Arquivo mensal: Novembro 2019

EDITORIAL Nº 765 – 15/11/2019

patrao
Caro leitor

Todos sabemos que o Mundo não pára, está em constante mutação, logo, temos e devemos correr constantemente atrás do que é mais importante a felicidade de cada um.
Ninguém aprecia a companhia de uma pessoa que passa a vida a queixar-se, pois a mesma torna-se pesada, “uma mala sem pegas”, como dizia minha Mãe que Deus tem. Ninguém sabe bem como trata-la e a vontade que se tem é dizer-lhe: deixa de te lamentar e começa a trabalhar para melhorares as coisas que criticas como erradas.
Uma pessoa, com queixumes intermináveis, demonstra incapacidade nas relações pessoais. O queixoso pertinaz, além de um chato insuportável, é um fraco e um retrogrado discursador. Só discursa porque não age, e não age porque não confia nem em si mesmo. Prefere atirar pedras aos outros e queixar-se em propósito do que lhe acontece. Mas, a seu tempo todas as pedras lhe caem na cabeça, poderá este mal formado ainda ter reparação? Ninguém perca tempo a queixar-se inutilmente. Pelo contrário, invista as suas energias na mudança do que julga estar errado e dê um pouco de tranquilidade aos que convivem consigo. E todos lhe serão eternamente gratos.
O mundo não espera por quem não age ou age mal, logo fica para trás e nunca é feliz.

Seja Feliz

Abraço amigo,

PARA UMA SOCIEDADE MELHOR

Humberto Pinho da Silva
No tempo da minha juventude, conheci mocinha, de origem modesta, mas rica de inteligência, esperteza e perspicácia. Enxergava, com clareza, intenções, onde a maioria, apenas entrevia palavras e gestos.
Era pequenina, graciosa nos meneios, de lábios finos, cheios de simpáticos sorrisos. Delicada, como bonequinha de biscuit.
Gostava de dialogar com ela, acompanhando-a, com satisfação, o raciocínio, quase sempre acertado e oportuno.
Perdia há muitos anos, nos encontros e desencontros da vida. Tive pena, porque seu espírito crítico, era-me útil.
Graças a sortilégios da técnica do Facebook, reencontrei-a, já no crepuscular da vida, mas ainda com a frescura e a perspicácia, que conheci.
Certa ocasião, falava-se de novelas de TV, quando ela saiu-se com esta: “- As novelas, não são escritas para nos entreter, mas, modificar o nosso pensamento.”
Já havia chegado a essa conclusão, mas, a frase ficou-me gravada na memória, como verdade incontestável.
A maioria das novelas de TV, são verdadeiras lavagens cerebrais, no intuito de alterar, sem sentir: comportamentos, ideologias, e conceitos morais.
Constantemente somos bombardeados pela televisão – e não só, – com ideias e conceitos da Nova-Moral, de forma a inculcar, mormente na juventude, novos conceitos e comportamentos, que certas minorias, pretendem impor: por interesse económico ou prazer mórbido de perverter a sociedade.
Dizem-me: As novelas são o espelho da sociedade atual. Será? E que sociedade?
Anos há, escutei na “Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto”, interessante conferência, proferida pelo inesquecível comunicador, António Lopes Ribeiro.
A determinado passo, da dissertação, asseverou: “ O cinema não é nem mais, nem menos, do que o espelho da sociedade.”
Concordei e concordo. Mas não será, a sociedade, também, o espelho do cinema e da novela televisiva?
É inegável que o carácter é alicerçado, em tudo que: vemos, ouvimos e lemos. As leituras; o escritor que preferimos; o jornal e a revista, que compramos; os programas de TV, que assistimos; e o canal de televisão que vemos, exercem, sobre nós, efeito determinante, no nosso comportamento.
Igualmente, os locais, que frequentamos: os divertimentos; os amigos; e até o bairro que se vive, influenciam o nosso modo de pensar e agir.
Quem manda, quem tem o poder, conhece perfeitamente, isso, e utiliza-os para moldar-nos, a seu belo prazer, tão subtilmente, que pensamos que as ideias são nossas, e não deles! …
Eu sei, que não há uma sociedade, mas várias, na mesma cidade. Cabe a cada qual, escolher e integrar-se naquela que o ajude a peregrinar, pela vereda do bem.
Sem dúvida, que cabe aos pais e á família, o dever, diria: obrigação, de orientar e criar nos filhos bons hábitos, que lhes forme: carácter honesto e sadio.
O bom exemplo, que recebemos dos progenitores, e a conduta que nos ensinaram, são importantes, não só para nós, como para os outros, porque: a Pátria não é mais, que o conjunto das Famílias.
Por isso, devido à decadência das famílias, a Pátria deixou de ser local seguro: O crime campeia; o respeito acabou; o pudor desapareceu; e a honra e a dignidade, vende-se, tal qual, como Fausto vendeu a alma.
É urgente salvar a nossa civilização. Voltar aos conselhos bíblicos; educar e louvar a virtude; se não queremos caminhar para a promiscuidade. Que nos levará à destruição, ao aniquilamento total da sociedade, que já foi de Cristo.

REFLEXÕES

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GRUMAPA –

Construção do canil /gatil
Hoje faço um parêntesis na história do grupo, porque dei comigo a pensar no porquê de determinados comportamentos humanos…
As relações humanas à medida que se foi evoluindo tornaram-se cada vez mais complexas, dominadas fundamentalmente pela ambição desmedida e pela ânsia de poder. Se nos debruçarmos na análise de qualquer área de actividade, elas estão lá mais ou menos visíveis e, para atingir os objectivos, têm de ser desenvolvidas estratégias adequadas. Aqui põe-se à prova a inteligência e também o grau de maldade que cada cérebro congemina.

O ESTRATEGA
O leitor terá já esbarrado com algum ao longo da vida? Sim… Não…É que eles andam por aí meios invisíveis e poderão manifestar-se em qualquer tipo de actividade ou na relação com os demais, quando menos se espera. Normalmente associamos o estratega ao mundo dos negócios e também nas actividades políticas e bélicas ou nos recantos obscuros do contrabando e drogas. Em qualquer destes mundos o estratega tem de formular raciocínios precisos e rápidos ao embater nos obstáculos e encontrar as táticas mais adequadas para controlar os opositores. O estratega é matreiro, usa palavras suaves e sorrisos abertos quando tem pela frente alguém que lhe parece mais forte. Contudo, se se sente a deslizar, a perder terreno, muda de táctica e socorre-se dos “amigos “ que já desconsiderou e se estes são fracos dá-lhes rapidamente a volta e coloca-os a seu lado de novo. O estratega não tem ética, nem respeito pelos outros. Ele não tem qualquer inibição em empurrar do seu caminho aqueles que lhe poderão encravar os mecanismos que a sua mente vai construindo consoante as necessidades de desviar, ultrapassar, anular quem lhe faz frente. É bem claro que o estratega não perde o seu tempo com sentimentalismos porque aí toda a sua acção de supremacia ficaria desvirtuada, e sentir – se – ia nu. Ele quer ser uno e nem se importa de magoar psicológica e moralmente seja quem for, de induzir em erro o mais sincero e confiante, porque o que o motiva é o êxito do seu jogo sujo. Mas também encontramos o estratega a manobrar na área da produção intelectual e cultural. E se a este interessa algo que é fruto do trabalho árduo e persistente de outrem, aí ele utiliza métodos mais subtis. Vai recolhendo a informação, faz os seus dossiers com a teoria produzida, formula as suas teses e apresenta-se como o fazedor do produto intelectual o qual não lhe fez correr uma gota de suor.
O estratega tem que ter um cérebro diabólico, calculista, impiedoso, camuflado por uma capa de aparente bondade, se necessária. O estratega pode actuar em benefício de outro ou de um grupo, não obstante nunca permitirá que o seu eu seja relegado para segundo plano. Os objectivos primeiros serão os benefícios que para si possa recolher, sejam materiais, sejam duma pretensa projecção social. Devemos estar sempre atentos e com aquela perspicácia que nos leve a antever as consequências das acções dum ou duma estratega. Todavia aparecem situações tão embrulhadas em véus de neblina que ocultam uma realidade profundamente obscura
E que terá isto a ver com a protecção animal ?!..

Novembro 2019

IMAGINANDO

francisco cabral
PARTE 68
Continuação
Prosseguindo  nossa caminhada temos algumas opções: Podemos primeiro visitar a Praia da Aguda. Outrora uma praia aprazivel, neste momento está completamente isolada. O único restaurante que ali havia fechou, não tem nadador salvador. Para chegarmos à própria praia temos bastante dificuldade, e por ser muito íngreme de difícil acesso, torna-se perigosa conforme foto abaixo apresentada, além de pedras que se vão soltando através das rochas.
É uma pena, porque está circundada de paisagens maravilhosas e a própria praia tem muita beleza.
Praia da Aguda-Sintra
 Continuando nosso percurso e noutro sentido, encontramos a freguesia do Magoito, que nos meses de Junho a Agosto  é visitada por turistas portugueses e estrangeiros, dada a sua boa localização, além de dispôr de um parque para merendas e churrasqueiras, sempre cheio aos fins de semana.  É uma aldeia muito frequentada dispondo de um comércio, rico em todas as áreas. Já é considerada uma Estância de Turismo. É também residência de muitos Lisboetas que preferiram esta zona, porque  uns quilómetros mais à frente descem para a célebre Praia do Magoito também chamada por Pedregal.
Eu e meus familiares próximos, tivemos o previlégio de acampar na aldeia do Magoito e divertia-me, porque a população é dedicada à pesca. Embora tenham as suas profissões, não deixam de madrugada ir apanhar o seu peixinho e trazer também o polvo.
Por tradição e na Sexta Feira Santa uma boas centenas de pessoas vão à Praia para apanha do mexilhão.
A Praia do Magoito tem condições de estacionamento e acesso à mesma, por escadaria segura. Embora com ondulação perigosa, é muito rica em iodo, excelente para quem é asmático. Tem nadador salvador para vigiar os mais incautos. Também ali se pratica surf.
Praia do Magoito
Dizem que é só na China, que existe uma praia com características semelhantes, devido à sua riqueza em iodo. Apenas ouvi dizer, mas não confirmo. O certo é que não precisamos de muito Sol, porque o Iodo é tão intenso, que após meio dia de praia saímos completamente morenos.
Também e devido ao nome (Magoito  Mago/Oito) alguns Espiritualistas pensam, que foi nesta Praia que desembarcou Jesus de Nazaré, quando entrou na Europa.
A sua Duna Fóssil que movimenta as areias soltas para a rocha, já data de há milhões de anos, mas a sua consolidação formou-se há cerca de 10 mil anos.
Esta orla marítima, uma das mais visitadas, compõe a beleza de um quadro desenhado por um pintor, que usa a sua imaginação para fixar todos os pequenos detalhes gravando na sua mente,  uma das muitas paisagens de Sintra, porque não lhe é indiferente. Como prova que é uma Sala de visitas, já presenciei pessoas que vivem em Mangualde e por sua iniciativa, a vivenciarem este pequeno recanto de todos nós.
continua….
Antes de terminar, é com muito prazer e por gentileza deste Jornal, que informo os seus leitores, que disponho de um Blog na Internet com o nome  Blog o Caminho do Universo ou ocaminhodouniverso.com

CONTOS COM MEMÓRIA

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O CHICO DA LABOEIRA (um conto do meu avô)
Nas fraldas da vila de Mangualde resplandecia em fulgor a Quinta da Laboeira, era uma grande extensão de verdes campos onde de manhã até á noite o sol caía em bátegas de cor a arfarem sob um céu onde as estevas se desentranhavam em milhares de flores e a voz do vento se arrastava pela solidão infinita. Num humilde casebre alpendurado numa pequena colina do lado nascente, vivia com a família no silencio falante da paisagem o Francisco da Laboeira. Homem que sempre viveu uma vida de cavador e nunca mais do que isso. Escola não conheceu e falar dela quase não se lembrava. A enxada fixara-o definitivamente á terra. Criou a sua família, compadrios e a sua própria cultura que lhe dava sentido à vida. Levantava-se cedo mal o galo cantava e os rafeiros latiam no silencio dos casebres vizinhos, onde homens e mulheres ainda dormiam. Metia a cabeça fora do postigo e enchia tanto o peito de ar absorvendo o fresco da manhã que parecia querer engolir o mundo. Tomava de seguida um cafézito de cevada que fazia ao borralho no púcaro de barro e todos os santos dias ia acrescentando com uma ou duas colheradas de pó às bôrras. Durante a manhã na hora em que Deus é perfeito em dor e amor saboreava umas sopitas de cavalo cansado ou umas batatitas com uma cebola. E na sagrada refeição do almoço ao meio dia, quando sorria “O Menino”, ao jantar uma alimentícia sopa de unto com pão de centeio e para refasto daquele estômago ainda faminto um naco de carne de porco da barriga quando a havia que acompanhava um feijão vermelho com couve troncha do seu quinteiro e um naco da sua broa caseira provecta dos grãos do milho do seu lameiro fundeiro que no Verão em haste subia para o sol e em raiz faminta se agarrava à terra. Rodava por todos o garrafão do palheto da sua colheita. À tardinha soava finalmente o toque das trindades. Tirava o chapéu e benzia-se.
– Deus seja louvado, Pai – Nosso e Avé – Maria.
Era o final de mais um árduo dia de trabalho. Francisco vinha da lavoura na mágica penumbra da tardinha transportando consigo o assombro de um dia pesado de uma exaustão dolorosa de jorna. Olhos de um negro místico como lascas de pedras faiscantes de uma doçura atribulada com um manso resplendor de madrugada. Corpo hirto, músculos doridos Francisco caminhava com passos lentos por um carreirito apertado, sinuoso, entre altivos pinheiros num nevoeiro pálido de mágoas, densas giestas e tojos rasteiros, altivos e rasteiros ao seu olhar apenas, mas aos olhos do seu espírito uma grande árvore e uma ervinha eram da mesma altura, até à casa onde a mulher e os filhos o esperavam. Circundando-lhe a rotundidade do seu abdómen um cordão enegrecido pelo suor e nele suspensa balançava uma ferrugenta chave de sua casa que lhe prometia uma ceia de descanso. Meio derreado pelo peso de uma enxada que carregava ao ombro tão pesada como a cruz da sua amargurada vida que o presenteou com grossas mãos de rijos calos que eram o seu orgulho e a maneira de testemunhar o amor pela terra de onde nunca quis sair. Trabalhar a terra era o seu destino fatal e as suas mãos calejadas eram a singela homenagem àqueles que como ele sabiam dar vida a um terreno em boiça. Cismava falando baixinho com os seus botões num lamento doloroso de resignação e desespero.
– Meu querido filho!… (e suores frios lhe percorreram a espinha de alto a baixo).
– Essa maldita doença que dia após dia faz murchar a mais bela flor do meu canteiro. (Pequeno, rosto celestial de anjo, cabelo como espigueiro caindo sobre as orelhas em loiros caracóis ondulados, olhos como duas estrelinhas cintilantes, era o seu caçulinha o Rudolfo). E uma lágrima traiçoeira se libertou deslizando com um afago um sulco daquela face tisnada. Chegava Francisco a casa exausto naquele sombrio dia quando já declinava a noite e com a barriga a dar horas mastigou uma bucha, umas aparas de bacalhau cru e do cântaro de barro tirou umas azeitonas curtidas que entre suspiros e ais acompanhou com um naco de broa. Era o melhor aperitivo para beber uma “pinga“. Estava momentaneamente aconchegado aquele raleiro que lhe apertava o estômago contra as costas. Sentado no pátio térreo num banco de uma madeira tosca, improvisado, debaixo de uma secular figueira de figos vindimos, enquanto os filhos à sua volta esgravatavam a terra, esperava a ceia que a mulher cozinhava na lareira. Vivia da alegria de ver aquelas crianças felizes. Sossegava com aquela alegria contagiante que transmitiam aquelas pequeninas almas. Mas o seu menino, a sua alegria, não corria atrás dos irmãos, cansava-se, o seu coraçãozito de menino dócil recusava-se a palpitar naquela carcacita franzina. Na sua mais pura inocência não imaginava que a vida lhe escaparia a todo o momento. Suspiros e preces diáriamente percorriam os ares daquela humilde casa. Durante toda aquela santa tarde Francisco tinha sentido um aperto no coração que não tinha explicação. Até o gurgulhar da fonte de águas cristalinas que embalavam os nenúfares flutuantes com sua “flor da sereia“ lhe havia passado despercebida. E com o corpo esgotado de forças e a alma esgotada de paz sente a chegada da hora fatídica. Dois anjos alados envoltos numa nuvem branca de forma angélica embebidos em luz amanhecente tinham descido à terra na suas asas de silencio e na doçura dos seus extremosos braços envolveram a alma pura e inocente da criança para junto de Deus. Paralisou num silencio profundo, meditativo, não querendo acreditar. O seu menino havia partido com um ar tão sereno e tranquilo como um perfil de anjo. Mas a roda da vida não pára. Francisco todos os dias à mesma hora se senta debaixo da velha figueira. Alheado da noite que desce de mansinho, não dá conta das horas. Os filhos despertam-no daquele estado letárgico, sonho falso que fustiga malvadamente aquele corpo dorido do trabalho.
– Ande pai, é hora da ceia, levante-se, venha…
Vê aquela estrelinha mais brilhante no céu?!… É o nosso menino que se despede de nós e nos deseja uma noite serena de descanso e amor.
O pai olhou-os terna e amorosamente, volta olhar o céu e no silencio da noite, chorou, lágrima que se vestiu de asas e voou como uma lágrima Santa de Maria. E uma estrela cadente, a mais brilhante do firmamento deslizou em direcção à terra e a sua luz entrou pela janela daquela humilde casa. A noite caía serena prometendo-lhe o almejado descanso do corpo e da alma de um pecador que expiava os seus pecados numa vil libertação de suor e sacrifício, proveitos da dignidade do seu trabalho.

SANFONINAS

dr. jose
Juízos temerários
Teve-se conhecimento, a 6 deste mês de Novembro, através de reportagem televisiva, que um bebé recém-nascido – teria umas seis/sete horas de vida fora do ventre materno – fora encontrado num contentor ainda com o cordão umbilical.
Louvou-se o sem-abrigo, que deu com a criança. Eu acentuaria também um outro aspecto: é que, sem tecto, com um filho de 16 anos, o sem-abrigo estava mais atento do que os apressados cidadãos, que andamos sempre a correr. Para ele, quiçá, o tempo passara a ter outra dimensão e talvez também olhasse para o contentor com um olhar bem diferente do nosso. Recordo a máxima que ouvi há dias e que anotei, pelo seu significado profundo: «Com quanto mais pressa andam menos vagar têm!». Para o sem-abrigo haveria todo o vagar do mundo para si, que não para descobrir bicho ou pessoa que ali estaria a gemer. Sabia o que era sofrer, o que um gemido trazia dentro – e não descansou enquanto não viu. E salvou uma vida. Quiçá tenha salvado igualmente a sua, porque jamais esquecerá o que se passou e ganhará, sem dúvida, outro ânimo para encarar revezes.
A outra série de comentários – os mais frequentes – prende-se com a atitude da mãe ou de quem para ali atirou o menino nu. Claro, de imediato a comparação: nem os animais assim se comportam!… Um dia, estou certo, se saberá o que, na realidade, aconteceu, que terrível drama determinou um acto tão tresloucado.
A quem se hão-de atirar pedras? Numa passagem do Evangelho (João, 8, 7), vem a frase de Jesus Cristo: «Quem de vós estiver sem pecado que lhe atire a primeira pedra». Conhece-se bem o episódio. E a frase permanece duma actualidade pungente. Não, pedras não podem atirar-se a este ou àquele, porque – disso estou certo – a atitude, solitária ou não, resultou de todo um conjunto de circunstâncias repletas da maior gravidade. Apetece repetir a estafada do pastor anglicano John Donne, estafada, sim, mas nunca suficientemente consciencializada em casos como este: «Nenhum homem é uma ilha».
Não é.
Partiu essa mãe, solitária, imaginamos nós, convencida de que estava só e o seu frágil bote naufragara sem salvação possível nem eficaz SOS. Ninguém lhe ouviria os lamentos, ninguém serenamente escreveria no chão, diante dela, e lhe diria depois, olhos nos olhos: «Passou, vamos recomeçar! Dá cá o braço!». Mas… isso vai mesmo acontecer! E os juízos temerários hão-de esfumar-se de vez…

Mesa Redonda

Foto
Viseu-Região -20/30
Realizou-se no passado dia 30 de Outubro, no restaurante “Cortiço”, em Viseu, um almoço, cuja finalidade era discutir um assunto, com interesse para a região.
O “Cortiço”, que tem como lema a gastronomia tradicional, serviu um prato regional da época, arroz de míscaros, com cabrito e castanhas acompanhado de vinhos do Dão, oferecidos pela Quinta do Perdigão.
Estiveram presentes nesse almoço o Dr. Almeida Henrique, Presidente da Câmara Municipal de Viseu, Arquiteto José Perdigão, Grão-Mestre da Confraria dos Enófilos do Dão, Vanessa Chrystie, Pintora e Artista Plástica, Gualter Mirandez, Presidente da Associação Comercial de Viseu, Dr. Fernando Vale, escritor e historiador, Cónego Arménio Ferreira, Cónego da Sé de Viseu, Provedor Social e Diretor do Lar/Escola Santo António, Serafim Tavares, proprietário e diretor do Jornal Renascimento, Serafim Campos, proprietário do restaurante “ Cortiço” e o autor destas linhas.
Realço aqui o Dr. Fernando Vale, com uma vasta obra publicada e que tem uma parte dedicada à escritora mangualdense Ana de Castro Osório. Num curioso livro publicado sobre “Viseu de Portugal e Viseu do Brasil”, dá-nos a conhecer a cidade Atlântica do Estado do Pará, cujos emigrantes portugueses batizaram de Viseu.
No almoço referido, ficaram estabelecidas duas coisas: -uma semana gastronómica no “Cortiço” dedicada aos míscaros e às castanhas a decorrer de 25 a 29 de Novembro e outra, a mais importante, a realização de uma “Mesa Redonda” todas as últimas sextas feiras do mês.
Este encontro mensal tomou o nome pelo facto de se realizar na mesa redonda do restaurante, com capacidade para dez pessoas.
Nestes encontros, que terão sempre um, ou dois convidados especiais, tratarão de temas previamente escolhidos e que interessam à região. Temas debatidos e posteriormente dados a conhecer à Comunicação Social para conhecimento geral.
O proprietário e diretor do Renascimento, Serafim Tavares, foi convidado para fazer parte deste painel e o Jornal Renascimento será um dos meios para a divulgação do que se tratar.
Iniciamos dentro de um mês uma nova década. O mundo mudou! Para melhor? Para pior? Só o tempo o dirá. Mas, que vai ser diferente, ninguém tenha dúvidas. Os Fundos Europeus, 20/30, se bem aproveitados podem mudar muita coisa no Interior. E o Interior merece e está há demasiado tempo à espera, esquecido.
Há dias, publicando um artigo, sobre o meu amigo Fernando Vale, parodiando o seu nome, escrevi: -“Vale” a pena confiar!

CONSULTÓRIO

dr. raul
O vinho, amigo ou inimigo?
Ouve-se com frequência “que o vinho faz bem e é bom para o coração!”.
Mas, entre as supostas virtudes do vinho e os seus potenciais perigos para a saúde, para que lado pesa o prato da balança?
O vinho e os seus antioxidantes
Entre os pontos fortes desta tão apreciada bebida estão os polifenóis, substâncias antioxidantes que estão presentes, em quantidades apreciáveis, no vinho.
Numerosos foram os estudos que investigaram os seus efeitos potencialmente anti-inflamatórios e a sua possível acção protectora sobre o sistema cardiovascular.
De todos os álcoois, o vinho será o melhor?
Aí já não há tanto a certeza… Se alguns estudos chamam a atenção para os potenciais efeitos benéficos dos antioxidantes contidos no vinho, outros estudos tendem a relativizar este aspecto.
O verdadeiro trunfo do vinho, segundo alguns investigadores, reside, antes de mais, no seu teor em álcool.
Parece, com efeito, que a longevidade, seja qual for a causa, é ligeiramente superior no grupo dos fracos consumidores de bebidas alcoólicas face aos abstinentes completos. Em pequenas doses (um ou dois copos de vinho por dia), o álcool teria uma acção anti-inflamatória e exerceria um efeito favorável sobre a tensão arterial.
Boa nova para os consumidores de cerveja ou de álcoois mais fortes: o consumo moderado de outras bebidas alcoolizadas, que não o vinho, conduziria, também, a este efeito protector.
Apesar de tudo, o vinho e o álcool não são “alimentos” saudáveis…
É preciso lembrar que um consumo abusivo de bebidas alcoólicas inverte toda a questão… A partir de um certo limite, os efeitos nefastos do álcool começam a ganhar muito mais peso no prato da balança dos malefícios.
Os inconvenientes são bem conhecidos: aumento da tensão arterial, aumento do risco de doenças cardiovasculares e de lesões hepáticas (do fígado), aumento de peso consecutivo à quantidade elevada de calorias que o álcool contém.
Isto tudo sem falar do risco de dependência e dos acidentes (de trabalho ou rodoviários) ligados a uma diminuição da vigilância e do aumento de agressividade (doméstica e social).
Bebidas alcoólicas e cancro não fazem uma boa parceria
Em causa: a degradação que o etanol (o álcool do vinho) provoca sobre o fígado, que forma uma molécula que é um reconhecido cancerígeno.
Os cancros mais fortemente associados ao consumo elevado de álcool são:
Os cancros orofaríngeos (da boca, da faringe, da laringe e do esófago).
O cancro colo-rectal.
O cancro da mama.
Em todos estes casos o risco de cancro aumenta, de forma exponencial, quando o tabaco se associa ao álcool.
Vinho: em que quantidades?
Entre benefícios e perigos, como saber que quantidades de vinho consumir quando se querem maximizar os seus efeitos sobre a saúde?
Lembremos, em primeiro lugar, que nunca é aconselhado beber álcool. E que não é possível saber, exactamente, a dose adequada uma vez que não se conhecem todos os outros factores que influenciam a saúde de uma pessoa: não é calculável!
O que se pode afirmar é que, um copo por dia é benéfico para a longevidade, mas ingerir grandes quantidades de uma só vez (ao fim de semana, por exemplo) é nefasto para a saúde.
Também, a abstinência total se aconselha a todos os jovens com idade inferior a 16 anos e às mulheres grávidas.
Alguns estudos aconselham, ainda, que seria muito vantajoso respeitar, pelo menos uma vez por semana, um dia de abstinência total.
E aconselham, ainda, a não ultrapassar os seis copos de vinho por semana, sem nunca ultrapassar a quantidade de 2-3 copos de vinho de uma só vez.
E o “bom senso” popular também aconselha:
“Copos de bom vinho tinto,
Nunca serão mais que três!
Manda a regra, e eu não minto:
Beber um de cada vez!”

Fontes de informação: Aude Dion, jornalista de saúde
“Beber ou não beber, eis a questão”- Kloner RA et al – Circulation, 2008
E-mail: amaralmarques@gmail.com