Pedro Santana Lopes Um acto de justiça

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É uma longa história este acto de justiça.
Vou ter de contar a história de uma das maiores figuras que marcou a consciência do Sec. XX na vida portuguesa. Já em artigo anterior me referi a ele, por ter sido um grande e saudoso amigo. E comungo o que o Grande Alexandre Herculano escreveu : – “ o mister de recordar o passado é uma espécie de magistratura moral – uma espécie de sacerdócio. Exercitem-no os que podem e sabem porque, não o fazer, é um crime …”. Começou como jornalista em jornais nacionais e revistas. Artigos e criticas sobre teatro e cinema. De seguida passou para o cinema e foi o cineasta oficial do Estado Novo, mais por ser novo do que ser Estado. A revolução cultural do Sec. XX era o cinema, a “arte do movimento”.
Refiro-me ao cineasta, escritor, poeta, jornalista, apresentador e produtor de televisão, António Lopes Ribeiro. Nasce em 16 de Abril de 1908. Entusiasma-se pelo cinema e procura na Europa os maiores da nova arte. Orgulhava-se de ter atingido a maior idade em Moscovo onde conviveu com Eisenstein e Vortov, os grandes do cinema os mestres da nova imagem.
Regressado a Portugal segue com a sua câmara a política do Estado Novo. Um número impressionante de filmes – “ A Revolução do 28 de Maio”, “ O Feitiço do Império” e muitos, muitos outros.
Seguem-se outros filmes com os maiores actores portugueses que ainda hoje fazem as delícias de muita gente ( O Pai Tirano, A Vizinha do Lado, O Pátio das Cantigas ) etc. , etc. Só para mencionar alguns.
António Lopes Ribeiro representa 50 anos do cinema português.
Com o 25 de Abril, António Lopes Ribeiro é posto de parte. Perde os amigos, que são presos ou fogem para o Brasil e o pior de tudo perde o seu trabalho, a sua fonte de receita.
Recordo que um dia, telefona-me de Lisboa, estava eu em Fagilde, na minha casa e diz-me :- Sabes António, estou no zero absoluto !…
E é aqui que entra Pedro Santana Lopes. Nasceu em 1956. Desde novo se meteu na política. Foi muitas coisas, mas no Governo começou por ser Adjunto de Ministro, Assessor Jurídico de Sá Carneiro, Secretário de Estado da Presidência de Conselho de Ministros e em 1990 Secretário de Estado da Cultura. E é como Secretário de Estado da Cultura, que pratica o maior acto de justiça. Atribui a António Lopes Ribeiro uma pensão de Cem Mil escudos, que vai receber até à sua morte, aos 87 anos, no ano de 1995.
Foi uma honra, um privilégio, uma sorte, conviver, ser amigo do António Lopes Ribeiro, que carinhosamente tratava por António. Hoje e daqui, em nome do António, um grande Bem Haja ao Pedro Santana Lopes. Que Deus lhe pague.
Em 1983, ainda em sua vida a Cinemateca Portuguesa, dedicou-lhe um livro, grande livro em tamanho e páginas – 432. Aí está toda a sua obra.
O saudoso António, teve a amabilidade de me oferecer um exemplar que guardo como relíquia. Porém, antes teve o cuidado de corrigir algumas gralhas a caneta de tinta permanente. E pôs a seguinte dedicatória : – “ Para o António José Fortes, companheiro incansável de jornada, em louvor da sua imaginação quase cinematográfica “.
E, na página 55, no 10.º episódio – Jornalismo e Publicidade escreveu : – “ Também tenho colaborado muito gostosamente nas múltiplas iniciativas congéneres doutro bom amigo : António José Fortes, proprietário da empresa portuense “ The Portuguese Exporter”. Com ele organizei exposições a bordo de navios, que foram aos Estados Unidos, a Angola, à Europa do Norte . E a famosa “Carruagem Branca” cedida pela C.P., que percorreu todo o País e toda a Espanha com exposições itinerantes com produtos nacionais ou de promoção turística, forma publicitária inédita que atraía milhares de visitantes nas estações ferroviárias onde se detinha”.
De ti, António, a única coisa que tenho, são saudades.