacionados com a Maçonaria, Templários, Rosa Cruz e Alquimia. Realizaram-se no Poço iniciático muitos rituais relacionados com a maçonaria que desconhecemos, porque estas Sociedades Secretas mantêm um sigilo que não transparece para o exterior. É por isso que se diz que esta Quinta, é  um lugar enfeitiçante.
Continua
fjcabral44@sapo.pt

MEMORIAL DE UMA ALDEIA ( 2ª PARTE )

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No Inverno gélido, quando uma camada branquinha e fina de geada, peneirada por seres angelicais em plena noite estrelada e de uma serenidade tranquila , ou mesmo quando a chuva caindo de mansinho nos telhados, ou o vento batendo, ora levemente, ora agressivo na ramagem das árvores, assobiando pelas quebradas dos vales, nos embala e prende mais á cama. Ainda escuro… acordávamos. Ouvíamos barulho… avançávamos para a janela de madeira carcomida pelo caruncho, deteriorada pelo sol e pelas intempéries, pé – ante – pé, de mansinho; arredávamos a cortina de pano de chita…. Clareava…. Ao longe, no horizonte, uma luz subtilíssima, quase invisível, dava os primeiros sinais do dia. Ficávamos extasiados ao contemplar aquela paisagem, ora adornada de um branco genuíno da geada, mais raras vezes de neve alvíssima, escondendo-se entre as nuvens e neblinas do cume dos montes.
Ainda, ao longe o verde das árvores, o castanho da terra, o azul do céu, o granito acinzentado das rochas , os caminhos de terra, que pareciam ao longo dos muros cobertos de um musgo castanho esverdeado.
Chegava o padeiro á aldeia. Parava em cada largo, ou encruzilhada, tocava a buzina, da sua velha bicicleta pasteleira, repetidas vezes num som estridente, agudo , penetrante, que ecoava através dos montes e dos vales, parecendo quererem dar uma resposta ao seu apelo. Encostava a “pederneira“ á esquina ou ao muro mais próximo, com os seus dois cestos de vime, um de cada lado do suporte traseiro, cheiinhos de pão, ainda quente e estaladiço, saído da última fornada da noite , quase ainda o forno a lenha não tinha arrefecido,… começava a venda do pão.
– Quantos quer hoje , freguesa? …
– Dois trigos de segunda e três papossecos…
– Um pão de centeio escuro…
– Uma broa de milho , baixinha , com pouca côdea… (gritava outra freguesa mais apressada).
E o padeiro, numa azáfama frenética ia distribuindo o pão, que era o pão nosso de cada dia, ganho com muito suor, e grandes padecimentos.
Mas não menos madrugadora já encontrávamos a leiteira. No seu porta-a-porta, com grande desenvoltura, movimentos precisos e rápidos, verte as medidas do leite nos recipientes pendurados nas grades, ou escondidos nos vãos das portas. Há muito sabe de cor as quantidades exactas de leite que cada família necessita. Não é muito, apenas o necessário para as crianças, pois os adultos quando se levantavam dejejuavam-se ou matabichavam com o seu copito de água ardente e figos secos, secos ao sol do Verão, e religiosamente guardados em bolsas de pano cozidas á mão, aproveitando o trapo que não tinha sido vendido. Tem que ser rápida, despachada para que a distribuição esteja feita a tempo e horas de os pais darem o pequeno almoço aos filhos, e cedinho irem a correr para o trabalho. Quando o dia já estava claro, e a manhã se encontrava avançada, mais tarde, muito mais tarde, rompia no largo principal da aldeia, com a sua carroça puxada por duas possantes mulas… o azeiteiro. As pessoas iam acorrendo, providenciando a mercearia, o azeite, o petróleo para os candeeiros, para toda a semana. Vinham os produtos ao encontro do consumidor e a um preço muito mais barato.
– Meça-me dois litros de “pitrol“ para os candeeiros e para a máquina (era usual áquela época a máquina a petróleo, em vez do tão conhecido fogão a gás ou eléctrico), dizia uma freguesa á qual a vida amarga e dura não dera a oportunidade de ir á escola
Uma outra ainda, com os pés ainda sujos da terra que viera de amanhar:
– Eu quero meia barra de sabão azul para o banho e cor de rosa para a roupa.
– Sobrou-me este troquito do pão…
– Avie-me meio quilo de açúcar amarelo e um quilo de chícharos … (fiado … não havia)
( Uma senhora…. mais assenhorada, roupa asseada tez branca e mãos cuidadas, pede num tom de voz mais delicado, com palavras sibiladas a carregar um pouco nos erres.
– Senhorr, faça o favor….. meça-me dois litrros de azeite – (pediu, estendendo-lhe uma trabalhada amoltolia em barro vidrado), um quilo de arroz, um de massa, uma peixota de bacalhau…
– Faça o favor de pagar (estendeu-lhe uma nota de cinquenta escudos ).
E a vida é um romance, composta de bons e maus momentos, feita de recordações e projectos, momentos únicos e inesquecíveis, que nos fazem voltar atrás, recordar… recordar e ter um memorial desses tempos. Tempos de ruralidades, de um modo de vida… agradavelmente saudável.

SANFONINAS

dr. jose
Acabar, acabar, acabar!
Prédio inacabado
Em vésperas de terminar a legislatura, o normal será que os deputados diligenciem por levar a bom porto o que, algum dia, tiveram entre mãos e gostavam de ver concluído.
Contava-me o Zé, há dias, das trocas de palavras que tinha, amiúde, com a patroa:
– A senhora, estou eu com as mãos na massa, pede-me com urgência que meta mãos noutra!..
Ocorrem-me, a este propósito, as passagens de dois livros. Uma é deveras conhecida, d’Os Lusíadas (canto I, estrofe 40):
«E tu, Padre de grande fortaleza, / Da determinação, que tens tomada, / Não tornes por detrás, pois é fraqueza / Desistir-se da cousa começada».
A outra vem num dos meus livros de cabeceira preferido desde a juventude, de folhas amarelecidas e amplamente sublinhado ele está, A Arte de Estudar, de Mário Gonçalves Viana (Editora Educação Nacional, 1943, p. 178):
«Ao trabalhos começados e não acabados representam uma tortura, constituem uma espécie de repreensão constante, de sinal-de-alarme, de remorso vivo! Michelet confessava a Goncourt que estes trabalhos iniciados, e não concluídos, lhe produziam não só graves preocupações, mas terríveis dores de cabeça. A maneira como conseguiu dominar este mal foi bem simples: habituou-se a fazer incidir o seu pensamento e o seu esforço, de cada vez, sobre uma só coisa, sobre um único assunto».
Essa frase põe o acento numa realidade a que, com enorme frequência, se não dá atenção: o tempo do pensamento.
Pedem-te, por exemplo, que digas umas palavras no aniversário da colectividade. “Coisa pouca”, dizem-te, “que tu já estás habituado!”. Certo: serão cinco minutos! Contudo, e os instantes que medeiam entre o momento em que te fazem o convite e o acto em si? Não te acontece que, de vez em quando, te lembras e pensas no que será importante dizer? Ou seja, o tempo do pensamento vai ser bem superior ao dos “escassos” cinco minutos da intervenção – aspecto que é muito raro ter-se na devida conta.
Portanto, nunca será de mais batalhar para que, na nossa vida e na da comunidade, as obras de Santa Engrácia se concluam! Para serenidade de todos!

COMPENSAÇÃO

juiz
Um dos partidos, no seu programa eleitoral, pretende que as dívidas do Estado sejam deduzidas nos impostos, isto é, criar um mecanismo que permita que qualquer pessoa a quem o Estado deva dinheiro, possa descontar esse montante no valor a pagar em impostos. Trata-se do fenómeno da compensação, previsto em Direito Civil.
As vantagens da compensação há muito foram reconhecidas. Já os romanos, ainda antes de Marco Aurélio, haviam reconhecido a sua importância como forma de extinguir obrigações recíprocas. Foi, porém, Justiniano quem ampliou esta instituição e lhe atribuiu uma eficácia extintiva “ipso jure”.Considerou-se, na verdade, que não seria justo que o devedor fosse obrigado a pagar a um credor que, por seu lado, lhe devia igual ou superior montante.
A importância da compensação tornou-se tão evidente que em todos os países de grande movimento comercial foram criadas as Câmaras de Compensação, a primeira das quais foi a Clearing House de Londres. Entre nós foram criadas pelo Decreto nº 12.852, de 20 de Dezembro de 1926, situando-se uma em Lisboa e outra no Porto.
O Código Civil de 1867 previa a compensação nos artigos 765º e seguintes. Atualmente, o artº 847º, nº 1 do Código Civil determina que, quando duas pessoas sejam reciprocamente credor e devedor, qualquer delas pode livrar-se da sua obrigação por meio de compensação com a obrigação do seu credor, verificados os requisitos constantes das alíneas a) e b).
Trata-se, portanto, de um modo de extinguir duas obrigações em que o devedor opõe o crédito que tem sobre o seu credor. Conforme sabiamente explica o Professor Antunes Varela, “ao mesmo tempo que se exonera da sua dívida, o compensante realiza o seu crédito por uma espécie de acção directa” – Pires de Lima e Antunes Varela, Código Civil Anotado, vol. II, pág. 92.
Embora a compensação não opere ipso jure – como acontecia no domínio do Código Civil de 1867 e se verifica na legislação de alguns países – no entanto, depois de feita a declaração de compensação, os créditos consideram-se retroativamente extintos desde o momento em que se tornaram compensáveis, por força do disposto no artº 854º do atual diploma.
Para que a compensação possa ter lugar, exige o nº 1 do artº 847º acima transcrito que os créditos sejam recíprocos. Na verdade, justifica-se a extinção dos créditos quando as partes são reciprocamente credor e devedor. Só deste modo se evitam os dois cumprimentos que teriam de ser efectuados. Pode dizer-se que o devedor paga a dívida por meio do crédito que tem sobre o seu credor. Em suma, cada uma das partes deve ser credora da outra. Não se exige, porém, que os dois créditos tenham origem no mesmo contrato bilateral.
A compensação apenas pode abranger a dívida do declarante, e não a de terceiro, ainda que aquele possa efectuar a prestação deste. Por outro lado, só procedem para o efeito créditos seus contra o seu credor – cfr. artº 851º, nºs 1 e 2 do Código Civil.
O devedor pode compensar, mas não o terceiro. Um terceiro pode pagar um crédito alheio, mas não pode extingui-lo por compensação. O devedor só pode utilizar para a compensação créditos seus, não créditos alheios. Tem de verificar-se a já referida reciprocidade das obrigações por forma a que exista uma inversão do sujeito em cada polo da obrigação, excluindo-se a obrigação de terceiros.
A alínea a) do nº 1 do artº 847º prevê ainda que o crédito seja exigível judicialmente e não proceda contra ele exceção, perentória ou dilatória, de direito material. Deste modo, não é possível proceder a compensação com uma obrigação natural contra a vontade do devedor. Referindo-se o preceito apenas ao crédito do declarante e não ao débito, a compensação só não poderá fazer-se se ele invocar alguma das excepções.
A alínea b) do mesmo preceito exige que as duas obrigações tenham por objecto coisas fungíveis da mesma espécie e qualidade. Não basta que as obrigações sejam ambas fungíveis. É ainda necessário que sejam da mesma espécie e qualidade, isto é, os objectos das duas obrigações opostas devem ser fungíveis entre si. Doutro modo, uma das partes poderia ser obrigada a receber uma prestação diferente daquela que tinha sido convencionada, o que se traduziria numa forma de dação em cumprimento.
Não se exige que as dívidas sejam de igual montante. É claro que a extinção da dívida pela compensação só se opera pelo valor do crédito inferior. Se o titular do crédito de maior importância quiser receber a diferença terá de a requerer por outro modo que, sendo na mesma acção, terá de revestir a forma de reconvenção.

O Resgate de D. Sebastião

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Maximiano de Aragão, escritor, historiador e jornalista, dedicou parte da sua vida ao estudo da cidade de Viseu. Viseu retribui dando o seu nome a uma das ruas da cidade.
A cidade de Mangualde também não esqueceu este escritor, que nasceu no seu Concelho e deu também o seu nome a uma das ruas da cidade.
Nasceu na aldeia de Fagilde, Concelho de Mangualde em 14 de Fevereiro de 1868 e faleceu na cidade de Viseu em 2 de Julho de 1929.
Maximiano Pereira da Fonseca e Aragão, foi simultaneamente escritor, historiador e jornalista. Publicou 6 volumes e é notável a sua investigação sobre o Pintor Vasco Fernandes ( Grão Vasco ) apresentando a primeira prova documental da sua existência. Graças aos seus estudos Grão Vasco passou de figura lendária para figura histórica.
Pode ser considerado o biógrafo de Grão Vasco.
É meu parente, em linha directa, em quarta geração. Face aos laços familiares, meu irmão, único irmão, Jorge Carlos, que sempre se dedicou a coleccionar os papéis, as cartas e as fotografias da família, por sorte, encontrou um manuscrito com 222 páginas, em caligrafia muito acessível e apesar do século que lhe caiu em cima, em muito bom estado de conservação, sobre o nosso Rei D. Sebastião e a batalha de Alcácer Kibir.
Este manuscrito, pronto a ser impresso, não o foi com certeza por ter falecido, ainda novo, com 61 anos.
O interessante manuscrito tem o título “ Liquidação de uma Dinastia” e versa sobre D. Sebastião, D. Henrique, D. António, Prior do Crato e Filipe II de Castela, primeiro de Portugal.
Interessante trabalho sobre a Batalha de Alcácer Kibir e as consequências dessa derrota.
Em face de tão importante e interessante manuscrito sobre uma época histórica e tão trágica para Portugal, eu não podia aceitar que ficasse esquecido no baú dos papéis velhos e inúteis.
Bem pelo contrário, ao lê-lo, desde logo decidi que tinha de ser publicado. E, é isso que vai acontecer. Brevemente os estudiosos terão mais um trabalho para aprofundar os seus conhecimentos.
Porém, o que mais me intrigou foi o capítulo sobre o Resgate do Corpo de D. Sebastião. A história da morte de D. Sebastião andou sempre envolvida em lendas nebulosas e até haveria de aparecer, um dia, numa manhã de nevoeiro.
Pois Maximiano de Aragão apresenta factos, figuras e documentos em que demonstra que D. Sebastião foi resgatado em Ceuta, transitou para o Algarve e daqui seguiu para Lisboa sendo sepultado no Convento de Santa Maria de Belém, com assistência de todas as Ordens e com magnificência real.
Esperem pelo livro. Vai ser breve.