Arquivo diário: 1 de Outubro de 2019

EDITORIAL Nº 762 – 1/10/2019

isabel
Caros conterrâneos,
Aproximam-se mais umas eleições legislativas e a nossa responsabilidade social urge-nos de ir votar. Ainda que fazer parte da abstenção não seja anti-democrático, ir votar é o nosso dever enquanto cidadãos. Devemos ter participação social e política e envolver-nos nos processos de tomada de decisão. O nosso voto garante o pluralismo partidário e permite responsabilizar os governantes face aos resultados atingidos no exercício das suas funções. É o nosso voto que garante a legitimidade do Parlamento. Não podemos permitir que o poder seja decidido por alguns e pareça garantido a poucos. Quando a abstenção é alta, damos azo a que se criem subterfúgios ao processo democrático de eleição, como tem sido a geringonça. Figuras políticas do género minam a necessidade de reforma e a coerência estratégica no longo-prazo do governo. Vote.
A abstenção tem vindo a aumentar nos últimos anos e mesmo em Mangualde não é excepção. Mangualde tem tido maior abstenção relativamente à abstenção a nível nacional. Em 2015, tivemos mais de 50% de abstenção. Temos de contrariar esta tendência. Por isto, pedimos aos nossos leitores para irem votar no Domingo, caso ainda não o tenham feito antecipadamente.
Os melhores cumprimentos,
Isabel Tavares

REFLEXÕES

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GRUMAPA – Grupo Mangualdense de Apoio e Proteçcão dos Animais
Construção do Canil /Gatil
Estes textos que me propus escrever para publicar neste jornal que tão bem me recebeu, são fundamentalmente o resumo dum trabalho hercúleo a que nos dispusemos de alma e coração em prol dos animais. E nunca um meio para nos projectarmos socialmente. Espero que os possíveis leitores o entendam assim. E por outro lado servirá para clarificar atitudes e comportamentos de algumas pessoas cuja ética deixa muito a desejar.
Posto isto irei continuar. Com a construção da sede e do pavilhão a decorrer ora em ritmo lento, ora mais apressado, foram-se passando os anos de 2005 a 2008. Procuravámos a cada minuto vencer os inúmeros problemas que obrigavam a um jogo de tempo, dinheiro e boas vontades. Quando a sede já estava com a estrutura quase terminada devia pensar-se nas portas interiores e apetrechar as casas de banho. Mais uma vez tivemos uma oferta bendita. O senhor Costa, nosso sócio e também amigo dos animais, estava a dar por terminado o negócio que possuía na Rua da Igreja. Tinha bom material de que iria desfazer-se. Então decidiu oferecer 12 portas de madeira para o interior, e as louças das casas de banho!!! Foi um gesto notável que nos aliviou as contas e pelo qual lhe ficámos para sempre gratos. Eram estas atitudes de bons Amigos que nos motivavam a seguir em frente. Cada gesto de compreensão e apoio era para nós uma lufada de coragem. Talvez quem me leia ache estes devaneios, lamechices …não são! Apenas a alegria de nos sentirmos compreendidos numa tarefa que para nós se tornou extremamente pesada. Estávamos ansiosos por acabar a sede e tornar o pavilhão o espaço específico para o abrigo dos nossos protegidos. Depois da nave ficar coberta, havia muitos acabamentos – janelas, a porta e portão a colocar e tratar do pavimento. Muita escassez de dinheiro, muita escassez de energias. Nas reuniões de Direcção não se via grande optimismo, como é natural, perante tantos obstáculos. A Camara ajudava o possível, os beneméritos nem sempre tinham disponibilidade e compreende-se…Ficámos muitas vezes num impasse. Em situação extrema lá ia eu, meio envergonhada a bater à porta do senhor Valeriano Couto grande amigo do Grumapa e presidente do Conselho Fiscal, por vários anos, pedir mais um contributo… e lá passava ele um cheque recebendo, claro está, o respectivo recibo porque não nos permitíamos o mais ligeiro desvio de fundos. Tudo era limpo e recto como comprovam os relatórios de contas e a documentação arquivada que existe.
Foi um grande Amigo o senhor Valeriano Couto, entretanto já falecido, e sem assistir à homenagem que nós pensávamos fazer a todo o grupo dos maiores beneméritos e organismos oficiais que contribuíram para a existência do GRUMAPA! Mas temos de dar tempo ao tempo… Há-de surgir uma fórmula.
outubro 2019

SANFONINAS

dr. jose
Castanhas e doçarias
Entre outras funções, desempenhou o Dr. Alberto Correia a de Director do Museu Grão-Vasco e a de responsável pela revista Beira Alta, de tão longa tradição e hoje a viver período de aparente letargia.
Dotado de mui notável capacidade criativa a nível da escrita, Alberto Correia não se tem poupado a dar a conhecer, em elucidativas e assaz agradáveis publicações, o património cultural do distrito de Viseu, mormente a nível das tradições populares, do artesanato e do que hoje se designa (e com inteira razão!) o nosso «património gastronómico».
Assim, foram recentemente publicados os seguintes livrinhos, preciosos:
Em edição do Município de Viseu:
– A Broa de Vildemoinhos (Da Terra à Nossa Mesa);
– Pão de S. Bento (Tradição de Viseu);
– Pastéis de Feijão (Doce Sabor de Viseu).
Em edição da Confraria da Castanha, Sernancelhe (apoio de Cafés Delta):
– A Maravilhosa História da Castanha Martainha;
– Queijadas de Castanha (Um doce manjar);
– Fálgaros (Manjar Conventual) [Tabosa – Carregal – Sernancelhe];
– Cavacas de Freixinho.
Direi que me disponibilizei a redigir uma nota, um pouco mais circunstanciada, sobre a importância da iniciativa para uma revista do distrito da Guarda. A proposta foi liminarmente rejeitada, porque, sendo da Guarda, a publicação só admitia textos referentes ao distrito. Não me preocupei com a recusa, porque, assim, poderia referir-me aos livrinhos aqui, pois Mangualde é do distrito de Viseu e não se privilegia uma visão tacanhamente regionalista das notícias e dos comentários.
O Município de Viseu e a Confraria tiveram tal iniciativa em prol das castanhas e dos doces? Abençoados! Castanhas haverá também no distrito da Guarda, como em Bragança! E o que está em causa não é o local mas o testemunho, a iniciativa. Exemplar como é, poderá ser imitada noutros municípios em relação ao que lhes é peculiar – e isso se acentuaria!
Mui graciosamente ilustrados com surpreendentes fotografias, os livrinhos são… um mimo! E têm as receitas no final!

IMAGINANDO

francisco cabral
PARTE 65
Continuação
Além das queijadas de Sintra, esta região também se dedicou a uma outra doçaria com bastante qualidade: Os Fofos de Belas.
Para nos situarmos, esta Vila foi uma antiga freguesia do Concelho de Sintra e está enquadrada entre a Carregueira a Norte, Monte Abraão e Serra da Silveira a Sul.
Remontemos aos tempos  pré-históricos e outras civilizações seguintes:
Devido às abundantes linhas de água principalmente das ribeiras de Carenque e da Jarda, houve aqui uma fixação populacional, desde a pré-história, como comprova o Monumento Natural de Carenque, jazida de pegadas de Dinossauros quadrupedes Herbívoros e bípedes Carnívoros, descoberta em 1996 e com uma idade estimada entre 90 a 95 milhões de anos,  encontrada numa pedreira desativada.
A presença humana aqui, remonta do Paleolítico (Idade da Pedra Lascada), passando pelo Neolítico (período da pedra Polida e surgimento da agricultura, dando lugar à Idade dos Metais) e o Megalítico, já desenvolvido no Periodo Neolítico ( construções com  grandes blocos de pedra)
 Registe-se também neste local as presenças de  Romanos e Árabes muito  bem vincadas, e aqui transcrevo na integra testemunhos arqueológicos de grande importância, como a Via Romana, “Vinda da Amadora, pela Bica da Costa sobe o Monte Abraão, circundando todo o perímetro da Quinta do Senhor da Serra para desembocar no Adro da Igreja Matriz e daí subir ao Cemitério, aos Machados, Suímo e Carregueira, Meleças e Casal da Mata para prosseguir em direção a Sintra e Granja dos Serrões”. Ainda deste período temos as ruinas de uma antiga barragem junto à Estrada de Caneças/Belas. (Do Livro de Maria João de Figueiroa Rego).
Sendo uma região que chegou a ser Paço Real, muitos Marqueses adquiriram várias Quintas, (os Marqueses de Belas). Destaco Diogo Lopes Pacheco, que sendo um dos autores no assassinato de D.Inês de Castro,  sua Quinta viria posteriormente a ser confiscada por D.Pedro I.
Voltando à gastronomia regional:
A história dos Fofos de Belas deve-se à  confeção por uma Senhora de nome Ester Timóteo Esteves, quando decidiu alterar o Pão de Ló feito à maneira de seus antepassados, dando um outro sabor ao acrescentar um recheio cremoso. Passaram a chamar-se Fartos de Creme. O actual nome, os Fofos de Belas, foi dado pela população devido às características da sua massa.
Note-se que actualmente ainda são cozidos em forno a lenha, dando-lhe um sabor de despertar o apetite.
Saliento que a tradição que originou este bolinho, vem dos trisavós desta Senhora que a mantém há dois séculos, quando na altura era o Pão de Ló. A própria Ester Timóteo além de os fabricar também fazia a sua venda na capital, aproveitando o regresso a casa para ali comprar os ovos e outros ingredientes necessários.
Devido às sua feições, muitas vezes lhe perguntavam se era espanhola ou cigana. Respondia que não era nem uma coisa nem outra. Era saloia.
 Embora pouco explícita, leva a crer que a palavra  saloio significa habitante do campo, enfatizando esta região.
Além do Pão de Ló os antepassados de Ester Timóteo confecionaram marmelada feita em enormes tachos. Devido ao seu agradável sabor, grande parte dos clientes da Capital  e arredores se deslocavam àquele lugar, levando malgas para as encherem e trazerem para suas casas, particularmente para degustarem ao pequeno almoço. A qualidade do seu pão, também convidava muita clientela.
Os Fofos de Belas, ainda hoje são vendidos em casas da especialidade, tanto na Capital como por todo o País.
A sua expansão deve-se quando mais tarde os Domingueiros da Capital, faziam a chamada volta saloia e também na época da caça à raposa. Reuniam-se logo de manhã às 7 horas, e de regresso da caçada, permaneciam em enorme cavaqueira até às 2 da madrugada. Esta loja, café e fábrica, situa-se atualmente na Rua Dr. Malheiros nº.18, em Belas.
Continua
fjcabral44@sapo.pt

PROFISSÕES CAÍDAS EM DESUSO

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3ª PARTE
O Ferrador: Para que as ferraduras ficassem bem assentes no casco do animal, o ferrador com o martelo dava uma pancada no cravo outra na ferradura. Trabalhava no pátio de sua casa, onde ferravam os bois, os cavalos e os burros. Aqui montavam o “ tronco “ para segurar o animal e uma pequena forja. Utilizavam a bigorna, a safra, a turquês e os martelos.. O “canêlo“ ou a “ferradura“ tinha que ficar bem assente no casco do animal, e para a segurar aplicavam os cravos (pregos).
O Pedreiro: alguns dos pedreiros da nossa aldeia desenvolviam a sua actividade nas pedreiras do monte da Srª do Castelo. Com muito suor e esforço arrancavam o granito “a tiro“ de broca, guilhos e alavanca dos penedos existentes. Servindo-se da marreta e do pico, debastavam e aparelhavam as pedras de granito para as paredes das casas, e muros de vedação. Das mãos do mestre pedreiro (canteiro), saíam obras de arte e imaginação, como cruzeiros, alminhas e chafarizes, fontes e tanques. Muitas dessas obras ainda são hoje por nós admiradas. Quando em grupo puxavam ou içavam uma pedra usavam uma cantilena que marcava o ritmo dos movimentos. Era o que vulgarmente chamavam o “cantar ás pedras“:
Eiii pedra!!! Ouuu ouuu pedra!! eiiii, ouuu, ouuu pedrinha…
Oupa, oupa, pedrinha que vais prá obra!!… oupa… oupa…
Rapaz calça-me essa pedra!!!… pedra calçada obra medrada!!….
O Taberneiro: No interior das tabernas se afogavam as mágoas. Jogava-se á sueca ao chincalhão, ao sobe e desce ou ao fito, jogos sempre acompanhados por muitas rodadas de copos de vinho. Pagam aqueles que perdem. O taberneiro pessoa idónea da aldeia era uma figura típica da época. Existiam na nossa aldeia muitas tabernas, lugares carismáticos que ajudavam a população masculina a passar parte dos longos serões de Inverno, aquecendo os pés nas grossas botas de pneu, na braseira acesa no inicio da noite. Dentro do balcão e quando a hora já era avançada, o taberneiro “pesava figos“. É o momento certo para fechar.
O Marceneiro: Era uma arte que exigia muita experiência e mestria. O marceneiro normalmente montava a sua pequena oficina na vila de Mangualde, tentando abranger uma maior área de vendas para os seus produtos. Como trabalho artesanal exigia muita perfeição e brio profissional. Utilizavam o torno manual para tornear a madeira conferindo-lhe bonitos efeitos visuais, a talhadeira e o formão para trabalhos mais exigentes e requintados.
Vendedora e compradora de ovos: De porta em porta com o cesto de vime no braço percorria a povoação de lés a lés comprando os ovos que as pessoas recolhiam dos seus galinheiros.
O Tanoeiro: Em sua casa, mesmo no páteo térreo que lhe dava acesso, o tanoeiro procedia ao fabrico das diversas peças, como pipos e tonéis para guardar o vinho, baldes para tirar a água dos poços, canecos de ir á água á fonte. “Deitava umas” adoelas”, consertando algumas vasilhas danificadas. Utilizavam referencialmente a madeira de castanho ou carvalho, pelo paladar que conferiam ao vinho transformavam-na em “adoelas“ e tampos para os pipos. Como instrumentos de trabalho os tanoeiros utilizavam o arco – de – pua, a enxó, a marreta ou o martelo.
(Continua no próximo número)

A IMOLAÇÃO DA VIÚVA

juiz
Como já noutra ocasião referimos, a palavra “sati” servia para qualificar a mulher perfeita, ou seja, aquela cujo amor e fidelidade conjugal a levava a imolar-se na pira funerária de seu marido para poder acompanhá-lo no outro mundo.
Nos finais do século XVIII, Ram Mohan Roy, o “futuro pai da Renascença Indiana” iniciou uma campanha para obter do Governo Britânico a sua supressão legal.
Em 4 de Dezembro de 1829, o governador geral da Índia, Lord William Bentinck, fez adotar uma lei que proibiu as viúvas hindus de se suicidarem na pira funerária do marido, insurgindo-se contra uma prática ancestral considerada bárbara pelos Ocidentais e também pela opinião hindu mais esclarecida.
A lei de 1829 declarava que a prática observada pelas sati era ilegal e que, como todos os delitos criminais, tinha de ser reprimida e punida. Qualquer pessoa que se tivesse tornado cúmplice no sacrifício de uma viúva era declarada cúmplice de homicídio, mesmo que a vítima tivesse solicitado a sua ajuda. Se fosse provado que a violência ou outros meios de pressão foram usados, o tribunal podia infligir a pena capital aos que se serviram de tais métodos.
No Rajputana, região situada a Oeste da Índia, onde o costume estava fortemente arreigado, foram necessários vários anos para a interdição ser completa. Assim, na cidade de Jaipur, uma das mais belas cidades da Índia, só foi suprimido em 1846. Na cidade Udaipur, o último caso de suicídio legal teve lugar em 1861, quando o defunto soberano rajput foi acompanhado na fogueira por uma das suas escravas. Porém, nenhuma das esposas legais tentou lançar-se no braseiro funerário, o que já significa evolução dos costumes. A opinião pública, definitivamente contrária a tal prática, deixou de exercer pressão sobre as viúvas no sentido da prática do sati.
É certo que, mesmo depois da proibição legal, muitas viúvas tentavam ainda subir à pira funerária, mas logo eram impedidas pela assistência ou pelas autoridades locais.
As mais persistentes, por vezes, não deixavam de levar por diante os seus intentos. Para o efeito, fechavam-se num quarto e pegavam fogo ao seu sari.
Na Índia portuguesa, muito diferentemente, o sati foi banido logo em 1510, ou seja, mais de trezentos anos antes. Procurando concretizar o seu projeto da conquista de Goa, Afonso de Albuquerque havia prometido plena liberdade religiosa a muçulmanos e, particularmente a hindus. Depois da conquista da cidade, tendo sido obrigado a assistir ao sati, ficou horrorizado, assim como os outros portugueses, ao ver aquele bárbaro ritual e não pôde deixar de agir. Embora reiterando a sua promessa de liberdade religiosa, proibiu completamente aquela pática horrenda.
O primeiro testemunho histórico do sati data do século VI e relata o caso de uma rainha que, desesperada, não quis sobrevier ao marido e atirou-se para a pira que consumia o corpo dele.
Na sequência de derrotas militares, rainhas e damas de alta estirpe recorriam ao sati para evitar caírem nas mãos dos inimigos e conhecerem a desonra. Nascido na casta dos nobres combatentes, o costume alargou-se depois à família dos brâmanes que formavam a casta sacerdotal. Passou depois a ser seguido pelas viúvas em geral. Embora não tenha tido origem religiosa foi-lhe posteriormente atribuído esse significado. O sacrifício da viúva serviria para o perdão dos pecados do marido e garantiria ao casal um lugar permanente no céu. O gesto da mulher que assim se imolava tornava-a objeto de grande veneração.
Segundo o testemunho de alguns viajantes franceses e ingleses dos séculos XVII e XVIII havia três formas diferentes de proceder ao sati.
No Norte da Índia a pira consistia em uma cabana de quatro metros quadrados feita de canas e de pequenos pedaços de madeira onde se colocavam vasos com óleos e outras matérias gordas para acelerar a combustão. A mulher sentava-se encostada a um pilar ao qual era amarrada para evitar que fugisse. Na verdade, acontecia, por vezes, que as mulheres, aterrorizadas, fugiam do braseiro. A partir daí seriam rejeitadas pela família e pela casta, sobre as quais lançaram a desonra.
Em Bengala, a pira era montada nas margens do rio Ganges, onde a mulher ia lavar os despojos do marido e lavar-se a si própria. Para formar a pira utilizavam feixes, palmas, juncos e palha. A viúva era bem amarrada ao corpo do defunto, sendo depois coberta com outra camada de combustível. Igualmente o fogo era ativado com manteiga e óleo.
Na costa Sudeste da Índia a pira era feita numa fossa bastante funda para impedir a fuga das mulheres.
Embora a maior parte das viúvas se sacrificasse com coragem por acreditar que a sua atitude constituía um dever sagrado, casos houve em que – segundo o relato dos mesmos observadores – a viúva era levada para a fogueira pela família desejosa de lhe apanhar a herança.1
Havia, pois, todas as razões para pôr fim a um costume tão desumano, introduzindo medidas de caráter social e até jurídico como, de facto, se verificou.

1 Cfr. O Fim das Sati, in Memória do Mundo, das origens ao ano 2000, do Círculo de Leitores, pág.s 412 e seg.

O Real Mosteiro de Santa Maria de Maceira Dão – Ascensão e Queda –

Foto
Em 1 de Agosto do corrente ano o Jornal Renascimento deu a notícia que o Mosteiro de Maceira Dão ia ser intervencionado.
Lida com atenção a citada notícia chega-se à conclusão que as obras de intervenção se destinam exclusivamente à recuperação dos telhados. A verba é de 500 mil euros com 85% de comparticipação. Conclui-se facilmente que tudo o resto vai ficar na mesma.
Ora o Mosteiro actualmente está em ruínas. E neste lastimável estado como é possível falar num plano de promoção cultural como cita a notícia?
Vejamos um pouco da história, triste, bem triste deste monumento.
O escritor mangualdense Dr. Alexandre Alves, em 1992, publicou uma monografia intitulada “ Terras de Azurara e Tavares – O Real Mosteiro de Santa Maria de Maceira Dão”. A Edição é da Câmara Municipal de Mangualde e tem um prefácio do Dr. Mário Videira Lopes, na época Presidente da Câmara.
Nessa monografia, logo de início, o Dr. Alexandre Alves, após uma visita ao Mosteiro, escreve: – “Não acreditava na degradação a que chegou o histórico monumento, cuja fundação data à da fundação da Nacionalidade Portuguesa”. De facto foi em 1172, governava D. Afonso Henriques que o Real Mosteiro foi construído.
Por motivos diversos, próprios da história e da vida o Mosteiro durante a sua grande longevidade teve momentos bons e momentos maus. Nunca foi um grande convento, pois o máximo de monge ascendeu a 16 e houve épocas em que habitava só um.
Teve poder e foi importante para a região. Nunca teve um grande arquivo, nem grandes peças. E tudo foi devorado. O arquivo que estava guardado no Seminário de Viseu desde 1834 desapareceu quando um violento incêndio destruiu o Seminário. E as peças, quadros, imagens, altares e sinos foram vendidos e estão espalhados pela região.
O Mosteiro foi dos monges do Estado (com o desaparecimento das Ordens Religiosas) da Câmara de Mangualde e de particulares, como ainda o é hoje.
Todos contribuíram à sua maneira para a degradação deste monumento, classificado como Monumento Nacional.
Ao longo de muitos anos, escritores, Maximiano de Aragão, Valentim da Silva, Alexandre Alves e muitos outros clamaram, sem ser ouvidos. Foram gritos para o ar. E quando se grita para o ar ninguém ouve.
Eu mesmo ao longo de muitos anos escrevi sobre esta ruína no Jornal Renascimento, no “O Primeiro de Janeiro”, no “O Comércio do Porto”, no Diário de Viseu”. Nada resultou.
E já que citei duas vezes o “Renascimento”, vou fazê-lo uma terceira vez, para me referir ao dia 15 de Abril de 1965. Neste dia e nesse jornal era publicado o anúncio do Tribunal Judicial de Mangualde a anunciar a venda por praça pública.
Este Monumento Nacional, com a Torre Medieval (Sec. XII/XV), o Mosteiro (Sec. XVII) e a Igreja (Sec.XVIII) merecem muito mais que uma reparação de telhados. E com este remedeio não se pode embandeirar em arco! É preciso muito mais. Procurem um Grupo Hoteleiro que faça dali uma Pousada. Não deve ser difícil com a força com que o Turismo está.
O sítio é cheio de poesia e de história. E termino com uma frase, que alguém escreveu – E magoa e choca dolorosamente – e revolta, Senhores! – que ninguém volva os olhos para estas pedras velhinhas e as acarinhe e lhes deite as mãos para que não caiam tão depressa”.

CONSULTÓRIO

dr. raul
OBSTIPAÇÃO E DIARREIA
Se vai viajar lembre-se que o seu intestino também viaja! E, frequentemente, a obstipação e a diarreia também!
Acabaram-se as férias, é verdade! Mas este calor excessivo e os fins de semana, que sempre se podem alongar, pedem uma mudança de ares, nem que seja para perto.
Órgão sensível, o intestino reage facilmente a toda a modificação e, particularmente, quando se viaja: numerosos são os factores susceptíveis de favorecer a alteração do trânsito intestinal, seja no sentido de uma obstipação (prisão de ventre), seja no de uma diarreia. A aplicação de alguns conselhos simples pode ajudar na manutenção de um bom trânsito e impedir o aparecimento de inconvenientes e mal-estar intestinal.
Factores que podem contribuir para o aparecimento da obstipação:
Um longo trajecto, seja de avião, de comboio, autocarro ou em viatura particular, que obrigam ao ficar sentado e imóvel durante bastante tempo;
Os fortes calores que causam aumento da transpiração e desidratação;
A alteração das horas das refeições, ligadas à mudança no ritmo de vida ou simplesmente à mudança de fuso horário;
As mudanças nos hábitos alimentares;
Casas de banho de higiene duvidosa.
Algumas ideias para contrariar o aparecimento da obstipação e permitir a conservação de um bom ritmo intestinal:
Durante a viagem:
Se vai de avião ou de comboio deve movimentar-se, sempre que possível;
Se viaja de autocarro ou automóvel, fazer paragens frequentes a fim de praticar algum exercício;
Beber em abundância, de preferência água.
Durante a estadia:
Manter-se hidratado – beber, pelo menos, 1,5 litros de água por dia;
Começar o dia bebendo um copo de água ou tomando sumo de frutas antes do pequeno almoço;
Enriquecer a alimentação com fibras – cereais ricos em fibras ao pequeno almoço, frutos secos (abrunhos, alperces e figos), se possível cozidos ou macerados, comer barrinhas de cereais quando sentir fome, substituir o pão branco pelo pão integral, comer a fruta com casca;
Aumentar a ingestão de legumes verdes;
Evitar comer arroz;
Tentar ir à casa de banho mal sinta vontade;
Acabar o dia a beber um copo de água, antes de ir para a cama.
Factores que podem contribuir para o aparecimento de uma diarreia:
Habitualmente as saladas e as frutas mal lavadas, ou outro tipo de alimentos que se comam crus;
Alimentos mal cozinhados, que estejam expostos ao contacto de moscas ou de outros insectos;
Ou alimentos preparados com condimentos que não estamos habituados a comer (caril, malaguetas, etc.) e que aceleram o trânsito intestinal.
Medidas a tomar para controlar as diarreias:
Se a causa da diarreia é provocada por uma intoxicação alimentar causada por uma bactéria, não usar obstipantes, mas sim antibióticos para impedir o desenvolvimento das bactérias e, consequentemente, das toxinas.
Se a causa não for de origem infecciosa usar obstipantes, mas mantendo-se vigilantes ao evoluir da situação.
A diarreia provoca, sempre, um elevado grau de desidratação – atenção às águas da torneira em alguns locais ou países. Nesses casos dar preferência, sempre, a águas engarrafadas. O gelo que se usa nas bebidas deve, também, ser feito com águas de confiança, caso contrário corre-se o risco de contaminação, uma vez que o frio, ao contrário do calor, não mata as bactérias.
Para que, assim, aquele passeio ou a estadia, ansiados ou desejados, sejam motivo de prazer e não de incómodo.
E-mail: amaralmarques@gmail.com