SANFONINAS

dr. jose
As pègadas
De pègada hoje se fala muito. Ele são as pègadas dos dinossáurios indelevelmente gravadas na rocha. Ele são as pègadas dos animais sabiamente procuradas na selva pelos especialistas que zelam pela conservação das espécies. E – claro! – a tal «pegada ecológica», definida como (imagine-se!) «a quantidade de terra e água que seria necessária para sustentar as gerações actuais, tendo em conta todos os recursos materiais e energéticos, gastos por uma determinada população».
E a pègada que cada um de nós deixa e que todos desejamos seja boa. Como aquele desejo de um autor religioso: «Que a tua vida não seja uma vida estéril. Deixa rasto». Ou, como escreveu o imortal Antonio Machado,
Al andar se hace camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Recorda-se, porém, inexoravelmente, a eterna «Balada da Neve» de Augusto Gil:
«E noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
Duns pezitos de criança…
E descalcinhos, doridos…
A neve deixa ainda vê-los,
primeiro bem definidos
Depois em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!…
Ilustração para 15 de Junho

Estanquei na silenciosa serenidade da manhã. Apenas esparso assobio de melro pela encosta. Domingo. O parque, vazio. Viera ali passear com o «Spike». No saibro fino, nítidos e lentos (imaginei!) os rodados das viaturas. Uns por cima dos outros, num atropelo. Havia, no entanto, pègadas que particularmente me chamaram a atenção. De pombos ou, mui provavelmente, dos casais de rolas que amiúde se viam por ali. Nítidas também, muito nítidas. E lentas. Em passeio. Primeiro, afastadas; depois, como quem se enamora e vai encontrar-se…
Na brandura da manhã, dei comigo a pensar, olhando o chão, na terna lição daquele casal. Eles pisaram os rastos dos automóveis, eles deixaram tranquila marca da sua presença…