Arquivo mensal: Dezembro 2015

EDITORIAL Nº 676 – 1/1/2016

SR

Caro leitor

Vou falar-vos de um episódio, coisa que faço habitualmente neste espaço. Histórias de vida.
Na minha juventude tinha um amigo com quem desabafava e afirmávamos conceitos. Esse amigo, encontrava graça nas moças, era um sortudo, mas não primava pela inteligência e somava o facto dos pais serem da classe média baixa.
Um dia, o rapaz conheceu uma menina e apaixonou-se por ela. A moça, não sendo de família nobre e endinheirada, tinha nome e o suficiente para parecer rica. Esta, sem experiência na arte de amar, engraçou com o meu amigo, demonstrando nos seus modos o que lhe ia na alma.
As famílias eram amigas e visitavam-se regularmente. Era hábito no meu tempo, uns com maldade, outros sem ela.
A mãe do moço viu com bons olhos este amor, mas o mesmo não aconteceu com os pais da jovem, porque a prudência assim o aconselhava.
Certo dia, estavam nas férias do Natal, encontraram-se para confraternizar e provar um bolo da nova pastelaria. A mãe da moça encaminhou a conversa para casamentos e disse que gostava que a filha casasse com um engenheiro, pois queria ter na família alguém formado em engenharia, uma vez que o pai era construtor civil. “A menina ainda é muito nova para pensar nisso”, disse a mãe do rapaz. Retorquiu a mãe da moça, “mas é bom alerta-la já para o futuro, não venha a ser enganada por um caçador de dotes”.
O rapaz tudo ouviu em silêncio e veio contar-me destroçado. Entristeceu-me profundamente o coração quando me disse “se pudesse seria engenheiro, mas não tenho inteligência para tal”.
Certo é que a moça, deixou de corresponder aos olhares do rapaz, possivelmente por recomendação de seus pais.
Os anos passaram e passam.
Um dia de verão, encontrei o meu amigo na doca de Portimão. Demos um abraço e disse-me que já estava casado. Perguntei-lhe se foi com a Mafalda. Ficou com um ar tenso e sério, e acrescentou, que se tinha casado também, mas não com ele, referindo ainda, “sabes, nunca a esqueci, vivo com esse martelo a martelar-me todos os dias, mas tenho que seguir em frente”. Coitado do meu amigo, se tivesse um pouco mais de inteligência e dinheiro na bolsa, teria sido o marido ideal da Mafalda, a moça que lhe tocou o coração.

Feliz 2016 e um abraço amigo,

VISITAR DOENTES DEVER DO CRENTE E NÃO CRENTE

Entre o reduzido número de amigos de meu pai, contava-se um frade.
Conhecera-o em soalheira tarde de Verão, quando foi encarregado de realizar reportagem sobre certo santo, de certa Ordem Religiosa.
E de tal modo ficaram amigos, que durante longos anos, visitava-o no seu conventinho.
Chegaram a trocar presentes e debater assuntos transcendentes, de interesse de ambos.
A amizade era notada por todos, e de tal jeito, que aos poucos tornou-se conhecido e amigos de quase todos os irmãos da comunidade, inclusivo o Superior e Provincial.
Um dia, a doença que o levaria à morte, atirou-o para Casa de Saúde, onde permaneceu semanas acamado e com poucas esperanças de vida.
Nas suas horas de solidão e desespero, pedia para telefonarem aos amigos, para que o fossem visitar, já que se sentia só, perdido e desanimado num quarto de hospital.
Apareceram familiares, principalmente o primo Júlio – sempre prestável, sempre pronto a fazer pequenos favores, e a visitar e animar doentes.
Além do Júlio, poucos mais apareceram…Os inadiáveis afazeres não lhes permitiam….
Lastimoso, contava aos filhos e à empregada, que, por tanto tempo haver servido a nossa casa, tornou-se membro da família:
– “Parece impossível, nem o Frei X, que mora tão perto, apareceu…”
Mais tarde – no interregno que a doença lhe deu, – foi ao convento para visitar o amigo “atarefado”.
Não estava. Atendeu o porteiro, que prestimoso, foi chamar “um senhor padre”.
Ao abordar a hospitalização, meu pai referiu-se ao facto de Frei X, não ter aparecido, devido a não ter transporte disponível. (Desculpa que lhe deu, pelo telefone.)
Em resposta, ouviu:
– “Não tinha transporte?! … A Casa tem carro. Eu próprio o levaria, com muito gosto, no meu automóvel! …”
Uma das obras de caridade do cristão é visitar presos e doentes.
Que haja receio de confortar presos, compreende-se, mas que não se visite doentes, mormente conhecidos e amigos, é falta de Amor cristão e humanamente imperdoável.
O desprezo. A indiferença e principalmente a ingratidão, costuma doer mais que a doença, mesmo quando é grave e mortífera.
Humberto Pinho da Silva

TEMPO SECO

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O Prestígio da Ignorância
Pode ser a ignorância uma matéria prima para o progresso? Ninguém o imaginaria há algumas décadas atrás, quando a sabedoria era tida como uma saborosa nutrição e a ignorância por um desconfortável jejum. Da primeira esperava-se sempre a adequada decisão, enquanto da segunda só provinha a inação. Tornar-se assinante para continuar a ler…