VIVER É RECORDAR

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A BOINA Á ESPANHOLA
É sempre bom recordar as coisa antigas e marcantes, objectos que nos tocam. Pedaços de vida que julgamos apenas nossos mas que partilhados nos ressuscitam tanta alegria. É a boina basca ou melhor conhecida por boina á espanhola. Usava-se muito no norte de Portugal no início do século XX , mas com mais regularidade por volta dos anos 60, altura do maior surto migratório. A boina era adereço relevante dos “passadores” espanhóis bascos que a usavam para conduzirem os “engajados“ portugueses pelas íngremes veredas dos Pirineus “a salto“ para França na busca de uma vida melhor. Quando não conseguiam “o salto“, ou passados alguns anos regressavam á origem, ás suas santas terrinhas, ao seu ninho de aconchego, usavam-na como um reconhecimento da bravura dos seus guias, tornando-se mais tarde ainda uma componente da sua própria identidade. Os tempos evoluem e a moda não deixa passar os seus próprios momentos: tornam-na moda. A boina á espanhola, era preta com um espigo na coroa, forrada com seda ou tecido parecido. Como a grande maioria dos “passados “ eram trabalhadores rurais, agricultores que nas lidas da lavoura não a despregavam da cabeça, a não ser aos domingos e dias de festa em que imperava o chapéu. Os rapazes usavam-na como sedução das raparigas colocando-a tipo rufia, gingão. E quando as coisa azedavam, era um mau presságio quando a boina era posta ao lado, á malandro: adivinhava-se uma cena de pancadaria. Leve e cómoda além de ter um uso prático, servia muitas vezes de cesto quando “ ia á fruta“ a canalhada na sua irreverência. Quem não se lembra ouvir dizer “trouxe uma boina de figos, de cachos ou cerejas“. Calças de alças e peitilho, boina á espanhola cobrindo fortes guedelhas, fisgas (atiradeira) no bolso de trás, era imagem típica e singela dos nossos gaiatos, que corriam pelas ruas da aldeia atrás de uma argola ou de um arco de pneu, nas pausas da diversão do arremesso com as fisgas de pequenas pedras á passarada que esvoaçava temerosa da vil brincadeira. A boina á espanhola mais tarde virou adereço das senhoras da sociedade. Actualmente é usada pelos grupos culturais na tentativa de manter uma tradição, não sabendo bem a sua origem.

RECORDAÇÃO
Funeral-de-Adelaide-dos-Santos
Para ti minha mãe que partiste serena, em paz e com o coração cheio de amor, dedico-te este sentido poema de “Carlos Drumond de Andrade “ como uma recordação de eternidade:
Porque Deus permite
Que as mães se vão embora?
Mãe não tem limite,
É tempo sem hora,
Luz que não se apaga
Quando sopra o vento
E chuva desaba,
Veludo escondido
Na pele enrugada, água pura, ar puro,
Puro pensamento.
Morrer acontece
Como o que é breve e passa
Sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça é eternidade.
Porque Deus se lembra
— mistério profundo –
De tirá-la um dia.
Fosse eu Rei do Mundo,
Baixava uma lei:
Mãe não morre nunca
Mãe ficará sempre
Junto de seu filho
e ele velho embora
será pequenino,
feito grão de milho