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EDITORIAL Nº 766 – 1-12-2019

patrao
Caro leitor
A palmeira!….
Estava a minha neta à janela aquando de uma tempestade, quando de repente chamou: – “avô, chega aqui depressa. Mas porque é que aquela árvore tão forte, que ainda a semana passada o empilhador embateu nela e não caiu, agora tombou com vento e a palmeira continua de pé!?”
– Ó querida Rafaela, respondi-lhe, a palmeira permanece em pé, porque tem a humildade de se curvar no momento de tempestade, a macieira, está velha, deve ter à volta de 40 anos. Foi o meu pai que a plantou e, não teve a humildade de se curvar no momento da tempestade, quis enfrentar o vento.
A palmeira ensina-nos muitas coisas:
A primeira e mais importante, é a humildade diante dos problemas e das dificuldades
A segunda, é que a palmeira cria raízes profundas. É muito difícil arrancar uma palmeira, pois o que tem para cima, tem também para baixo. É preciso que tu aprofundes cada dia as tuas próprias raízes…
A terceira lição, tu já viste uma palmeira sozinha? Quando é nova ainda antes de crescer, permite que nasçam outras, como numa associação (sabe que vai precisar de todos). As palmeiras, há sempre muitas juntas e gostamos sempre de as ver. É difícil arrancar uma palmeira do seu habitat.
Os animais frágeis também vivem juntos para melhor se livrarem dos predadores. Vemos isto em algumas organizações…
A quarta lição, é de não criar galhos. Como tem vontade de um grande e duradouro crescimento, vive em comunidade.
Nós perdemos muito tempo (fútil) na vida tentando proteger coisas inúteis, coisas insignificantes às quais damos valor em demasia. Para se ganhar, é preciso deixar para trás tudo aquilo que nos impede de subir suavemente…
A quinta lição, é que a palmeira é cheia de “nós” e não de “eus”. Como é oca sabe que se crescesse sem “nós” seria muito fraca. Os “nós” são os problemas e as dificuldades que ultrapassamos. Os “nós” são as pessoas que nos ajudam, aqueles que nos estão próximos e acabam sendo a nossa força nos momentos difíceis da vida. Eles são os nossos professores, se soubermos aprender com eles.
A sexta lição é que a palmeira é de interior fraco, vazia de si mesmo. Enquanto não nos esvaziarmos de tudo aquilo que nos rouba o nosso tempo, que tira a nossa calma e paz interior, não somos felizes.
Para finalizar e por ora, é que ela só cresce para cima, num único sentido e direção, um foco.
Devemos construir as nossas vidas como a palmeira e, assim, não haverá lamentações e o mundo será mais justo e mais digno.

Abraço amigo,

REFLEXÕES

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GRUMAPA – Grupo Mangualdense de Apoio e Protecção dos Animais

Construção do Canil / Gatil
Retomo as minhas memórias relativamente ao trabalho hérculeo que desenvolvi nesta tarefa, com outros sócios dirigentes. E se me refiro de quando em vez especificamente ao meu trabalho é porque por sensibilidade e uma maior disponibilidade de tempo, eu me senti impulsionada a ser a máquina que arrasta um pesado comboio fosse qual fosse a carga. É que para além da grande preocupação com as obras do CANIL, eu tive sempre no meu horizonte próximo, o peso dos animais em sofrimento que ao tempo eram dezenas cada qual em situações críticas de abandono, doentes, corpos cobertos de feridas da sarna, atropelados, espancados, também levados para pinhais para aí serem mortos à pancada, cadelas a morrerem com partos difíceis, ninhadas impossíveis de recuperar….Enfim, um ror de situações que me arrasavam e para as quais não tinha nem apoio monetário, nem força de trabalho, já que nem o voluntariado era conhecido e muito menos praticado. Foi sobretudo a partir de 2000, mercê do trabalho contínuo de auxílio a animais que se despoletou este problema aparecendo algumas almas mais sensíveis a aperceberem-se destes verdadeiros dramas. Foi, ainda menininho, o meu vizinho Fábio Costa, o primeiro a dar-me a sua pequena mas preciosa ajuda. No meu terraço e anexos eu, já desde há muito, tinha recolhidos vários cães – o número variava muito rapidamente – uns em tratamento recuperavam, outros não, infelizmente, e aparecia logo outro para o seu lugar. Quando no terraço a população ultrapassava os 18, recorria a um alpendre no quintal, e às garagens. Uma destas passou a chamar-se “ A garagem das aflições”, por já não haver outro lugar de abrigo disponível. Algumas vezes tinha também um ou outro na rua. Toda a despesa com veterinários e alimentação era assumida por mim. NUNCA NADA SAIU DO GRUMAPA. Insisto nesta questão para que fique de vez bem clara a VERDADE dos tempos difíceis. Quando tinha de me ausentar por alguns dias contava com a ajuda de uma funcionária da fábrica, que mediante uma recompensa me cuidava, e bem, dos meus protegidos. Quando o meu Amiguinho e vizinho Fábio, se fez homenzinho, foi a minha bengala em todas as aflições que me surgiam. Também o recompensei da sua dedicação, porque para além do alívio nas minhas tarefas fazia-o por AMOR à causa. Tenho imensas estórias alegres e altamente dramáticas que espero ainda poder descrever para memória futura, porque ser protectora naquele tempo não tem nada a ver com as situações actuais. Hoje proliferam por todo o lado, e ainda bem, grupos organizados, recorrem a peditórios extensos, aparece muito voluntariado e, graças ao esforço dos protectores iniciais, até já temos uma LEI e um partido político!!! Em 20 anos as voltas que o País deu!! Hoje temos as autarquias (algumas) já empenhadas em manifestar o seu entendimento da causa animal!! Que bom! Estamos longe do ideal, é contudo uma excelente porta que se abre para que os Animais e a Natureza mereçam a atenção, que lhes é devida, pela espécie humana. Mas…parece incrível que apesar de tudo não pára quem dê prova da sua grande malvadez para com os seres que têm tanto direito em usufruir condignamente do espaço terrestre como nós.
Que momentos foram estes, que décadas vivi, que trabalhos passei neste mundo que parece tão próximo e tão distante ??!!

nov 2019

“E com o frio, vem o reumatismo…”

Ana Cruz
O frio regressa novamente, trazendo consigo as mazelas como constipações e gripes. De fato, já os nossos avós sabiam que com o frio os pulmões eram, quase sempre, afetados. No entanto as dores ósseas e musculares, também são “visitas” sazonais pouco bem-vindas! Não é por caso que, a maior parte, dos anti-inflamatórios e analgésicos são medicamentos não sujeitos a receita médica, sendo indicados para causas de dor ligeira a moderada.
O termo “Reumatismo”, para peritos de medicina mais minuciosos, é incorreto, dado que retrata de forma popular um conjunto de doenças que afetam as articulações, músculos e ossos. A origem da palavra “Reumatismo”, vem dos gregos ( “Rheuma+ tismós”- fluxo + movimento). Ninguém mais erudito é capaz de negar a sabedoria dos gregos, de fato os médicos, ainda hoje, têm que fazer o juramento de Hipócrates, grego reconhecido por ser o pai da Medicina Ocidental. Sendo que a sua teoria dos humores (que em latim, humore significa líquido) corporais foi aplicada até ao surgimento do método científico. De fato, uma das doenças, mais frequentes que afetam as articulações é denominada por “Gota”, por existir um excesso de fluído\humore na zona afetada. Para os peritos que têm uma linguagem mais técnica, o correto seria denominar doenças reumatológicas, ou utilizar termos como “artrite” ou “osteoartrose”, ao comum “Reumatismo”. Mas como o objetivo é todos fazermos parte da mesma linguagem, mesmo quem é leigo em Medicina, volto a fornecer termos médicos que ajudaram a explicar a significância dos relatórios\ prescrições médicas… Só assim poderá existir uma compreensão positiva para um resultado confortável, estarmos todos a mesmo nível linguístico para formalizar um compromisso de cura! Adiante…Prefixo Osteo= Osso; Prefixo Art = relativo a articulação; Sufixo ose= processo, patologia e Sufixo ite= inflamação.
O sintoma principal é a dor e a incapacidade na movimentação da (s) articulação (s) afetada (s).
Até chegar ao ponto de serem encaminhadas aos Reumatologistas e\ou Fisiatra, sendo este último uma mais-valia para alívio da dor através da prescrição de movimentos que serão supervisionados por fisioterapeutas, muitos indivíduos andam a gemer e claudicar diariamente. Muitos estão a tomar medicação em excesso para tolerarem a dor e conseguirem exercer a sua profissão, porque escutam conversas de conhecidos e desconhecidos a relatarem responsos de profissionais de saúde que associam estas queixas a exigência de baixas médicas para escapar ao serviço laboral.
Na realidade, a causa principal de faltas ao trabalho e reformas antecipadas é devido a doença degenerativa do foro ósseo, muscular e articular. É considerada uma preocupação em Saúde Pública, mas não existe um sistema fidedigno para despistar os casos críticos. Apesar de, na teoria, estar criado esse sistema, na prática quem está no terreno vê um crescendo de procura de especialistas que não satisfaz a necessidade. E a dificuldade em gerar o diagnóstico específico da doença reumatológica, faz surgir um proveito malicioso para quem o trabalho é para os tolos e que de valor é estar a usufruir dias em casa e ainda ganhar subsídios à conta da ingenuidade de quem acredita nos sintomas inventados. Daí muitos profissionais de saúde terem dificuldade em acreditar em quem se queixa sem sinais aparentes, ou quando existem duvidam da subjetividade da dor expressada… Típico “paga o justo pelo pecador “ por o médico achar que “são todos farinha do mesmo saco” !
Assim, há múltiplas causas para ter dor numa articulação, mas o profissional deve ter tempo e escutar a pessoa sem julgamentos e a pessoa deve ser isenta de subterfúgios….
Existem várias estratégias não farmacológicas para alívio da dor numa articulação (artralgia), muitas oriundas pelo senso comum e bons resultados de remédios caseiros e familiares. Na realidade as famosas botijas de água quente, trouxeram muito alívio a muitos queixosos de dores viscerais e articulares. Também na falta de botija, o famoso escalda-pés com um punhado de sal era prática frequente na tia “reumática”, ou no tio “gotoso”…Os cataplasmas de repolho eram ridicularizados pelos peritos de Medicina, mas em última instância mais vale um joelho embrulhado em couve com película aderente do que uma dor de estomago provocada pelo anti inflamatórios… Já referi antes, mas não deixa de ser triste pensar que um dos primeiros medicamentos para alívio da dor tem origem da casca do salgueiro, e agora quem prescreve satiriza com as origens da medicação.
O que deve ficar assente é que o estilo de vida interfere muito nestas maleitas, não é por acaso que a “Gota” ou hiperuracémia, também foi conhecida pela doença dos Reis, devido aos excessos alimentares acometidos por estes. A falta de exercício, ou a repetição de movimentos aumenta o risco de ter dor articular. O motivo de existir cada vez mais este problema tem haver com a falta de consciência de aquecer os músculos antes de uma atividade física intensa e os excessos alimentares. Não hesite em questionar os profissionais de saúde…. Por vezes temos de ser desafiados através de perguntas certeiras!

SANFONINAS

dr. jose
A Casa do Arqueólogo
De tudo o que vem – e muito é, como se verá – no volume 27 de «Adufe» referente a 2019, este título me chamou particularmente a atenção e fui logo ler, deixando para trás outros temas a que já se voltará.
Recordava-me de, no acompanhamento que sempre fiz questão de ter em relação aos vestígios romanos de Idanha-a-Velha (a ‘civitas Igaeditanorum’ dos Romanos), se haver saudado a possibilidade de casas que o Município comprara junto à muralha poderem vir a ser aproveitadas para apoio substancial à investigação. Algo de inovador e mui precioso, atendendo a que Idanha-a-Velha está longe, nos confins do Interior, e de muita coragem se deve vestir quem se decida a lá passar algum tempo a estudar.
Para além de espaço de reserva para alguns materiais arqueológicos que sempre se encontram, haveria um laboratório para o seu adequado tratamento e, sobretudo, alojamento. Diz no «Adufe» que é uma «casa rústica, recuperada com a subtileza e os traços do seu lugar – dispõe de um quarto de casal, outro individual, com duas camas e uma divisória».
Fiquei encantado ao verificar que o sonho se concretizara. Agora, é habitar o local. É mostrar como, ainda em pleno dealbar de um século incorrigivelmente urbano, a vida rural, em plena comunhão com a Natureza e no estudo pelo que os Antigos nos legaram, se pode antojar como realidade a viver.
Aliás, a leitura de mais um número desta revista cultural de Idanha-a-Nova proporciona-nos, na verdade, mil e uma razões para saber que o campo é bom lugar de acolhimento. Na entrevista a Francisco Sarmento, representante em Portugal da ONU para a Agricultura e Alimentação, empenhado no combate às «faces negras da globalização: a fome e a má alimentação» se apontam, por exemplo, caminhos para «quebrar o ciclo da insegurança alimentar e nutricional»: a vontade política e a concertação entre os actores relevantes.
Lugar ainda para ilustrada reportagem sobre o Bodo de Monfortinho; sobre a empresa Sementes Vivas (nome traduzido, certamente pelo ‘senhor Google’, como ‘Living Seeds’!…), sediada em Idanha-a-Nova desde a sua criação em 2015, destinada a promover a produção de sementes ‘100% biológicas e biodinâmicas’; sobre o ímpar acervo de arte sacra do núcleo museológico da Misericórdia de Proença-a-Velha… E convivemos com a pacatez dos valados de pedra solta, e as patas, os pêlos e os olhos de várias e preciosas espécies de aranhas.
«Adufe» é assim: um olhar para o nosso Interior profundo. Como deve ser!

IMAGINANDO

francisco cabral
PARTE 69
Continuação
O que encontro de mais fascinante em Sintra, é a sua vertente esotérica e ligação com o Continente Intraterreno  de Agharta. Num dos capítulos alusivos a esta Vila e nomeadamente sobre a Quinta da Regaleira, mencionei  diversas passagens subterrâneas, que se supõe estarem ligadas às Serras de Montejunto e Arrábida, esta última passando por baixo do Rio Tejo.
Desviando-me do tema “ Vila de Sintra”, embora a  parte seguinte  esteja relacionada, vou aprofundar o Reino Intraterreno de Agharta em que uma das muitas  entradas se dá exatamente por esta Vila.
Sheldan Nidle, conhecido por ser porta voz de canalizações de Seres que “Habitam” numa Dimensão muito elevada, vibrando numa frequência intangível ao Ser Humano,“Os Membros da Federação Galática”, revelou que o nosso planeta, assim como todos os objetos celestes têm uma configuração muito diferente da que normalmente e ao longo de séculos nos foram erroneamente dando a conhecer. A Terra é oca.
Como se de um conto de fadas se tratasse, embora seja a realidade, vou “imaginar” o interior da Terra constituído por duas características principais:
1º-A crosta interior de nossa Mãe Terra é a continuação da crosta da superfície externa ou seja, daquela parte onde habitamos.
Pelas regiões polares  (norte e Sul) existem duas grandes entradas que formam um buraco e aí a crosta se enrola para baixo, ao redor de um manto para o interior oco do planeta.

As duas regiões polares (polos Norte e Sul) têm cada uma grandes entradas ou um buraco, um pouco como uma maçã sem caroço, e a crosta se enrola para baixo e ao redor do manto para o interior oco do planeta.
Como as crostas, interior e exterior são topogràficamente semelhantes, ambas compreendem os Oceanos, Continentes, Montanhas, Lagos e Rios. No entanto  a crosta interior enfrenta o núcleo da Terra que é brilhante e cercado por um véu nebuloso.
Como a Luz emitida para o interior da Terra é mais difusa que a Luz do Sol, ali, a luz do Dia se torna mais suave e macia.
2º-O interior da Terra é um mundo de cavernas, e este locais são ocos dentro do manto planetário. Umas foram concebidas pela natureza, no entanto outras foram feitas por uma civilização, que através de uma tecnologia muito avançada formaram o Reino de Agharta,  parte de uma última colónia terrestre da Federação Galática.

Reino de Agharta 
Quem é esta Federação?
É o remanescente da Civilização Lemuriana, que daquela Dimensão muito avançada, há eons habitou a superfície, e já com um componente subterrêneo. Foi para este subterrâneo que após o cataclismo que provocou o afundamento da Ilha grande do Pacífico, fundaram uma segunda capital no interior  do Planeta, mudando para alí o seu governo.
Posteriormente o governo de Atlântida que outrora governava, mandou selar a entrada principal do túnel, e este sêlo só foi quebrado pelos Lemurianos, quando se deu a catástrofe de Atlântida. Foi assim possível salvar muitos moradores Atlantes.
Como curiosidade, foi esta Sociedade, que mais tarde regressou à superfície  e fundou  no sul da Ásia um Império, hoje a India.
Embora desviando o tema “Vila de Sintra”, na próxima edição do jornal, continuarei com o mesmo, porque e na minha imaginação, está relacionada com a humanidade no seu todo. A relação de Agharta  com Sintra, já é óbvia.
Continua
fjcabral44@sapo.pt 

CONTOS COM MEMÓRIA

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A SARDINHEIRA (Um conto da minha avó)
Pairavam ainda no ar os ecos de uma segunda guerra mundial que abrira profundas feridas na arraia – miúda. A fome e a miséria coabitavam com toda a populaça rural da nossa região e a minha aldeia não fugiu á regra. Numa humilde casita alicerçada em “pedra borralheira“, prometendo esboroar-se a toda a hora, coberta com telha vã e divisões em ripas, num casal isolado no arrabalde do povoado vivia a Micas. Era uma viúva que já ia no sexto filho que de tão pequeninos quase cabiam na canastra que todos os dias transportava á cabeça para vender as hortaliças e os legumes da sua lavra na vila de Mangualde. O seu único sustento provinha-lhe do cultivo de duas pequenas leiras que arrendava já do tempo dos seus finados pais, da criação de alguns coelhitos, galinhas poedeiras e frangos, estes só para dias de festa ou quando alguém acamasse. O amanho da terra, o cuidar dos filhos e o dia – a – dia da jorna cavando e semeando nas leiras dos senhores abastados da aldeia para fazer proveito de alguns magros tostões, tomavam-lhe todo o tempo. Os filhos ficavam entregues á filha mais velha menina de perfumados doze anitos, flor de natureza frágil e dolorosa com estrela que já sente de longe os olhos que a contemplam. Quando algum galináceo anunciava com alarido o rompimento da casca de mais um pinto gerava-se alarido na capoeira e na filharada. A excitação e alegria era grande quando havia um dia de três ou quatro ovos. Era a troca de um ovo por uma sardinha que dava para dois, três sardinhas seis filhos.Para si um pequeno naco de broa bastava. Micas era analfabeta, escola nunca vira, mas a fazer contas nem o taberneiro da aldeia lhe deitava água nas mãos. Toda a alimentação da sua prol, tanta boca faminta era a sua grande preocupação.
– Amanhã vem a sardinheira! … Vamos todos comer sardinha! …
Foi uma festa antecipada entre a filharada. Mas a sardinha exigia troca e precisava de mais dois ovos para juntar aos que já tinha. E se as galinhas se portassem bem, talvez pudessem cada um comer uma sardinha inteira. Era a sardinheira uma velhota “que nunca mais morria“ como se lamentava quando chegava à porta do freguês com a caixita à cabeça de madeira mal amanhada com as sardinhas já ardidas… ardidas sim, porque ardiam na boca de tal forma que ás vezes a “empolavam”. Os tempos eram difíceis e não corriam de feição para o negócio. Como rareava o dinheiro, aceitava os ovos ou os próprios galináceos como moeda de troca para no dia seguinte vender na vila de Mangualde. Mas nem sempre as coisas correm de feição. A sardinheira estava próxima a chegar e o raio das galinhas não deitavam cá para fora os tão almejados ovos. Debicando aqui e acolá muito entretidas entre si, a cacarejar mantinham-se alheias, não tendo sequer a noção da aflição que estavam a provocar. Mas a necessidade aguça o engenho e Micas teve um rasgo luminoso uma ideia brilhante: molhou o dedo mindinho bem molhado em água, passou-o por sal grosso e introduziu-o no “oveiro“ das galinhas para abreviar a postura. Alvoroçou-se a capoeira quando em breve tempo passado as galinhas cantaram a anunciar a boa nova. Estalou a festa entre a pequenada, houve uma sardinha inteira para cada um, sardinha que pingava na broa e ardia na boca.
Sentada na soleira granítica da sua velhinha casa, embrulhada no seu xaile preto de lã , quando o sol poente já lhe batia na sua fronte rugosa e pensativa, perescrutando o horizonte com o seu nublado olhar, absorta inquietava-se nas suas cismas.
– Olha meu neto, nunca te esqueças do velho rifão: “nunca contes com o ovo no cu da galinha“.

A Convenção Sobre os Direitos da Criança

juiz
Em 20 de Novembro de 1989, as Nações Unidas adotaram, por unanimidade, a Convenção Sobre os Direitos da Criança, o que quer dizer que perfez recentemente 30 anos. Portugal ratificou-a em 21 de Setembro do ano seguinte.
A Convenção constitui um marco de mudança, porque aos direitos básicos que, como é evidente, não podiam deixar de estar presentes, visto que são o pródromo dos demais, seguem-se aqueles que constituem uma verdadeira inovação, como o direito à opinião, o direito à liberdade de expressão, o direito de reunião e o direito à privacidade.
Na impossibilidade de fazer referência a todos estes direitos inovadores, focaremos por ora, embora de forma sucinta, sobretudo o direito de emitir opinião.
Relembraremos, no entanto, que o interesse superior da criança deve estar subjacente a qualquer decisão em que a mesma esteja em causa. Cada Estado que ratificou a Convenção passou a ser responsável por que as normas que respeitam aos direitos nela contemplados não constituam letra morta.
Começa a Convenção por definir a criança como sendo todo o ser humano menor de 18 anos.
Em Portugal a maioridade civil só se atinge a partir dessa mesma idade, conforme resulta do disposto no artigo 122º do Código Civil. Ao perfazer 18 anos atinge-se a plena capacidade de exercício de direitos, por força do artigo 130º do mesmo diploma. Pode-se, porém, obter a emancipação, de pleno direito, pelo casamento, nos termos do artigo 132º ainda do Código Civil, sendo certo que a idade núbil começa aos 16 anos para ambos os sexos.
Cada Estado, ao ratificar a Convenção, assumiu o compromisso (previsto no artigo 2º) de evitar qualquer descriminação por causa da raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou outra da criança, de seus pais ou representantes legais, ou da sua origem nacional, étnica ou social, fortuna, incapacidade, nascimento ou de qualquer outra situação.
Em cumprimento do artigo 12º da Convenção, os Estados devem garantir à criança com capacidade de discernimento o direito de exprimir livremente a sua opinião sobre as questões que são do seu interesse.
Recuando no tempo, concluímos facilmente que o dever dos pais de ouvir a opinião dos filhos estava ainda muito longe de ser concebido. Só numa época relativamente recente a criança adquiriu o estatuto de pessoa no sentido de sujeito de direitos. Inicialmente apenas estavam previstos os seus direitos mais elementares, onde não se incluía o de ter opinião. Este só surgirá muito mais tarde. Quer dizer, o respeito pela opinião da criança nos assuntos do seu interesse é fruto de uma demorada evolução, significando um longo caminho percorrido.
A criança deixou de ser vista apenas como um ser em desenvolvimento, cuja proteção cabia exclusivamente aos adultos, para ser tida como verdadeira titular do direito de emitir opinião sempre que estão em causa as bases da construção da sua própria vida.
Atualmente, o respeito pela opinião da criança encontra-se consagrado em vários artigos do nosso Código Civil. Ressalta desde logo que, de uma conceção autoritária dos pais, passou-se a um regime em que se procura dar a imagem de família solidária. Assim, enquanto anteriormente se determinava que “os filhos devem honrar e respeitar os pais”, hoje, concebendo uma posição mais igualitária entre pais e filhos, dispõe o artigo 1874º que “pais e filhos devem-se mutuamente respeito, auxílio e assistência”.
Embora o nº 2 do artigo 1878º disponha que “os filhos devem obediência aos pais”, logo o preceito acrescenta que estes devem ter em conta a opinião dos filhos nos assuntos familiares importantes e reconhecer-lhes autonomia na organização da própria vida. Esta obrigação de auscultar a opinião dos filhos estará dependente do grau de desenvolvimento destes, apenas se tornando obrigatória nos casos em que já estejam em condições de emitir um juízo fundamentado acerca dos assuntos em discussão.
O direito de serem ouvidos, que os filhos adquiriram, manifesta-se ainda em outras disposições do Código Civil. No que tange ao exercício das responsabilidades parentais na constância do matrimónio, dispõe o artigo 1901º que pertence a ambos os pais e que deve ser exercido de comum acordo. Quando o acordo faltar, nas questões de particular importância, qualquer deles pode recorrer ao tribunal que tentará a conciliação. Mostrando-se a mesma impossível, a decisão caberá ao juiz, que terá de ouvir previamente o filho, salvo quando circunstâncias ponderosas o desaconselhem.
Fazendo um exame retrospetivo, verificamos que a lei impunha ao juiz a obrigação de ouvir o menor, antes de decidir, apenas nos casos em que ele já tinha atingido a idade de 14 anos. Atualmente não é fixado qualquer limite de idade o que significa que deve ser o seu grau de maturidade a determinar a obrigação de o consultar.
A idade a partir da qual se impõe que a criança seja ouvida, foi igualmente encurtada para os 12 anos nos casos de adoção, quanto aos filhos do adotante. Por sua vez, para a adoção é necessário o consentimento do adotando maior de 12 anos.
Igualmente, ao completar a idade de 16 anos, o menor alcança uma situação que se poderá designar por maioridade religiosa. Os pais só podem decidir sobre a educação religiosa dos filhos menores de 16 anos – artigo 1886º.
Muito mais poderia ser dito a tal respeito, mas teremos de ficar por aqui para não tornar demasiado extensa a exposição.

Jogo de Cartas – Uma guerra de classes

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Jogar as cartas pode ser um entretenimento, ou um vício.
As cartas, segundo uns foram inventadas pelos chineses e segundo outros pelos àrabes
Após o desenvolvimento dos processos de impressão, rápidamente se propagou por toda a Europa a sua popularização no século XIV.
Os portugueses,que sempre foram muito inventinos, ou copiadores, neste caso, criaram um baralho português que levou pelos seus navios para o Oriente, principalmente para o Japão. Em 1769, o Marquês de Pombal, criou a “ Real Fábrica de Cartas de Jogar de Lisboa” anexa à Impressão Régia. Foi um sucesso de vendas. Este baralho de cartas extinguiu-se no século XIX, sendo substituído pelo padrão francês, universalmente aceite.
Carlos VI da França, encomendou ao pintor francês Jacquemim Gringonnem que criou as cartas de forma a representar a sociedade francesa da época.
O baralho francês de 52 cartas, divididas em 4 naipes de 13 cada, têm simbolos próprios, herdados da tradição francesa da idade média, cada qual com a sua explicação histórica.
Os Paus representam os camponeses, as Copas o Clero, as Espadas, os militares, os Ouros os comerciantes. O Rei, a Rainha (Dama) e o Valete, representam as altas figuras da monarquia. Depois temos o “ Às”, a carta máxima que se refere a uma moeda antiga, valiosa, do tempo dos romanos.
Em resumo, o Baralho Francês , tem 52 cartas, tantas quanto as semanas do ano. Quatro naipes, tantos como as Estações. E, as combinações de pontos de cada baralho são 365, igual ao número de dias do ano, não bissexto. Há ainda o “ Joker” que representa os palhaços dos jograis realizados nos castelos medievais.
As cartas permitem jogar individualmente, ou fazer jogos colectivos em que se pode jogar em equipa. Com os múltiplos jogos que proporcionam, tornaram-se um fenómeno universal, por proporcionar momentos de distração.