MEMÓRIAS DE UM TEMPO SEM TEMPO

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SOPAS DE CAVALO CANSADO
Trabalhadores do campo, mourejando de sol a sol num infinito azul, remoendo infâncias já duras de trabalho, que por carências de sobrevivência eram forçados á labuta no campo, diariamente vendo nascer a aurora num gesto distraído, ora abandonaram prematuramente a escola ou nem sequer a frequentaram, ou deram grandes caminhadas para aprender a ler e a escrever. Na vida dura, duríssima, felizmente pretérita alimentavam-se na sua grande maioria de vinho, como uma almofada caridosa que lhes amortecia a dor. Antigamente as sopas de cavalo cansado ao pequeno almoço eram hábito comum. Era uma espécie de fortificante bem conhecido e usual dos nossos avós. Muitas vezes pela manhã, antes de encarar o trabalho desfaziam em pedaços o pão velho numa bacia ou malga, embebiam-no com vinho tinto, acrescentavam açúcar amarelo e comiam com prazer. Nas suas faces viam-se as lindas cores aflorar. Assim ganhavam forças para enfrentar um dia duro de trabalho. Tendo como únicas forças motrizes, os bois, os cavalos ou as mulas para puxar arados, debulhadoras e outras alfaias agrícolas que necessitavam de tracção animal, quando estes extenuados pelo calor e longas horas de trabalho, espumando pelas ventas e exalando do seu corpo uma fragância de suor fumegante, necessitavam de refrescar e retemperar energias, era-lhes fornecida uma ração de pão embebido em vinho com açúcar. Os trabalhadores rurais que nas suas jornas labutavam arduamente vencendo as agruras do tempo com lágrimas nos olhos empunhando uma enxada, a meio da manhã á piqueta, quando o sol já aquecia libertando aquelas ilusórias labaredas flamejantes que lhes aquecia o sangue nas veias, procuravam uma sombra fresca, colocavam no chão em cima de uma tosca manta de farrapos um alguidar em barro vermelho com o pão de centeio recesso, porque desperdiçar era pecado, cozido na semana anterior vinho e açúcar amarelo, alguma água fresca do poço, mexia-se e toca a comer. Como era refrescante!!!!… Retemperador de novas forças para o resto da jornada para estes corpos condenados á dor. Os tempos eram outros e na época em que as viagens eram feitas em carruagens nas aldeias de Portugal, e as estações de muda não tinham cavalos descansados para substituir e prossegui a viagem era dada aos animais esta sopa com pão vinho e açúcar para os refrescar e retemperar de energias. Sopas de cavalo cansado eram realmente um tónico repositor de energias naturais. Nos tempos de hoje proliferam os complementos, os suplementos, revitalizadores, tónicos, fortificantes, elixires e que mais como húmus onde sugas fortaleza mas impregnados de ais que abalam a alma humana e nos marcam indelevelmente como ferro em brasa.

Corrigenda: No texto deste nosso colaborador publicado na última edição, por lapso informático, onde se lê “… estrada ladeada de matagais onde de ternura os pinheiros”, deve ler-se “… estrada ladeada de matagais onde de ternura os pinheiros choram.”