REFLEXÕES

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PROTECÇÃO ANIMAL EM MANGUALDE
Episódios
Situando-me de novo na minha terra revivo na memória um incontável número de factos em que os animais e as suas desgraças eram protagonistas. Referi na última crónica o primeiro cãozinho que abriguei em Coimbra em finais da década de 70 – o Niky – o qual passou a acompanhar-me todos os fins – de- semana que me deslocava a Mangualde. Mas entretanto já tinha na casa paterna, a Luna – uma cadelinha de porte muito pequeno que andava a deambular anos antes, no Rossio. Quando a recolhi já estava prenhe. Passaram-se semanas e parecendo ter chegado o momento do parto preparei-lhe de novo a sua caminha. Em princípio seria essa noite… antes de me recolher fui vê-la, ainda estava bem. Cerca das oito horas da manhã voltei para verificar a situação. Entrei em pânico. Vi dois cachorrinhos mortos e a cadela sem reacção com um a nascer de patas! … Mas não nascia. Não sabia há quantas horas estaria sem contracções… e também não sabia que os filhotes não deviam nascer naquela posição. Aflita, pensando que ajudava puxei pelas patinhas, ouvi um estalido, não saía ! Fiquei bloqueada …que fazer? A quem poderia pedir ajuda? Veterinários aonde?! Lembrei-me de um empregado da fábrica ali ao lado, que criava animais nos tempos livres. Será que me poderia ajudar? Fui lesta e descrevi a situação. Acalmou-me …vamos lá a ver, na minha vida de agricultor já salvei muitos bezerros, cabritos, borregos… e as mães. Quando chegamos junto da cadelinha estava quase inerte…. Depressa, traga-me azeite numa tigelinha (!!). Azeite ?! Sim, azeite…
Fui rápida. Ajoelhado junto ao animal ele molhava os dedos no azeite e besuntava as patitas e a parte traseira do cachorrinho e ia puxando com cuidado…fez isto várias vezes e o corpo assim amaciado ia deslizando, ia saindo ! Eu nem conseguia falar. Não sei quanto tempo demorámos, mas de repente…pronto, já está fora !! Também morto, é evidente. Chorei de emoção…e a cadelinha? Massajou-a, começou a recuperar e passado algum tempo ficou finalmente descontraída, mas ainda não estava tudo resolvido. Continuou em trabalho de parto e agora sim, nascia outro cachorrinho normalmente… o único vivo, por felicidade, para poder aliviar a mãe na produção do leite.
Ao recordar este insólito acontecimento ainda me espanto com o poder da sabedoria popular. Sabedoria que os nossos antepassados foram acumulando e transmitindo de gerações em gerações. E foi graças à sabedoria deste agricultor que esta cadela e o seu filhote viveram os anos das suas vidas, felizes, convenientemente cuidados e acarinhados.
Talvez estranhem a descrição deste episódio situando-nos nos dias de hoje em que os recursos estão todos a dois passos. Foi mais um das centenas que se foram desenrolando ao longo de quatro décadas (alguns dos quais irão ser relatados para que conste), numa época em que a expressão protectora de animais soava a “maluquinha dos bichos”. Não seria caso único no País, com certeza, mas a verdade é que só na última década a protecção ganhou força e expansão, para o Bem e para o Mal, já que para além do bom que se tem feito, há pelo País fora factos e situações que devem ser investigados. Há comportamentos humanos verdadeiramente desastrosos em que os pobres animais são os protagonistas e as infelizes vítimas.
Janeiro 2019