HISTÓRIA DO MEMORIAL DE UMA ALDEIA

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A RÁDIO DOS MEUS PAIS E AVÓS
Locutores de vozes timbradas que voavam no vento entre a leveza do ar mas de rostos indefinidos, imaginados ao sonho das nossas vivências, que ainda hoje ecoam como seres espirituais, imaginários, mas que existiram na verdade como existem as urzes de um monte solitário e a estrela da manhã, que não morrem, que são eternamente guardadas no baú das recordações:
— “Caros ouvintes estamos diariamente nas vossas casas e na vossa companhia, transmitindo em ondas curtas, longas e frequência modulada para todo o continente e ilhas”.
Os ouvintes ansiavam pela hora da transmissão dos seus programas preferidos. E vejo ainda minha avó atarefada desde o corar do dia, e à noite antes de se ajoelhar ante uma cruz de Cristo, pacientemente olhando a noite, esperava pelo “romance“ da Rádio Renascença. E em breve trecho a primeira lágrima cintila, e desliza lenta pelo seu rosto enrugado, melancólico, triste suportando o peso molhado do seu olhar e enleada pelo enredo do “Simplesmente Maria“ que despontava amores épicos e sofrimentos desmedidos, onde o sonho e o amor eram tão reais, que ás vezes nos pareciam tangíveis e palpáveis. E ao som dos moderníssimos rádios de válvulas e a pilhas, em pleno Verão depois do dia de suster uma enxada, que é matéria, peso bruto e lágrimas de dor, pelo fresco e no silencio da noite iluminada por estrelas cintilantes o rádio era colocado no parapeito de uma janela virada para a rua e á sua volta no largo as pessoas se acanhavam para ouvir um bom programa de “discos pedidos”, uma aposta bem conseguida da Rádio Altitude da Guarda:
— Está?….
— Estou sim boa noite…
— Posso dizer a frase?…
— Pode sim querido ouvinte….
(após repetir a frase certa que fazia a propaganda de qualquer produto ou empresa patrocinadoras, vinha a repetida pergunta)
— Que disco quer ouvir?…
— “O resineiro” da Tonicha ou “Ó tempo volta pra trás” do António Mourão ou simplesmente do António Calvário “Oração”, ou ainda Alberto Ribeiro em “O marco do correio”.
Seguiam-se as notícias da noite na Emissora Nacional com a habitual crónica do seu correspondente em Luanda sobre a guerra colonial:
— Aqui Luanda fala Ferreira da Costa
(Olha, “Aquilo Anda” e repetia-se á boca pequena não fossem as paredes ter ouvidos):
— (Os nossos bravos soldados travaram a investida de tropas rebeldes na zona de Moeda defendendo heroicamente o nosso território, não tendo sofrido qualquer baixa).
A voz representativa, determina identidades. O bem e o mal recebem corpos moldados pelo tom vocal do locutor e por todos os sons, lembrando que a música também fixa a narração oral. Transmite-se batalha á guisa de um jogo instalando oposição entre personagens ou situações diversas. Mas a rádio estava na moda e todos os dias a Rádio Renascença nos despertava com um programa musical “despertar“. E o Rádio Clube Português nos presenteava com um programa de acção e suspense “Graça com todos“. Com voz profunda como arrancada das profundidades de uma caverna o locutor anunciava: — Episódio 99… e agora os fabulosos inspectores “Patilhas e Ventoinha“ irão desvendar o assombroso mistério do “roubo do ouro do tesouro Nacional“.
E a saga radiofónica continua aos domingos nas tabernas atrás de um copo de vinho quando os fãs clubistas escutavam com ares ansiosos as vibrações dos jogos de futebol ou de hóquei em patins. Portugal alinha com Ramalhete, Casimiro, Vaz Guedes, Cristiano, Leonel, Livramento. Eram exaltados, idolatrados por mais uma conquista do campeonato Europeu ou do Mundo. Estas vozes de rostos invisíveis despertavam-nos os mais variados sentimentos, alegrias imensas ou tristezas profundas e os seus discursos de amor nos uniam ou de ódio nos separavam.