Arquivo diário: 2 de Setembro de 2019

EDITORIAL Nº 760 – 1/9/2019

serafim tavares

UMA VEZ QUE SOU CANDIDATO A DEPUTADO PELO CIRCULO DE VISEU, PELO PARTIDO NÓS ALIANÇA, DEIXO A MINHA BIOGRAFIA

SERAFIM FERREIRA GOMES TAVARES
Quis Deus e meus pais que, no primeiro dia de Agosto de 1959, fosse, Serafim Ferreira Gomes Tavares, interveniente neste mundo e, desde cedo, junto da família empenha-se na colaboração direta com as atividades que seus pais exerciam. Dois anos trabalha na construção civil, de seguida é chamado a cumprir o serviço militar, em Janeiro de 1980.
A Guarda Fiscal foi o próximo passo, onde entra a 12 de Maio de 1982 na Escola de Queluz em Lisboa, em que num universo de mil candidatos, obtém o lugar de 392, sendo colocado a exercer estas funções no posto de Alvor, Portimão.
Contrai matrimónio no primeiro dia do ano de 1983 com Maria de Lurdes de Almeida Pimentel e nasce o primeiro filho em 1986, Luís Carlos Pimentel Tavares, mestre em Engenharia Civil e em 1988, nasce Isabel Pimentel Tavares, Licenciada em Economia, mestre em Economia Internacional e Estudos Europeus ambos pela Universidade Coimbra e pós Graduação em Análise Financeira em Lisboa. Como tal, pede transferência para o batalhão nº4 em Coimbra onde entra em 1985. Passou pela 5ª Companhia em Aveiro, onde ….

REFLEXÕES

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Contributos para a história de Mangualde
GRUMAPA- Grupo Mangualdense de Apoio e Protecção dos Animais
Construção do canil / gatil
Na anterior abordagem apontamos o início das construções em 2005. Para começar tínhamos disponível a primeira tranche do subsidio que nos havia sido concedido pelo Estado. Contudo, no seu todo, não daria, possivelmente, para erguer um terço do projectado. Como referi anteriormente valeu-nos contar com a colaboração da Autarquia, ao tempo liderada pelo Amigo e também sócio Dr Soares Marques e, em abono da verdade, devo dizer que foram inexcedíveis. Também os donativos de alguns extraordinários Beneméritos nos trouxeram grande acalmia nas horas de agrura acentuada. Então ao longo dos meses a obra foi crescendo. Para mim as complicações do processo construtivo eram muito vagas. Surgiam situações que precisavam da orientação de alguém com bons conhecimentos nesta área. O nosso vice-presidente do Grupo, professor Benjamim Dias, era a pessoa bem informada que nunca descurou a troca de impressões e aconselhamento com o construtor, tendo sido, também a pessoa mais disponível para avaliar as necessidades permanentes de todo os trabalhos. Faço esta afirmação sem, de modo algum, pretender menosprezar a excelente colaboração dos restantes elementos directivos. Acontece que, ao tempo, ele se encontrava um pouco mais solto de obrigações profissionais, tal como eu.
Não irei descrever, porque qualquer um pode imaginar, o que terão sido os dias, as semanas, os meses, recheados de problemas e angústias e que se arrastaram ao longo dos anos desde 2006 até finais de 2011. Seis anos brutais, porque as grandes obras não nascem com um gesto de varinha mágica. Quem viveu as diversas e inenarráveis situações jamais esquecerá. Quando a sede se encontrava quase pronta relativamente às estruturas era necessário pensar-se na colocação do pavimento. A área era grande, precisávamos de muitos metros quadrados e comprar no comércio local era-nos impossível. Então expus a minha ideia ao Grupo no sentido de se contactarem empresas de fabrico de ladrilhos, tentando comprar material de refugo a preço mínimo. Eu sabia que havia várias ao longo da estrada nacional para norte e para sul de Coimbra. Um dia decidi pegar no carro e ir fazer esse percurso. Todas as fábricas que contactei, para sul, disseram que não tinham. Regressei a Mangualde “ de mãos a abanar” como se diz na gíria. Desiludida, claro, mas não desanimei. Na semana seguinte, decidi repetir a viagem – agora iria para norte de Coimbra. A primeira que por ali contactei foi a GOLDECER, na Malaposta. A extraordinária recepção por parte do Gestor deixou-me emocionada. Como ele entendeu tão bem a importância da causa animal!! E ainda era tão pouco divulgada! Terei de dar a conhecer o comportamento desta empresa. Embora não me conhecessem, pela documentação que levava perceberam que eramos gente de bem. Então, fizeram-nos a seguinte oferta – das seis paletes que precisávamos eles ofereciam-nos quatro e nós pagaríamos duas a preço simbólico. E não seria refugo! Este pagamento era necessário para justificar a deslocação de um camião da empresa (!) no transporte do material até ao GRUMAPA!! Quer dizer, para além da extraordinária oferta do material, ainda o colocavam no lugar, gratuitamente!!! Seriam cerca de 200 km ida e volta! Fiquei sem palavras, a emoção era muita… Mas também nos ajudou a avaliar comportamentos em relação a alguma “ boa gente” cá do burgo. Em boa verdade atitudes como a deste Gestor fazem-nos, ainda, acreditar na grande sensibilidade e valor MORAL dos humanos de ELEIÇÃO… os restantes ficarão sempre pelo caminho…
agosto 2 019

Conversas Perdidas….

Ana Cruz
Tudo o que é inusitado estimula sempre a atenção de qualquer um. Quando não há justificação ou uma resposta óbvia, a curiosidade surge.
Quando a luz durante a noite era de candeia de azeite, quando o tempo era medido pela posição do Sol do horizonte, todo o mistério era esclarecido pelas palavras experienciadas e empíricas dos anciãos. Através de histórias contadas à lareira, através de exemplos vividos na comunidade, tudo era transmitido sob a forma de monólogo com uma plateia de adultos e crianças sedentos de sabedoria prática. A Natureza sempre foi rainha dos destinos humanos e conhecer os ciclos naturais sempre foi o objectivo do ser humano para sentir algum controle da sua vida. Por isso, seria cair em vergonha desconhecer os ciclos do próprio corpo ou ter pouco conhecimento geral.
Lembro-me de uma rapariga de 9 anos ter iniciado dores abdominais e os pais decidirem ir ao hospital pediátrico de Coimbra, onde após ter realizado vários exames e observação médica, não lhe foi diagnosticado qualquer mazela urgente. Como vivemos na era da medicina defensiva, o médico marcou uma nova avaliação física, 1 semana depois, para despiste de apendicite iminente. (os médicos são pressionados, pela opinião pública, a realizarem exames ou observações desnecessários! Ser processado por passar exames a mais não se ouve, mas já o contrário….). Na azáfama da vida diária, nunca lhe foi explicado o mistério da fertilidade feminina, e 2 dias depois numa ida à casa de banho na escola onde frequentava gerou um alvoroço de tal ordem que tiveram que chamar os pais. A miúda gritava e chorava dentro do cubículo e ninguém sabia o que se passava. Não abria porta e não explicava o que lhe provocava tanta agitação, apenas chamava pelo pai e mãe em tom assustado. O pai foi o primeiro a chegar para acalmar a criança, e conseguiu persuadir a filha a abrir a porta. Afinal a dor de barriga era o primeiro sintoma da filha iniciar puberdade. O susto da garota foi motivo de troça, por não conhecer o verdadeiro motivo de surgir o tom avermelhado na roupa íntima. Afinal a apendicite era a menarca! (primeira menstruação). Mãe e pai, a trabalharem num estabelecimento hospitalar, olvidaram de esclarecer à filha o que é o ciclo menstrual! De fato, a resposta imediata quando questionados por esta omissão foi “costumava ser a avó a falar disto”.
Num convívio quase inexistente com elementos mais maduros da família, isto pode ocorrer a qualquer um! Temas proibidos em ambientes familiares, a educação sexual é quase sempre delegada à escola, amigos e pesquisa na Internet! Mas quando deve ser abordado este assunto? Quando é que os pais se sentem preparados para reconhecer que a filha ou o filho estão a ter alterações próprias da puberdade? Pois…. Somos todos diferentes e as atitudes e a forma de proceder têm de ser adequadas a essa diferença. Abordar este tema tão quotidiano torna-se constrangedor por questões culturais e normas sociais. Este assunto era quase sempre delegado às mulheres mais maduras da família (tias, avós) e sempre em momentos de maior intimidade durante a realização de tarefas domésticas. Durante a preparação de um bolo, durante a lavagem de uma roupa, durante a costura de uma roupa, quase sempre eram momentos de reflexão e conversas mais profundas e quase sempre o tema era iniciado pela voz da experiência com um “Então já te tornaste mulher?”. Altura em que questionar não ofende, momentos em que quem explica sente-se útil, porque quem ouve necessita da informação e está atenta. Essas conversas eram um elo de ligação na relação familiar que tornava as memórias futuras frutuosas.
Hoje em dia o papel dos avós é importante para educação diária das crianças, mas devido à tecnologia e à constante crítica dos pais\ filhos, muitos são os avós que têm receio de iniciar o assunto da fertilidade\ sexualidade. Muitos são os idosos que comentam que “na minha altura uma rapariga já sabia disto tudo aos 13, agora só acreditam no que telemóvel diz…” ou então “… a minha filha reclama, porque ainda são crianças…Mas a Natureza quando aparece não fala com a gente e sempre me dizia que mulher prevenida vale por duas!”
A melhor ferramenta é sempre esclarecer antes de a menstruação surgir, e falar de forma calma e clara. Existe uma ideia generalizada que ter menstruação\ período é algo negativo e incomodativo, mas é um sinal de saúde. A verdade pode ser dura, mas as mudanças fisiológicas na rapariga são mais precoces e mais evidentes que os rapazes. Se for pai\mãe de uma criança não delegue esta situação, mas tenha um papel participativo. A educação sexual foi contemplada no curriculum escolar, mas devem ser as pessoas que estão diariamente com a criança que devem explicar. Se tiver dificuldade apoie-se dentro da família em quem está mais confortável em falar no assunto, e em último caso apoie-se na equipa de saúde da sua unidade de saúde. Para que o seu filho\ filha saiba respeitar o seu próprio corpo, deve ter um conhecimento básico do mesmo, e vai verificar que será uma base futura para criar confiança em si mesmo e no Mundo.

MEMÓRIAS ESBRANQUIÇADAS DE UM TEMPO SEM TEMPO

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PROFISSÕES CAÍDAS EM DESUSO
1ª PARTE
Uma rápida evolução tecnológica de um mundo global em transformação constante, levou que muitas profissões tradicionais do século passado, num período ainda não muito distante, caíssem em desuso, mesmo no esquecimento, muitas não sendo já do conhecimento da nossa juventude actual. Santo André aldeia do trabalho, assim conhecida nas décadas de 40, 50 e 60. Mas desde tempos longínquos que os seus habitantes eram artesãos, ou “fazedores de artefactos“. Trabalhavam as matérias primas existentes na região: o vime, o granito, o metal, a madeira, e outros materiais. Montavam pequenas oficinas nas suas próprias casas ou em pequenos barracões, ou na próxima vila de Mangualde. Trabalhavam a matéria prima com as suas próprias mãos imprimindo nos objectos o seu cunho a sua marca pessoal. Algumas das profissões existentes na nossa aldeia aqui ficam como forma de homenagem pela riqueza cultural que nos transmitiram através de décadas.
O Sapateiro: O mestre sapateiro, o manufactor de calçado que na sua apertada oficina batia com o martelo na sola. Eram os sapateiros que na época faziam o calçado á mão, consertavam as botas, os sapatos e deitavam meias – solas e gáspias. Viamo-los sentados á banca a coserem com a sovela os fios ensebados. A ferramenta mais utilizada era o martelo, a turquês, o pé de ferro, as formas, a grosa, o assentador, a faca, sovela de palmilhar, roleta de vira, ferro de burruir, sovela de pontar, alicate.
Os Serradores: Em tempos idos não havia fábricas de serração de madeiras. Pelas matas iam os serradores que cortavam os pinheiros com um serrote, traçavam-nos em rolos conforme as medidas desejadas. Com o machado tiravam-lhe as “falca“ dando uma forma quadrada ao tronco. Com um fio molhado em tinta era “alçado” o pau para deixar marcadas as peças de madeira que iam ser serradas. Em seguida os serradores içam o tronco e colocam-no em cima da “ burra“ e dos “cavaletes“. Dois homens agarrados “á serra de peito“, um em cima outro no chão, fazem correr os dentes da serra abaixo e acima. Houve serradores na nossa aldeia, que no decorrer de anos e anos serraram as “chulipas“ ou “travessas“ em que assentavam os carris do caminho de ferro e ainda tábuas e enxáimeis para a construção civil.
(Continua no próximo número)

IMANGINANDO

francisco cabral
PARTE 63
Continuação
Mantendo o tema iniciado da parte 62, há uma outra lenda sobre o menino do Cabo da Roca. Conta que ele havia sido raptado por uma bruxa que o escondeu num buraco naquele local. A mãe já pensava que a criança tinha morrido por ter caído ao mar, mas a sua alegria foi tal, quando uns pastores que salvaram o menino, lhe bateram à porta  devolvendo-o à sua progenitora. Entretanto em conversa com sua mãe, a criança conta que sobreviveu todo aquele tempo por causa de uma velhinha que diàriamente o alimentava com uma sopa de cravos. A mãe emocionada com o que o filho lhe acabara de contar, ambos se dirigiram à Igreja da sua aldeia para agradecer o milagre. Foi então que o menino descobriu que aquela humilde velhinha, era nem mais nem menos do que Nossa Senhora.
Sobre a Lenda do Palácio de Seteais. Hoje transformado num hotel de cinco estrelas, tendo um sumptuoso jardim a ornamentá-lo à sua frente. Após o Sim perante a Igreja ou Notário, muitos noivos se deslocam àquele maravilhoso jardim, tirando fotos para recordação futura.
Conta a lenda que neste local  ao gritar a palavra “ai” o seu eco é devolvido sete vezes e a mesma diz, que foi causada por uma jovem moura apelidada de Anasir. Anasir era prisioneira dos mouros e estava condenada a morrer, se pronunciasse a palavra “ai” sete vezes. Num momento de fuga foi salva por um fidalgo de nome Mendo Paiva, que por ela se apaixonou. Infelizmente a jovem foi encontrada pelos mouros e o seu desespero foi tal que incessantemente gritou a palavra “ai”, vindo a morrer degolada ao pronunciá-la pela sétima vez.
A lenda do Penedo dos Ovos, conta a história de uma velhinha que acreditava que debaixo desse penedo, havia ouro. Como acreditava que o ouro era todo seu, começou a atirar ovos para aquele mesmo penedo e a lenda diz que o musgo de côr amarela que o envolve, é fruto dos ovos que ela atirou ao penedo e que o amarelo seria a gema desses mesmos ovos. A velhinha nunca encontrou o que dizia ser o seu tesouro.
Há uma outra lenda do Jardim da Lendária, e um dos que rodeiam o Palácio Nacional de Sintra, que conta a história que este seria o local  para as jovens mouras se banharem e desfrutarem da beleza daquele local, despertando o olhar dos rapazes que entre as ramadas espreitavam e apreciavam a alegria destas donzelas destacando-se um, que seguia a doutrina cristã e por quem uma das donzelas se apaixonou. Só que o rapaz desconhecia que a mesma era casada. Quando seu marido descobriu o adultério matou-a. No entanto diz-nos a lenda, que esta Moura todas as noites vem ao jardim, à procura do jovem cristão por quem ela se apaixonou.
Por estas Lendas e perante o mistério que envolve a Serra de Sintra, fico resignado que ela tem uma História profunda, que só a floresta e os minerais que a compõem podem desvendar. Séculos se passaram e este local, nunca deixou de despertar a curiosidade de gerações. Isto define que estamos perante um enigma que só os próprios elementais da natureza nos podem contar a sua verdade, que creio seja apaixonante.
Continua
fjcabral44@sapo.pt

SANFONINAS

dr. jose
Farto, farto, farto!
Poder-se-ia, quiçá, perguntar porque optei, nas últimas crónicas, pela tri-repetição. Tem razão a pergunta e eu respondo.
Primeiro, porque, no dia-a-dia, cada vez andamos a repetir as frases. Nem sempre temos sorte e, por mais que a água bata na pedra, há pedras duras de mais e não passamos da cepa torta!
Depois, porque se está a tornar um hábito repetir a pergunta que nos fazem. Sei que, em ambiente de exame, o aluno repete não apenas para se aperceber se compreendeu a questão, mas também – e sobretudo! – para ganhar tempo, pois a repetição lhe dá azo a repensar na resposta.
Em terceiro lugar, porque Amália Rodrigues agradecia sempre três vezes os aplausos e agora é que eu apreendi que se deve agradecer três vezes: bem hajam! Bem hajam! Bem hajam!…
Neste caso, a minha intenção foi partilhar uma ideia. Aquela do copo meio cheio ou meio vazio, a visão optimista ou a pessimista.
Todos a conhecemos e aproveito a pausa de Agosto – mesmo que não estejamos em férias, o País pára bastante, há menos trânsito, menos correio, muita repartição a meio gás… Gosto mesmo do mês de Agosto por causa disso, até há menos cães a passear e o meu Spike anda mais à vontade!…
Pensei em frases negativas que oiço e aqui vão algumas, susceptíveis de denunciar como, amiúde, não estamos bem connosco nem com o mundo em que vivemos, o nosso mundo de familiares, dos amigos e dos vizinhos… assim como o mundo em que os políticos nos obrigam a viver….
«Tem avondo!» – desta gosto. É a frase que podes dizer quando te põem um bom vinho no copo e te parece que já chega. Claro, aplicada à política, às asneiras cometidas por quem não vive o País real, «tem avondo!» é o mesmo que dizer «Chega! Vocês não percebem nada disto! Desçam à realidade!»…
Há frases e palavras de que eu não gosto:
– «Isto é tudo uma porcaria!».
Não gosto da palavra nem da frase. Primeiro, porque muitos dias como carne de porco e sabe-me bem; depois, porque, o porco já não é criado, hoje, em pocilgas mal-cheirosas; e, em terceiro lugar, porque nem tudo é sujidade o que se vê.
– «Estou farto disto tudo!»
Se calhar, não. O menino só está cansado é dalgumas coisas; mas… a culpa não será sua, de lhes dar importância de mais?…
– «Bolas! Estás cheio de pêlos dos gatos! Nunca estás atento! É sempre assim! Todos fazem o mesmo!».
Cheio, nunca, sempre, todos – vocábulos que nos enchem a boca. Felizmente, porém, não enchem (não deviam encher!…) os nossos dias!

A VIUVEZ DA MULHER

juiz
Começaremos por lembrar que só se pode falar de viuvez a partir do momento em que passou a haver uniões conjugais. Na verdade, se recuarmos até ao tempo em que a mulher vivia em agrupamentos sociais mais primitivos, nomeadamente no seio do clã, é sabido que ela não pertencia a um só homem, mas a todos os que faziam parte do mesmo agrupamento. Sendo assim, o decesso de um ou de alguns dos homens do grupo não tinha qualquer repercussão no estado civil da mulher, pois continuava a “pertencer” aos restantes. Pela mesma razão também não se podia dizer que algum dos homens ficava viúvo quando falecia uma mulher que a todos “pertencia”.
É claro que todo este estado de coisas se alterou a partir do momento em que a mulher passou a “pertencer” a um único homem e se constituiu a família. A morte de um dos membros do casal originou a viuvez do que lhe sobreviveu.
A ligação da mulher ao seu companheiro era mais ou menos profunda, de acordo com a cultura do povo de que ambos faziam parte. Por vezes, o estado de viuvez tinha uma existência muito breve, pois a mulher pouco tempo sobreviveria ao companheiro morto, dado que logo diligenciaria no sentido de lhe ir fazer companhia na sepultura ou, noutros casos, a mulher em breve passaria a ficar ligada a outro homem.
Para compreendermos a evolução dos costumes acerca da viuvez não podemos perder de vista que, em certas regiões do Mundo, a mulher era considerada como propriedade do homem.
Assim, no Gabão, na África equatorial e na América central as mulheres de um homem passavam a ser pertença do seu herdeiro.1
Por outro lado, no domínio de culturas em que era praticado o levirato, o irmão do defunto era obrigado a casar com a viúva, de modo a ter filhos desta, que seriam tidos como sendo filhos do defunto.
Se de viuvez se poderia apelidar o estado da mulher posterior à morte do companheiro, tal estado era muito fugaz.
Acrescentaremos, a propósito, que outros povos praticavam o sororato, ou seja, era imposto ao viúvo o casamento com a irmã da defunta.
Hoje iremos recordar um hediondo costume designado “sati”, ou seja, casos em que as viúvas se sacrificavam no túmulo do defunto marido, porque se entendia que este devia necessitar delas na “outra vida”.
Na Nova Zelândia estrangulavam-se sobre a sepultura. Em Katunga, a primeira mulher do rei defunto era obrigada a envenenar-se sobre o túmulo, na companhia do filho mais velho e das principais personagens do reino, devendo todas as vítimas ser enterradas com o morto, seu senhor.
Entre outros povos, as viúvas eram obrigadas a mutilar-se ou a flagelar-se até produzirem chagas no corpo e na cara em sinal de luto.
Na China chegaram a ser erigidas tabuletas em memória das jovens que se suicidaram no túmulo do seu marido e, duas vezes por ano, certos mandarins faziam oblações em sua honra.2
A sacrifícios idênticos estavam sujeitas as viúvas indianas. Segundo o Código de Manu, a viúva tinha de guardar inteira fidelidade à memória do marido, vivendo de flores, raízes e frutos, nunca pronunciando sequer o nome de outro homem, sob pena de incorrer no desprezo público neste mundo e de ser excluída da mansão celeste onde estaria o defunto esposo.
Mas, pior do que isso, criou-se o costume de as viúvas se fazerem queimar com o cadáver do marido.3
Este costume passou a designar-se “sati”, palavra que servia para qualificar a mulher perfeita, ou seja, aquela cujo amor e fidelidade conjugal a leva a imolar-se na pira funerária de seu marido para poder acompanhá-lo no outro mundo.
É claro que se dizia que este costume não traduzia uma obrigação universal, pertencendo à viúva a livre decisão a tomar. Não podemos, porém, esquecer que a mulher estava sujeita a uma grande pressão social, nomeadamente no seio de algumas castas superiores. A mulher que se escusasse a esse sacrifício era banida da sociedade. Pretendendo escapar à morte na pira em que era queimado o marido, esperava-a o desprezo social que não conseguiria enfrentar sozinha de forma a poder sobreviver.
Sobre o “sati” falaremos mais desenvolvidamente noutra ocasião.

1 Cfr. Dr. Roboredo de Sampaio e Mello, Família e Divórcio, pág. 117.
2 Ibidem.
3 Cfr. Ob. e loc. cit., pág.s 119 e seg

Bacalhau à lagareiro

Foto
O bacalhau tornou-se num prato nacional! E os portugueses são mestre na sua confecção. Os turistas espanhóis, principalmente, vêm a Portugal para saborear este pitéu. Mais de cem maneiras de cozinhar bacalhau. E de todas é óptimo.
Na minha infância passada em Fagilde, recordo que acompanhado do Manuel Pina, encarregado das agriculturas lá de casa, ir à aldeia de Tabosa, onde existia nesse tempo um lagar, assistir à feitoria do azeite.
Partíamos como se fossemos fazer um pic-nic. Algumas batatas, cebolas e umas boas postas de bacalhau. Depois era aguardar pela hora do almoço, assar nas brasas da caldeira as citadas postas, cozer numa panela de ferro as batatas à racha (com pele), deitas tudo numa travessa de barro, umas rodelas de cebola e uma cobertura substancial do precioso líquido cor de ouro que escorria do lagar. Uma boa pinga do Dão e pronto, um manjar digno de reis, ou de deuses.
Na semana passada estando uns dias em Fagilde, resolvi ir a Tabosa recordar o saudoso lagar. Levei comigo o meu neto David, com sete anos, a quem procuro incutir o espírito da terra. A natureza, as tradições. Para ganhar amor às origens!
Há quanto tempo eu não visitava Tabosa, aqui mesmo ao lado! Foi uma surpresa. Tudo diferente para melhor. Estradas alcatroadas, casas novas e de boa construção, a contrastar com as antigas velhas casas, de granito, comidas pelo tempo, sem condições.
Recordo-me de uma velha taberna-mercearia propriedade do sr. Salazar. Fazia gala no nome Salazar. Nesse tempo António de Oliveira Salazar dirigia o país. E com muito respeito!…
Parei ao lado da capela, junto à ponte. Olhei para o rio , para o local onde imaginava estarem as ruinas do moinho e nada. A poucos metros um morador com a sua enxada fazia regos onde colocava pés de couve.
Inquiri: Boa tarde amigo. Então, a plantar couves? São couves para o Natal, respondeu. Sabe, eu em miúdo vinha aqui ao moinho de azeite. Já não existe?
Existe, só as paredes, está ali à frente. De facto sobre o rio, umas paredes, altas, em granito eram tudo o que restava do velho moinho.
O moinho estava em cima do rio e nesse tempo era movido pela força da água. Não se trata bem de um rio, mas de um pequeno riacho. Nasce na Serra da Senhora do Castelo, passa ao lado de Mangualde, toma o nome de Lavandeira, atravessa a aldeia da Roda, onde havia uma pequena ponte romana, muda de nome e chama-se rio da Roda, cruza a estrada nacional 16, chega a Tabosa, segue para o Convento de Maceira Dão, onde passa a ser designado Ribeira dos Frades e desagua no Rio Dão.
Um rio que só existe quando os invernos são fortes e seca no Verão. Porém, nesta minha deslocação a Tabosa, olhei para o leito do rio e corria água. Amigo, este ano o rio não secou! Ainda leva água! Pois leva, mas é dos esgotos das casas. Parece que vão construir uma Etar aí abaixo. De facto a água era escura, mas abundante. E temos aqui uma caso de poluição. Como existem outros a descarregar no rio Dão! E pior, na Barragem de Fagilde, que abastece de água centenas de milhar de pessoas, três concelhos! Não neste caso, pois desagua mais á frente. Mas na da Aguieira!
Quando pensei em visitar o lagar, não era só para matar saudades. Pensei e penso que era possível reconstruir o velho lagar. Talvez como um museu. Para ser visitados pelos jovens, para saber como se fazem as coisas. Mais tarde corremos o risco de perguntar a um miúdo donde vem o azeite e ele responder: do Supermercado. Como o frango!…