REFLEXÕES

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Protecção animal em Mangualde
Estórias que não devem cair no esquecimento
A quem porventura acompanhe os meus escritos, lembrarei a referência que no anterior fiz a um jovem casal que revelava a sua preocupação perante o sofrimento de inúmeros animais mercê da falta de formação dos humanos que sobre eles exercem poder. Pois estes jovens viviam em Viseu e tenho autorização para os identificar e nomear como primeiros cidadãos verdadeiros protectores dos animais que conheci por terras da Beira. Eram, a jovem senhora Engenheira Maria José Aragão e o marido Dr. Rui Sacadura, ao tempo técnicos superiores do Hospital de Viseu. Por coincidência, a Senhora era filha do primeiro médico veterinário que encontrei naquela cidade para cuidar dos meus animais, Dr. Aragão.
Estes jovens habitavam uma vivenda em Ranhados com algum espaço e dependências que lhes permitiam albergar cães e gatos que por lá andavam abandonados, muitos deles em estado físico miserável. Quando vinham a Mangualde e nos encontrávamos as nossas conversas versavam invariavelmente a Arqueologia e os animais. Duas áreas que nos motivavam a Amizade. Passou-se isto a meio da década de 80 quando fizeram uma visita aos primeiros trabalhos de escavação nos campos da Raposeira e souberam da estória dos dois infelizes cachorros presos e abandonados pelos donos por várias semanas. Lembro também alguns conselhos preciosos que a minha Amiga me transmitiu acerca de tratamentos básicos a alguns problemas físicos dos animais. Como o seu pai era veterinário sempre lhe dava algumas informações que se tornavam muito úteis quando a escassez de médicos veterinários era evidente. Ao tempo a sarna era o flagelo dos cães provocada pela proliferação de pulgas e também carraças para as quais os donos não encontravam ou não procuravam solução. A maioria acabava por morrer em sofrimento atroz, pelados e com o corpo corroído por feridas profundas. Quando os donos os deixavam atingir este estado o que pretendiam era verem – se livres deles. Em vez de terem procurado a cura a devido tempo, agora procuravam levá-los para lugar ermo e abandoná-los à sua morte horrorosa. Lembro-me que um dia no Largo da Carvalha vimos uma cadelita num terrível estado físico. A eng Mª José Aragão disse-me “ por favor tente apanhá-la e proceda assim…” e eu consegui com muita paciência pegá-la, levei-a para minha casa. Tratei-a como me indicou e passadas três semanas a pequenota já nem parecia a mesma! Tornou-se num lindo e dedicado animal. A partir daqui não tem conto o número de animais a quem consegui devolver a saúde… São lembranças que guardo com muita saudade e carinho.
Mas dizia eu que este simpático casal passou parte do seu tempo a recolher e a recuperar todos os animais que podiam na cidade de Viseu. Contudo perante a situação calamitosa ocorreu-lhe formar uma associação a que deram o nome “ Cantinho dos Animais Abandonados de Viseu”. Passou-se isto nos primeiros anos de 1990.
Como acontece a cada passo, a sua visão do desempenho duma organização deste tipo, não coincidia provavelmente com a de outros elementos dos Corpos Sociais. Perante as insanáveis dissidências eles preferiram afastar-se profundamente desgostosos e desiludidos.
Resolveram dar novo rumo à sua vida sem desistir dos seus ideais. A sua única filha vivia em Londres então tomaram uma decisão drástica, deixar tudo no País e ir viver para as proximidades daquela cidade. Tinham contudo o grande compromisso com os protegidos que viviam em sua casa e aos seus cuidados – cerca de 20 cães e vários gatos.Teriam de levá-los consigo. Em Inglaterra criaram condições para os albergarem e aqui procederam a todas as exigências sanitárias e registos para que pudessem entrar naquele país. Alugaram uma rulote para o seu transporte e assim se instalaram, todos, próximo de Londres, onde viveram por vários anos, o tempo de vida até o seu ultimo protegido partir deste mundo.
Se resolvi contar estes factos verídicos é porque entendo que há vidas e gestos que devem ser conhecidos ou relembrados. Quando alguém dedica grande parte da sua existência e dos seus proventos a uma causa nobre, o mundo deve-lhe o reconhecimento. E esta é a HOMENAGEM que eu posso e quero deixar pública a este incrível casal e meus grandes Amigos – Eng. Maria José Aragão e Dr. Rui Sacadura.
Dezembro 2018