Arquivo diário: 3 de Fevereiro de 2020

EDITORIAL Nº 770 – 1/2/2020

patrao
Caro leitor
Entendi nesta edição comunicar aos mangualdenses que, depois de muito ser pressionado, quase todos os dias, para ser candidato a Presidente da Câmara Municipal de Mangualde, não o vou fazer nas atuais circunstâncias, essencialmente por um motivo – tinha que abdicar de ser empresário e por isso, não sou candidato. Gosto da minha liberdade, admito, como todos nós. Darei o meu contributo como sempre dei. Como alguém dizia um dia, vou andar por aí. Preocupa-me os destinos de Mangualde, esta terra magnífica, mas que eu entendo, nunca teve rasgo como merecia, tem simplesmente sobrevivido ao sabor do vento e isto é pena e dá raiva. A única obra que deu sinal de que Mangualde poderia vir a ser uma grande cidade foi a chamada avenida da Estação, esta é parte central de Mangualde e o que vemos? Está à vista de toda a gente. Saímos da auto estrada A25, passamos por Mangualde até à estação e o que temos em absoluto? Nada de nada! Quem vier de fora e que não saiba que Mangualde é cidade, não é por aqui que fica a saber. Fica a imagem de vila e mal. Esta é a imagem que Mangualde dá aos seus transeuntes. É pena, é triste mesmo.
Não queria ser eu a dizê-lo de forma alguma, Mangualde tem-se colocado a jeito de ser engolido por Viseu… todo o ser Humano é livre de apostar os seus recursos onde entende tirar melhor rentabilidade deles. Eu, sempre apostei aqui em Mangualde, apostei pouco, cheguei à conclusão que sou fraco apostador. Uma vida de trabalho a apostar no local errado. Lutei de todas as formas e até na política, isto porque antecipava a má governação de Mangualde, creio que só eu dei conta disso, do que estou a dizer, uma vez que até hoje ninguém o disse e escreveu o mesmo.
Este jornal é seu, sempre teve as portas escancaradas, sempre deu voz a quem quis gritar mas parecem ter perdido a voz.
É uma comunidade de acomodados e Mangualde definha todos os dias, a todo o minuto e ninguém faz nada de nada.
As minhas desculpas a quem possa ter desiludido e esperava mais de mim, mas chega!
Por hoje, assim me fico,

Um abraço,

COMPRO FUNERÁRIAS
NESTA REGIÃO
966124596

ABRUNHOSA A VELHA

sr. julio
Acabado de chegar do meu café matinal, tomado num café da Povoação, verifico que a Televisão no programa de Cristina Ferreira, debate o problema da velhice, suas consequências e formas de encontrar soluções. Neste debate, entre outros, estava o Senhor Secretário de Estado da Segurança Social e o Senhor Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Porque é um tema, que nos toca a todos e nos deve preocupar, acompanhei com atenção o programa até ao fim. O problema dos Lares, é visto por alguns como lugares onde os idosos são depositados, antecipando-lhe a morte. Não é essa a perceção que tenho dessas Instituições, bem pelo contrário, muitos encontram ali o carinho e o afeto que nunca tiveram em suas casas. Sei que o ideal, seria termos condições para os manter nos seus Lares, como acontecia antigamente, mas os tempos mudaram, o paradigma é outro, hoje para sustentar a família, têm de trabalhar homem e mulher, e deixou de haver tempo para os idosos (ou melhor, o tempo necessário e que merecem), por isso há que criar condições, de forma a dar-lhes o conforto e dignidade que merecem, após uma vida de trabalho e sacrifícios. Ouvi o Sr. Secretário de Estado dizer que existe dinheiro para Lares e Residências Séniores, e aqui lembrei-me da nossa Freguesia, cuja Paróquia é detentora de uma propriedade, doada pela saudosa e grande Benemérita D. Lurdes Martins, situada numa zona privilegiada, de onde se vislumbram paisagens maravilhosas, equipada com um Palacete do início do século passado, onde à cerca de 10 anos, fizemos obras de requalificação, e criámos novas Instalações de Lavandaria e outras, cujos alicerces, foram executados de forma a suportar um ou mais Pisos (numa Direção Presidida pelo Sr Pe Cunha). Já lá funciona o Centro de Dia, e é feito Apoio Domiciliário, serviço prestado com grande qualidade, parabéns à Dra Ana e a todas as Funcionárias, mas se calhar está na hora de dar um novo passo, a nossa Freguesia, não pode ter por desígnio o fatalismo. Já perdemos muito, há que sair da zona de conforto, e aproveitar estas oportunidades. Parafrazeando Vinicius de Morais “do céu só cai chuva, o resto é luta”. Ninguém se deve pôr de fora, é uma situação que a todos diz respeito, mas quem tem mais responsabilidades, tem a obrigação de lutar. Um abraço a todos.

REFLEXÕES

Ana Cruz
GRUMAPA Grupo Mangualdense e Apoio e Protecção dos Animais
Já agora antes de continuar a descrever a odisseia da construção do Canil /gatil vou rever a cena que aflorei no escrito anterior, uma triste situação dentro de tantas que nos surgiram ao longo dos anos. Porém, antes de começar terei de avisar que esta tem rodinha vermelha para os mais impressionáveis, como uma rodinha no ecran da TV em determinados filmes.
Temos testemunhos fotográficos que não serão para publicar neste momento. Foi sensivelmente no verão de 2011, se bem me recordo, fomos avisados que um sem número de esqueletos de cães se encontravam num grande tanque localizado próximo da aldeia de Espinho. Intrigada e com pouca coragem, armei-me de máquina fotográfica e lá fomos eu, o vizinho e sócio Fábio Costa acompanhados pela pessoa que conhecia o local. Era, nem mais nem menos, uma área da exploração de urânio (ENU) e que já havia sido desactivada. Ficaram por ali largas crateras abertas onde se formaram lagos de água verde, e algumas estruturas já sem utilidade. Havia também grandes tanques que eram utilizados na lavagem das terras e minérios. Eram cavados na terra dura, em plataformas, com as faces internas em rampa em toda a profundidade, provavelmente mais de cinco metros. Depois, para reterem as águas e os minérios eram forrados com uma capa de um material negro e liso, que se assemelhava a borracha e com uma considerável espessura. Esta espécie de capa era altamente escorregadia estivesse seca ou húmida. Havia vários tanques. Quando nos aproximámos de um deles, ficámos imediatamente em choque. Parecia um filme de terror, um holocausto – teriam sido em grande número os animais que ali acabaram os seus dias num sofrimento atroz !!! Nem sombras, nem comida, nem água e um sol abrasador. Como é que foram lá parar !?…Era só o que eu repetia em lágrimas, e quem me acompanhava. Não havia explicação para tamanha desgraça…Era fácil detectar aquela larga abertura, poderia lá cair um cão, mas eles são inteligentes e temos dúvidas que fossem todos de seguida. Começámos a reflectir no que se teria ali passado- alguns dos animais poderiam ter vindo a correr atrás de uma cadela e caírem lá dentro…como as paredes eram inclinadas e escorregadias eles não conseguiriam subir. Enfim, era uma hipótese… Mas os esqueletos eram muitos…contamos dezenas. Alguns eram ossos limpos…outros não estariam ali há muito tempo porque ainda tinham a pele e o pêlo sobre o esqueleto e havia de vários tamanhos e até raças.. Conseguimos identificar por restos de pêlo e dos corpos secos um husky e um Serra da Estrela. E acreditamos que isto aconteceu ao longo de meses e até anos, muitos deles comeram parceiros de infortúnio para matar a fome – os mais fracos e pequenos pelos mais fortes.
Depois desta desgraçada cena e de umas conversas que ao tempo fizemos por lá, chegamos a uma revoltante conclusão – a maior parte dos animais foram ali parar pela mão do próprio dono… pessoas que resolvem problemas pelo processo, para eles, mais barato, prático e rápido – atira-se o animal lá para baixo e vamos embora, ele nunca conseguirá sair – uma maldade, frieza e ingratidão que nos revoltou até à medula. Ali já nada poderíamos fazer a não ser constactar até aonde chega a desumanidade. Recorrer às autoridades, para quê? Resolvi dirigir-me à Sede da Empresa, na Urgeiriça, contar esta comovente descoberta e solicitar medidas urgentes para que aterrassem aquelas armadilhas. Sei que algum tempo depois a situação ficou resolvida…só não se resolveu na minha mente a lembrança daquela imagem arrepiante…Vida de protectora…

“Procurar sarna para se coçar…”

Ana Cruz
Ter uma atitude “transparente” é algo considerado em vias de extinção. De fato, muito “rico” que anda a “branquear”, tem a honra tão obscurecida que para compensar tem que ter “paraísos”, para com uma claridade solar que possa observar a sua honra mais “clara”. Pois este provérbio encaixa que nem uma luva (em não estou a falar de luvas para ocultar o delito…), a certos indivíduos de boa dicção e apresentação, que ridicularizam quem trabalha muito e recebe pouco! Infelizmente a justiça é cega, e mesmo sem venda deve ser um pouco míope, porque continua a castigar de forma desigual… A também deve ser um pouco amnésica, porque esquece quem furta muito, e relembra quem está na miséria por pequenos delitos!
Não resultando em metáforas, mas o tema “Parasitismo” já tinha sido escrito anteriormente. Esse artigo foi sobre a infestação de vermes no intestino, vulgo “Lombrigas”, no entanto a infestação de parasitas na pele é um mundo prolifero, mas pouco divulgado porque “mete nojo falar nisso!” Pois…. Então fingimos que não existe? Bem, há quem prefira considerar que certas epidemias já foram debeladas devido á melhora das condições de higiene, e logo acha que as inflamações da pele são dermatites ou alergias. Mas a realidade é que o contágio sucede em lugares onde há grande concentração de pessoas, como escolas, ginásios, residências, hotéis… E não existe qualquer relação entre boa higiene corporal e não infestação de parasitas da pele! O caso da sarna, ou termo técnico escabiose (Sarcoptes scabie, nome do ácaro\ parasita), esta tem origem no latim “Scabere – que significa coçar!
Um dos sintomas é exactamente uma comichão\prurido intensa, especialmente à noite (é quando a fêmea do ácaro, causadora da infestação na pele, inicia o seu depósito de ovos devido ao calor que emana do leito onde o hospedeiro\ pessoa está!). Este sintoma pode variar conforme a actividade física do hospedeiro, ou seja quando maior a subida de temperatura cutânea\ pele, maior a probabilidade de comichão! E como em média a parasita percorre 3mm\dia a pele do hospedeiro, ao coçar a parasita, esta amplifica o seu caminho gerando eritema\ borbulhas com crostas, também denominadas por galerias. Quase sempre os espaços entre os dedos das mãos, axilas, zona infra mamária, nádegas e virilhas são as zonas mais afectadas. Normalmente eclosão dos ovos, ou o surgimento de novos parasitas demoram 21 dias, o que significa que deve existir uma precaução acrescida de evitar nova infestação de sarna\escabiose, aplicando um segundo tratamento 15 a 20 dias depois do primeiro.
Ninguém gosta de visitas indesejadas! Ninguém gosta de ser hospedeiro destes inquilinos! Logo é fácil discernir que se não existir uma boa “transparência” na descrição dos sintomas, dificilmente o médico consegue diagnosticar este problema. Não hesite em falar com o farmacêutico ou outro profissional de saúde, esteja atento se mais alguém em casa tem os mesmos sintomas, porque significa que já há contágio e o tratamento tem de ser para ambos. E como é lógico, roupas com contacto directo com a pele devem ser lavadas com temperaturas elevadas!
Outra mazela provocada por parasitas são os piolhos, ou pediculose. “Pediculus”, em latim, significa pequenos pés. No fundo alude à fixação que este parasita tem no fio capilar, junto ao couro cabeludo onde se alimenta do sangue do couro cabeludo do hospedeiro. Também o sintoma è a comichão intensa e mais uma vez tem de existir um contacto próximo entre o transmissor do piolho e o futuro hospedeiro. Mais uma vez deverá ter um cuidado acrescido em observar os restantes elementos que coabitam com o hospedeiro caso haja contágio, e realizar um 2º tratamento 15 a 20 dias após o 1º tratamento para abater os piolhitos que saem das malfadadas lêndeas, ovos dos piolhos iniciais!
E se por acaso não sentir uma sugestiva comichão na cabeça ou braço, é porque o seu auto controle é muito bom, porque quase sempre que se fala nestes temas é inevitável a unha não encontrar um alívio imediato no couro cabeludo.
Estes parasitas, ainda conseguimos debelar, de forma temporária ou definitiva, já os “outros” temos de os ver a pavonear-se alegremente nos tribunais e inquéritos, e serem enaltecidos por nos “sugarem” a paciência!

IMAGINANDO

francisco cabral
PARTE 72
Entre as Praias da Adraga e da Ursa no sentido do Cabo da Roca, vamos encontrar diversas rochas escuras que lhe dão uma tonalidade própria que vai combinar com a paisagem, e lhe conferem uma beleza já tradicional nesta região Sintrense.
Destaco a Pedra de Alvidrar na escarpa Sul, onde se pode ver a gruta da Pedra de Alvidrar.
Quando pela então ocupação romana ,  presos e desertores eram atirados ao mar por esta gruta, sendo igualmente chamada de Gruta da Pedra do Juizo.
Destaco que alguns anos atrás, jovens corajosos desciam através desta gruta, na busca de moedas que turistas atiravam, provando ao mesmo tempo a sua valentia.
Ainda neste local podemos observar um poço, que resultado da ação corrosiva das chuvas e pelas fraturas das rochas calcárias e ação erosiva das ondas, atinge uma grande profundidade terminando no mar, dando pelo nome de Fojo.
Pedra de Alvidrar
Como nesta gruta há altos e baixos embora com algum risco, existe um género de caminho de formigas em forma de caracol levando em tempos homens, que desde moços se habituaram a descer por aqui, transportando um facho de um lado e uma cana de pesca do outro.
Esta Rocha era também um motivo de alegria para os emigrantes que viajavam de barco, porque ao avistá-la sentiam o Porto de Lisboa já muito perto. O desembarque  e abraços aos familiares estava próximo.
Sendo Sintra lendária, o local não foge à regra:
Conta-se que Deus Vulcano se enamorou duma jovem princesa de nome Al-Vidrar dotada de grandes virtudes, desconhecendo que Ela já havia sido destinada para seu jovem sobrinho Fojo. Não contente com este facto foi pedir satisfações a sua irmã Zipa, que lhe confirmou nada ter a ver com o assunto em questão e ainda lhe fez ver que a Princesa já não era previligiada para a sua idade, recomendando-lhe moderação.
Vulcano furioso, não acatou as palavras de sua irmã. Formou um poderoso exército, derrotando sobrinho e noiva, cujos corpos ficaram vulcanizados onde hoje é a Pedra de Alvidrar e o Fojo.
Situada, entre as Praias da Adraga e da Ursa, a Rocha de Alvidrar, é digna de uma visita, mas recomendo um certo cuidado, porque conforme a imagem mostra, é digna de respeito.
fjcabral44@sapo.pt

AINDA ME LEMBRO!…

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TEMPOS …
A vida tem as suas aventuras, rimos, brincamos e pressagiamos as nossas míseras desventuras. Perdidos no passado não fiquemos ensombrados com aquilo que podemos desfrutar no presente. Saio de casa e vago lá por fora na santa solidão da minha aldeia a interrogar as sombras que me fazem recordar. E ainda me lembro!… Curtidos por sóis e ventos, ocasionalmente apareciam “os farrapeiros“. Homens de barba restolhuda e cabelo desgrenhado, roupa deslavada e meio remendada, criaturas de condições humildes que de saco às costas ou numa desengonçada carroça com um velho burrito se dedicavam à compra de farrapos, trapo velho para confecção de mantas, “mantas de farrapos“. Deambulavam de aldeia em aldeia de rua em rua ébrios de sol de azul e de amplidão, “apregoando“: Compramos farrapos, sarro (1) e dentição (2), alheios aos animais frenéticos que surgiam, mortos por lhes arremeterem. Negociantes que compravam e vendiam roupas velhas, papel, ferro velho, metais, peles, ceras ou objectos usados. A pouca abundância de matéria prima exigia a sua diversidade. No Verão quando a viçosa paisagem, que o sol ama em brando sonho ou o fumo da névoa se desfazia, montavam tenda e acampavam ao ar livre, em noites serenas numa contemplação de montanhas soturnas admirando no horizonte os ermos vales e os rochedos nus, num suavíssimo turpôr, ouvindo na calada da noite o canto genial do rouxinol e com o estômago à tona da água, mal cheio, mas avisado da escassez de alimento sabiam encontrar muito no pouco, tendo o sol como meia mantença. No Inverno com um ar limpo e o céu geadeiro ou os rochedos submersos em alvuras quando nevava pareciam concentrar-se em oração, aqueciam as mãos e o coirato dos pés descalços às labaredas crepitantes de umas pernadas de uma qualquer árvore seca, sentindo o frio retirar-se devagarinho dos ossos como geada a derreter-se ao sol. E em sobressalto a noite ia fugindo. Eram como aves do céu que a gente via sonhando, como sombras de anjos que passavam num clarão. Os tempos mudam como rios fabulosos que em profundos e quiméricos vales deslizam, hoje os vimos com a merecida importância que tiveram para o Planeta Terra por serem amigos da Natureza. Foram pioneiros no aproveitamento de materiais velhos ou usados que desfiguravam ou prejudicavam o ambiente. Potencial lixo que era nova matéria prima capaz de ser reutilizada contribuindo para uma melhor qualidade de vida. Trapos e farrapos são hoje fonte de preocupação com a forma e a maneira de os reciclar. Vivemos num mundo viciado no consumismo que nos leva ao exagero de as famílias acumularem roupa sobre roupa “é só trapos e mais trapos, farrapos sobre farrapos“. E como corolário de um mundo consumista se um casal decide viver em união, vulgarmente se diz “juntaram os trapos, acumularam farrapos”
1) Sarro (sedimento deixado pelo vinho no fundo das pipas)
2) Denticão (Pequeno grão em forma de dente que aparecia na espiga do centeio e que era usado para fabrico de medicamentos)

A REAL FÁBRICA DO GELO

juiz
Antes dos finais do século XIX, até ser inventado o frigorífico, não era fácil encontrar um modo de refrescar as bebidas na época do Verão. Só a natureza podia produzir o gelo necessário para o efeito. Para o conseguir, foi construída, na Serra de Montejunto (no lugar da atual freguesia e concelho do Cadaval, distrito de Lisboa) a Real Fábrica do Gelo, onde se formavam blocos de gelo que abasteceram, durante mais de 120 anos, a Corte e os cafés mais “chiques” de Lisboa. O hábito do consumo de bebidas frescas foi introduzido em Portugal no início do século XVII. Quando Filipe III de Espanha visitou Lisboa, em 1619, foram envidados todos os esforços para que não faltasse a neve na mesa do rei. Nessa altura o gelo vinha da serra do Coentral, situada no extremo sul da serra da Estrela e da serra da Lousã.
A construção da Real Fábrica do Gelo teve início em 1741 e demorou cerca de seis anos, tendo ficado a dever-se à iniciativa de três homens de nacionalidades diferentes: um espanhol, um italiano e um francês. O custo da obra importou numa verba que oscilou entre 40 e 45 mil cruzados, um valor exorbitante para a época. A unidade constava de dois setores, sendo um de produção e outro de armazenamento. Esta parte, apesar de ser em pedra (com 10 metros de profundidade e 7 metros de largura), dispunha de uma grelha em madeira assente num conjunto de pedras salientes, por forma a permitir o escoamento da água do gelo que se derretia para não ficar em contacto com o bloco, sendo drenada para o exterior. Isto constituía já um avanço técnico para a época.
A água da chuva era conduzida para os 44 tanques de congelação, com recurso a um sistema de nora movida pela força de animais. A água distribuía-se por gigantescas “couvettes”, a céu aberto, aguardando que o frio da noite as transformasse em gelo. Quando tal acontecia, o guarda descia à próxima aldeia de Pragança e, munido de uma corneta, chamava os habitantes da aldeia para a tarefa seguinte que consistia em tirar os blocos dos tanques e transportá-los às costas para os silos antes do sol nascer. Os “neveiros” dormiam em suas casas atentos a este chamamento. Mal escutavam o som da corneta, apressavam-se a subir a pé até ao cimo da serra, sabendo que só os primeiros conseguiam trabalho. Era a oportunidade de ganhar algum dinheiro, levando a cabo uma tarefa muito árdua, em que, mal vestidos e mal calçados, tinham de suportar um frio muito intenso. A época deste trabalho situava-se geralmente entre Outubro e Fevereiro.
Nos silos os blocos de gelo eram acondicionados com palha e serapilheira e aí permaneciam até Junho, altura em que eram transportados para Lisboa. O transporte dos blocos fazia-se no dorso de burros, descendo as veredas que serpenteavam a montanha. Vencido o desnível da serra, eram transportados em carroças ou carros de bois que os faziam seguir rapidamente até à Vala do Carregado, sendo depois transferidos para os denominados “barcos de neve” que, pelo Tejo, os levavam até Lisboa. Na capital eram levados para a “Casa da Neve”, no Terreiro do Paço, que mais tarde veio a ser o atual café Martinho da Arcada, e também para o “Café Gelo”, que ainda hoje existe, no Rossio.
O gelo era não só utilizado para refrescar o vinho branco ou o champanhe, mas também para fazer sorvetes. Estes eram servidos, não como sobremesa, mas entre o prato de peixe e o de carne, para cortar o sabor.
A Real Fábrica do Gelo serviu a Corte dos monarcas D. João V e D. José. Funcionou até à invenção do frigorífico. Depois ficou totalmente esquecida durante quase um século. O mato tomou conta do local, tendo-a escondido a ponto de já “ninguém” se lembrar da sua existência. Porém, um professor de História na Escola Secundária do Cadaval, lembrou aos alunos que a mesma havia realmente existido. Isto aguçou a curiosidade de uns tantos alunos que, tendo interesse em encontrar o local combinaram ir procurá-lo. A vegetação que se tinha desenvolvido à sua volta, impediu-os de entrar na Fábrica. O grupo de jovens, com idades compreendidas entre os 15 e os 16 anos, não desistiu de a devolver ao conhecimento das pessoas atuais. A Câmara Municipal do Cadaval, com a colaboração do Instituto de Gestão do Património Arquitetónico e Arqueológico (IGESPAR), compreenderam a sua importância e deram início à sua recuperação, musealização e classificação. Em 1997 foi então classificada como Monumento Nacional, tendo sido reinaugurada em 27 de Março de 2011.

SANFONINAS

dr. jose
Aquele recanto do jardim
Nunca lá vi ninguém sentado. Nem velho nem casal de namorados nem cônjuges nem crianças. Ninguém, É, todavia, um recanto bem aprazível, sempre limpo, sossegado, de ar purificado pelas árvores que o ladeiam, tranquilo num repousar de olhos sobre o verde da relva e das plantas do jardim que o envolve. Há caixote para o lixo, há dispensador de sacos para dejectos caninos. Está nas traseiras dos prédios e o movimento da rua do bairro quase ali passa despercebido.
Imagino o dia em que, diante do estirador, o arquitecto paisagista delineou esse recanto, a pensar em crianças, em velhos, em mães com filho num carrinho e ela a poder ler ou responder a mensagens… Sim, o arquitecto pensou em gente, que o seu recanto sem gente não tinha sentido nenhum!…
E não tem. Que eu nunca lá vi ninguém sentado.
Recordo o ancião que, passando boa parte do seu dia, todos os dias, sentado num banco de jardim, a admirar as flores, a ver as arvéloas aos pares de longo rabo sempre a mexer acima-abaixo, acima-abaixo, a observar a azáfama das abelhas ou das formigas ou a algazarra das crianças que, de vez em quando, o vinham saudar, decidiu deixar em testamento boa parte dos seus bens à entidade que ali superintendia, para manutenção daquele banco porque o banco o fizera feliz…
«Num banco de jardim uma velhinha / faz desenhos nas pedrinhas que, afinal, são como eu» – canta Carlos do Carmo na sua «Balada para uma velhinha».
Sim, a ideia geral é essa: o banco de jardim é para os velhinhos; por vezes, para os namorados… Mas, quando o arquitecto, diante do estirador, desenhou aquele recanto ora feito realidade, não foi só nas velhinhas que ele pensou, foi na gente, foi nas pessoas… As pessoas, porém, não têm tempo para ali se sentarem, nem ao domingo, nem ao sábado, nunca!…
Assaltou-me a ideia do recanto triste e desabitado do meu bairro. E dei comigo a penitenciar-me também: «Não tens uma mesa de verga e duas cadeiras de verga na tua varanda, amigo? E para que as queres lá? Quando as compraste, não foi para nelas te sentares, para usufruíres de momentos de relaxamento no desenfreado correr quotidiano? Não foi? Para conversares com tua mulher, com os teus filhos. Para o gato saltar para o teu colo e te deixares levar pelo seu ronronar sereno? Não foi?…