Arquivo mensal: Março 2020

EDITORIAL Nº 772 – 1/3/2020

patrao
Caro leitor,
Hoje, e mais que nunca, o Mundo precisa de solidariedade. Devemos ser comunitários.
À medida que cresce a massificação do desapego pelas individualidades, mais se faz sentir a necessidade de entreajuda.
O desamparo dos marginalizados, sem rosto e esperança, assim como as necessidades dos pobres na nossa sociedade, estão a clamar por espírito de companhia e proteção. Não seja por isso individualista, vivendo só para si e para os seus problemas, esquecendo-se e fazendo vista grossa diante das aflições alheias. Ajude, quem quer que seja e quem quer que possa, por razões de humanidade. Auxiliar quem precisa e lutar por uma sociedade mais justa é o suficiente para engrandecer uma vida. Engrandece a de terceiros, mas também a nossa.
Se quer sucesso, seja verdadeiro, pois é a realização dos grandes ideais de vida.
Tenha ambição por valores duradouros e não por distrações passageiras que lhe vão deixar um travo amargo na vida e deceções por ausência de valor. Viver para conquistar ilusões não vale a pena. Para ter sucesso, um sucesso verdadeiro, lute com todas as suas forças, só assim o conseguirá. Este é um sucesso de imortalidade…
Nada vai apagar a felicidade de uma plenitude de vida que só é alcançável quando servimos com verdadeiros ideais. Esses são eternos.
Amar a própria família, ser íntegro e fraterno, colocar Deus no nosso caminho e lutar pela justiça e paz, eis alguns destes ideais. Só isto nos garante o sucesso e auto-realização que as ribaltas iluminadas da vida não conseguem dar.

Abraço amigo,

REFLEXÕES

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AINDA O GRUMAPA
Alguns dos sócios fundadores do GRUMAPA ( Grupo Mangualdense de Apoio e Protecção dos Animais) entre os quais me incluo, foram confrontados com a publicação de uma entrevista no dia 3 de Janeiro passado, realizada pelo Diário de Viseu aos actuais dirigentes desta associação. Como verificámos que nela foi apagado, mais uma vez, todo o mais importante período da vida do Grupo desde o seu nascimento (1995), bem como TODO O TRABALHO DESENVOLVIDO pelos sócios fundadores até 2012 entendemos que, embora esta odisseia já venha sendo desenvolvida em pequenos capítulos no jornal Renascimento, desde alguns meses a esta parte, merecia que se insistisse nesta questão pertinente e escandalosa.
Assim, em 1995 um pequeno grupo de cidadãos de Mangualde tentavam prestar o auxílio possível aos imensos animais que, esfomeados, doentes, escorraçados, deambulavam pela cidade. Para tal criaram este grupo que legalizaram por escritura notarial organizando-se os respectivos Corpos Sociais.
Contudo, um dos principais objectivos dos fundadores era a construção de instalações próprias, condignas e confortáveis para os animais em perigo. Depois de um trabalho árduo e muitas vezes frustrante conseguimos em 1998 adquirir uma pequena quintinha com 3ha que mais parecia um bosque de grandes árvores e mato cerrado. Após a sua limpeza delimitámos uma parte da área com rede e sempre com a extraordinária colaboração da Autarquia, ao tempo, desenvolvemos o processo de angariação de fundos. Conseguiu-se algum apoio estatal que associado ao empenhamento da Câmara e à muito boa vontade de alguns sócios, grandes beneméritos, nos possibilitou ao longo dos anos, com muito esforço e sacrifícios, erguer as duas grandes construções que lá se encontram – um enorme pavilhão / canil, e uma boa casa para a Sede.
Foram 16 anos de trabalho físico e mental, incalculáveis. Com a obra a andar, muitas vezes tivemos ideia de desistir tantos eram os entraves financeiros… Embora já tivéssemos cerca de 140 sócios, o verdadeiro esforço era feito por pouco mais de uma dúzia. Apesar de todos os desalentos em 2011, já tínhamos construído o essencial e já tínhamos boxes montadas no pavilhão para onde iriam os 21 cães que a presidente continuava a acomodar e cuidar nos espaços da sua casa. No final de 2011 instalámos os primeiros sete cães já tratados das mazelas e saudáveis.
O que era mais importante já tínhamos construído e embora ainda fossem necessários trabalhos complementares, podíamos agora dispor do espaço que ambicionávamos. Também já havia voluntárias para dar uma ajuda.
No entanto, depois de tanto esforço como presidente, as minhas energias descambaram. Mal conseguia pôr-me de pé. Era urgente alguém que me substituísse, mas para os restantes elementos dos Corpos Sociais tornava-se difícil, visto que todos tinham obrigações profissionais a cumprir diariamente. A obra estava quase finalizada. Não havia dívidas e ainda tínhamos na CCA um depósito de 3.700 Euros…! Mas estava este grande problema dos dirigentes para resolver.
Por um estranho desígnio do destino no final do ano de 2011 surgiu do desconhecido alguém que não querendo…queria ser presidente. Logo no inicio de 2012 fez-se a necessária Assembleia Geral para eleição dos novos Corpos Sociais.
Porém, para nosso espanto, a partir daqui tudo se começou a desenvolver dentro da maior confusão! Aconteceu de tudo. Voluntários foram desconsiderados, os sócios fundadores iam sendo eliminados e os 16 anos da vida bem difícil que alguns levaram foram paulatinamente apagados como se verifica em todas as abordagens que os actuais dirigentes têm feito até aos dias de hoje. Então impõe-se uma questão – todo aquele património do GRUMAPA apareceu ali, em 2012, com um simples gesto de varinha mágica !!! ?… Valha-nos Deus !!! Mas como é sempre possível a uma qualquer pessoa encontrar um caminho mais limpo, agora a vida lá irá sorrindo para os animais, ao menos. Tudo o resto está escondido nas páginas do Facebook e na memória de certa gentinha…

(Também pelos sócios fundadores) – Maria Clara Matias sócia nº1

TRADIÇÃO POPULAR

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O RESPONSO
Da serra começava a levantar-se um crepúsculo, um fumo de nevoeiro. E um oiro em pó, suspenso, ia juntar-se às primeiras estrelas: descia a noite.  Era às pessoas mais idosas, vistas como seres de algum poder, supostamente aureoladas de uma difusa luminosidade, que no final do dia ou noite adentro a elas recorriam quando alguma dificuldade surgia, animais ou objectos que desapareciam, trovoadas ribombantes que nos inquietavam. Num altivo porte como um sorriso de uma Santa que não conhece distancias e alumia de longe como a estrela mais remota, sentada no fundo dos degraus de pedra, firme e hirta, a rezadeira, aconchegada pelo xaile preto para se proteger da orvalha que ia “caindo”, ou do vento frio que perpassava na ramagem das árvores, escutava a choradeira ou lamentação da desgraça, sendo sentida como última esperança daquela gente tão sofrida e castigada pelas agruras da vida onde a dor não sofre mas é sofrida como flor que treme só de lembrar o fim da Primavera. Absorta do mundo e de tudo que a rodeia, calma e serenamente balbuciava algumas inaudíveis palavras. Recitava a oração de forma encadeada sem se enganar: estava a responsar.
Responso a Santo António que deve ser rezado durante um ciclo de nove dias. Acende-se uma vela branca antes da oração.
Se milagres desejais, recorrei a Santo António
Vereis fugir o demónio, e as tentações infernais.
Recupera-se o perdido, rompe-se a dura prisão
E no lugar do furacão, cede o mar enraivecido.
Todos os males humanos, se moderam e se retiram
Digam-nos aqueles que os viram, e digam-nos os Lusitanos.
Pela sua intercepção, foge a peste, o erro a morte
O fraco torna-se forte, e torna-se o enfermo são.
Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo.
E na mansidão viçosa dos planaltos, vindas do lado saudoso do poente, fortes e assustadoras eram as trovoadas em Maio, quando acompanhadas de ventos em ataques de angústias enlouquecidos. Enquanto se iam pondo na lareira bocadinhos já secos de alecrim e loureiro do ramo do Domingo de Ramos:
Santa Bárbara bendita, que no céu estais escrita
Com raminho de água benta, livrai-nos desta tormenta
Lá para a serra do Marão, onde não haja vinho nem pão
Nem leira nem beira, nem galo que cante, nem figueira que espante.
Os ritos e as preces diversificavam mantendo sempre, no fundo, a sua verdadeira essência:
Santa Bárbara pequenina, se vestiu e se calçou
Seu caminho caminhou e Jesus encontrou:
Bárbara onde vais?!…
Senhor vou para o Céu, abrandar a trovoada que sobre nós anda armada.
Mandá-la para o monte do rosmaninho, onde não haja pão e vinho
Nem ramo nem maneira, nem folhinha de oliveira.
A palavra “responso” provém do latim e significa resposta ou “procura de resposta”. O tipo de responso varia conforme a necessidade da pessoa. Após o momento de desalento ele transmitia calma e esperança. O responso é uma oração muito antiga, um misto de energia positiva que pretendia obter o bem.

Quando a pedra não é tão preciosa!

Ana Cruz
A formação de cristais, vulgarmente denominadas “pedras”, dentro do organismo humano são motivos para muitas idas ao médico, sendo a sua localização mais frequente no sistema urinário, vesícula biliar e em última instancia nas articulações.
Vários são os fatores que desencadeiam uma litíase (palavra cuja origem remonta os gregos, “Lithos” – pedra e “iasis” – doença”), quase sempre associados a alterações alimentares privilegiando alimentos processados, ricos em sal e conservantes, para além de reduzida ingestão hídrica e sedentarismo!
Na verdade, o conceito de formação “pedra” pressupõe uma concentração aumentada de determinada substância (cálcio, ácido úrico, são os mais predominantes a nível renal\urinário) que devido à diminuição do volume de líquidos ao passar no rim, pode formar cristais dessa substância. Por comparação, imagine que quer fazer caramelo em casa, adicionar açúcar à agua que está a ferver vai gerar uma maior concentração do açúcar devido á evaporação da água e se não tiver cuidado pode mesmo criar um cristal de açúcar, a menos que seja uma avozinha que goste de dar muitos rebuçados aos netinhos! Sendo assim, sorte dos netinhos e não se esqueça de reforçar a importância da lavagem dos dentes! Mais vale prevenir um raspanete dos filhos por excessos com os netos, não é verdade? Adiante…. “Pedra”; “Cálculos” (apesar da palavra ter conotação matemática, a origem vem do latim “calculus”, que resultava num conjunto de seixos pequenos que tinham como intuito fazer contagens ou estimativas entre comerciantes e posteriormente foi adotada como método pedagógico para ensinar crianças a contar. “Calx”, significa pedra calcária), “Litíase”, são termos cujo o significado é semelhante, mas que apenas expostos aquando um sintoma: DOR!!! Mas não uma dor qualquer, há quem refere ser a “pior dor alguma vez sentida na vida”, mas ter algo que provoca uma obstrução de um canal\ tubo dentro do nosso organismo provoca sempre um desconforto associado a náuseas, febre e dor! Mais especificamente, quando a “pedra” se localiza no rim (se tiver azar pode ter nos dois rins, e se for um azarado em dobro, lamento o seu futuro sofrimento!) e há uma mudança na sua posição (movimento brusco; aumento de volume urinário, ou apenas surgiu o momento!) a “pedra” segue um trajeto até à bexiga através dos ureteres (canais que transportam a urina entre o rim e a bexiga). Normalmente quando as “pedras” tem 5 a 7 ml de diâmetro passam pelo ureter e pelo sistema urinário inferior (bexiga + uretra\ canal que liga a bexiga e zona exterior do corpo onde a urina será expelida) sem qualquer sintoma…Bem não acredito que alguém não sinta um pedaço sólido, mesmo pequeno, a sair durante a micção, mas com a azáfama do dia à dia é natural que passe despercebido! Assim como aquela “dorzita” nas costas e à má disposição é relegada a uma refeição indigesta ou um stress inusitado, porque quem trabalha não tem tempo para ir incomodar o “sô dôtor” com estas mazelas! Pois, não se acomode a esta ideia de “incomodar” quem tem por oficio vigiar e estudar a sua saúde antes que venha a doença! E aconselho vivamente a verificar se a urina tem cor avermelhada ou escura. Aliás qualquer especialista na área de urologia ou nefrologista (os dois observam o sistema urinário, mas o primeiro utiliza técnicas cirúrgicas mais invasivas o segundo utiliza técnicas terapêuticas. No caso de litíase renal ambos deviam de estar em cooperação para recuperação do lesado), recomendar que deve recuperar a “pedra” ao urinar para avaliar a composição da mesma para ter um tratamento mais adequado. Sim, caro leitor, quando urina deve ter um recipiente para coletar a urina e um coador ou filtro. Parece arcaico, parece grotesco, mas é a única forma de diagnosticar corretamente o teor da formação dos seus cálculos renais. E deve guarda-los em frasco seco para análise bioquímica. Exibir à vizinhança mais curiosa pode ser outro dos motivos, mas se o fizer, que seja de forma didática, caso contrário pode correr o risco de ser mal interpretado!
Pode e deve investir a ingerir mais água, sumo de laranja ou maçã natural, e deve moderar o consumo de alimentos ricos em sal (charcutaria, tem aquele cheirinho agradável de carne fumada e… salgada! Evite ou sujeita-se!); derivados do leite também são para moderar… Cerca de 80% das “pedras” do rim são de cálcio, no entanto privar o organismo deste nutriente acarreta riscos do foro ósseo, cardíacos e musculares. Dê preferência a lacticínios com pouco teor de gordura, como o iogurte e queijo.
Isto porque a outra percentagem de “pedras” renais são resultado de consumo excessivo de proteínas. Ora se já consome muita proteína animal (porco, pato, frango) ou consome com frequência peixes gordos (atum, salmão) ou adora marisco com a cerveja, vinho, bebida gaseificada (colas entre outros), pode ter uma “pedra” por excesso de ácido úrico! Ou ainda pior, ter uma “pedra” com os 2 componentes! Claro que deve sempre falar com o seu médico, farmacêutico, enfermeiro ou outro profissional de saúde da sua confiança para esclarecer dúvidas!
Estamos a entrar numa época, que segundo a religião cristã, deverá ser reflexão, reconciliação e purificação, de fato a Quaresma reforça a restrição alimentar …Sem querer ofender quem professa outra religião, mas quem não deseja “pedras” raras dentro de si deverá seguir as orientações da Quaresma de forma rigorosa quer por questões espirituais ou físicas! Que as pedras estejam incrustadas fora do corpo, para que alguém as irá apreciar!

SANFONINAS

dr. jose
Os brancos e os pretos
Lembro-me como se fora hoje: sempre que acontecia estarmos por perto de um garoto ou garota de cor, meu pai punha-se de voz infantil e imitava o diálogo:
– Ó mãe! O branco chama-me preto!
– Pois chama-lhe tu branco!
– Mas o branco não se rala!…
E ríamo-nos!
O certo é que a mensagem ficou e agora dela me lembro, quando a questão do racismo voltou à baila. Uma educação singela, sem alardes, sem filosofias por detrás, mas eficiente para o dia-a-dia.
Uma das colecções de cromos que mais me marcou na meninice foi a das Raças Humanas. Sei que fiz muita questão em a completar e guardei a caderneta durante muitos anos. Deve ter desaparecido numa qualquer mudança ou entreguei-a a algum dos filhotes; o certo é que dela me recordo muito bem. E como eu me deliciava a ver aquela enorme diversidade de trajos, costumes, caras, enfeites!…
Um dos cromos ficou na minha memória para sempre: o do indígena de uma tribo africana que pusera um prato nos lábios. A confusão que aquilo me causou! Era um ritual de lá, explicaram-me, e eu compreendi, porque cada terra tem seu uso! Fui agora pesquisar na Internet e identifiquei: é a etnia mursi, do Sudoeste da Etiópia. Havia um outro que me deslumbrava, mas por outro motivo; creio que mostrava uma indígena da Samoa, não garanto; cativava-me pela serenidade e pela beleza; apaixonei-me por aquela imagem!
Perdoar-se-me-á se vejo toda esta questão apenas pela aparência. Achei piada – passe a publicidade – ao anúncio da united colours of benetton que mostrava jovens de todas as cores. Fiquei encantado quando fui pela primeira vez a Londres e deparei, na rua, com todos aqueles trajos indianos, africanos, árabes… um caleidoscópio digno de se ver! Cometo, porventura, um erro, mas tenho ideia de que, num dos seus romances, Eça de Queiroz também acha ‘folclórico’ (certamente a palavra era outra) ver pelas ruas de Lisboa frades, freiras, sacerdotes vestidos segundo a sua praxe. Nada tem a ver com racismo, bem no sei; contudo, estamos irmanados num hino à diversidade, em que o que deve contar não é o exterior mas sim a competência, a dignidade. Insiste-se muito na diversidade vegetal e animal e pugna-se pela preservação da identidade – uma identidade que é local, diversa da do nosso vizinho do lado.

IMAGINANDO

francisco cabral
PARTE 73
Sigurd-O Viking   (Parte 1)
Por ser um tema talvez desconhecido para uma maioria e da autoria de Miguel Boim “O Caminheiro de Sintra”, vou transcrever na íntegra e em três fases, a História de Sigurd, o Viking e o relacionamento com a Vila de Sintra.
Embora possa causar impressão de que mito é – no seu sentido de exagero – ao invés de lendário relato histórico, um dos flagelos do Norte, de nome Sigurd e Viking de gélido sangue em cortante espada, descendo pelo Oceano Atlântico entrou um dia em Sintra.
Advindo de relatos nórdicos, os quais felizmente existem num elevado número quando culturas comparadas, foi relembrada a sua passagem por Sintra, dentro do  Artigo “Sintra no Século XII – Uma Tomada da Vila em 1107” por Oliveira Boléo de 1941.
Excedente talvez nos factos históricos que rodearam a passagem do Viking Sigurd por Sintra, permite que se obtenha um belo e estranho quadro, em que várias culturas se cruzam em cegas crenças e desejos de divina glória:
As palavras de Urbano II, em Clermont Ferrand, ecoaram por todo o mundo cristão, e o clamor para a libertaçãp dos Lugares Santos despertara um frémito de entusiasmo, que breve se traduziu numa série de Cruzadas contra os turcos seldjucidas.
A este movimento geral de Cristandade não ficaram alheios os reinos mais setentrionais da velha Europa.
Ingon, rei da Suécia, encorajou os seus súbditos, e a própria Rainha empreendeu uma peregrinação a Jerusalém.
Mil e Quinhentos Dinamarqueses, comandados pelo Príncipe Suenon, reuniram-se às hostes de Godofredo de Bouillon, e sabem morrer junto aos muros de Niceia, como o prova o belo episódio de Torquato Tasso, em “Jerusalém Libertada”, relativo ao fim trágico de Suenon.
Eric, o Bom, Rei da Dinamarca, organiza uma expedição à Terra Santa, e encontra a morte, em 1103, na Ilha de Chipre.
O Grande vassalo do Rei Magno III, da Noruega, Skopte Augmundson, cerca de 1100, equipa cinco navios, e costeando as raias marítimas da França e Espanha, entra no mediterrâneo e vem morrer a Roma. Porém, os seus três filhos continuam a expedição e não mais regressam à Mãe Pátria. Contudo, alguns combatentes e peregrinos voltam à Noruega, e os seus carregamentos de relíquias e de riquezas excitam a devoção e também a cupidez.
Organiza-se então uma grande cruzada de 10.000 noruegueses e alguns suecos e dinamarqueses, chefiada pelo próprio Rei Sigurd, filho de Magno III, soberano jovem, valente e ávido de renome.
Esta cruzada, que partiu da Escandinávia em 1107, merecia um lugar destacado entre as várias expedições a Terra Santa. É, no entanto, pouco conhecida, e daí trazê-la a lume, tanto mais que, para a história de Sintra, tem uma importância especial.
Continua
fjcabral44@sapo.pt 

PEDRAS PARIDEIRAS

juiz
Já tinha ouvido falar, há muito tempo, acerca das pedras parideiras, mas nunca tinha alcançado uma explicação que me elucidasse minimamente acerca do fenómeno. Por isso aderi, com muito agrado, a uma viagem para a região de Arouca, organizada pela Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra em Lisboa, que tinha, entre outras, também a finalidade de observar tais pedras.
Na zona de Arouca, nas imediações do lugar de Castanheira, em plena Serra da Freita, existe um afloramento granítico com cerca de um quilómetro quadrado de extensão. Trata-se de um “fenómeno de granitização”, único no País e raríssimo em todo o Mundo. Supõe-se que este fenómeno geológico só se verifica em Portugal e na Rússia, numa zona próxima de São Petersburgo.
Na pedra mãe, que data de há mais de 300 milhões de anos, estão incrustados pequenos “nódulos” em forma de discos com um tamanho que varia entre 2 e 12 centímetros de diâmetro. Estes nódulos são libertados da rocha mãe devido às oscilações térmicas, nomeadamente à água que se aloja entre o granito e o nódulo, a qual, quando congelada, ao aumentar de volume, produz o efeito de uma cunha, e também devido aos efeitos da erosão. Na rocha mãe fica, como é natural, uma cavidade que marca o sítio onde ocorreu o “parto” e os nódulos espalham-se pelo chão. Os habitantes da aldeia de Castanheira chamam-lhe as pedras parideiras, por parecer que o afloramento granítico chega a “parir” pedras mais pequenas, como se fossem verdadeiros seres vivos. Na tradição ancestral da região, estes nódulos simbolizam fertilidade e, por isso, as mulheres da região, desejosas de ter um filho, chegam a colocar debaixo da almofada da cama onde dormem os nódulos saídos do granito com a esperança de poderem aumentar a fertilidade.
Já os povos que ali viveram na Idade do Bronze olhavam o fenómeno com muita curiosidade e parece que se contam a esse respeito inúmeras histórias.
Em Novembro de 2012 foi criada no Geoparque de Arouca a Casa das Pedras Parideiras, que é um centro de interpretação/núcleo museológico dedicado à elucidação desta ocorrência geológica existente na Serra da Freita. A Casa das Pedras Parideiras tem por objetivo contribuir para a conservação, compreensão e valorização deste importante património geológico, apoiando as visitas turísticas. Possui no espaço para a receção dos visitantes, uma loja onde se vendem produtos locais e um auditório onde é possível visionar um filme 3D “Pedras Parideiras: um tesouro geológico”, em que “alguns dos protagonistas são habitantes da aldeia de Castanheira”.
Acrescentarei, a propósito que, além das pedras parideiras, o visitante pode tomar conhecimento acerca das trilobites gigantes de Canelas (classe de artrópodes marinhos, com mais de 4.000 espécies fósseis da era Paleozoica) e dos icnofósseis do Vale do Paiva.
No exterior existe uma mostra a céu aberto. As pessoas podem ter contacto com a formação granítica, através de um percurso pedonal em madeira, que oferece também “uma visão ampla da magnífica paisagem envolvente”.
Geralmente pedem às pessoas que não se apropriem dos nódulos que saíram da pedra mãe para que seja possível mostrá-los aos futuros visitantes.