MEMORIAL DE UMA ALDEIA ( 2ª PARTE )

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No Inverno gélido, quando uma camada branquinha e fina de geada, peneirada por seres angelicais em plena noite estrelada e de uma serenidade tranquila , ou mesmo quando a chuva caindo de mansinho nos telhados, ou o vento batendo, ora levemente, ora agressivo na ramagem das árvores, assobiando pelas quebradas dos vales, nos embala e prende mais á cama. Ainda escuro… acordávamos. Ouvíamos barulho… avançávamos para a janela de madeira carcomida pelo caruncho, deteriorada pelo sol e pelas intempéries, pé – ante – pé, de mansinho; arredávamos a cortina de pano de chita…. Clareava…. Ao longe, no horizonte, uma luz subtilíssima, quase invisível, dava os primeiros sinais do dia. Ficávamos extasiados ao contemplar aquela paisagem, ora adornada de um branco genuíno da geada, mais raras vezes de neve alvíssima, escondendo-se entre as nuvens e neblinas do cume dos montes.
Ainda, ao longe o verde das árvores, o castanho da terra, o azul do céu, o granito acinzentado das rochas , os caminhos de terra, que pareciam ao longo dos muros cobertos de um musgo castanho esverdeado.
Chegava o padeiro á aldeia. Parava em cada largo, ou encruzilhada, tocava a buzina, da sua velha bicicleta pasteleira, repetidas vezes num som estridente, agudo , penetrante, que ecoava através dos montes e dos vales, parecendo quererem dar uma resposta ao seu apelo. Encostava a “pederneira“ á esquina ou ao muro mais próximo, com os seus dois cestos de vime, um de cada lado do suporte traseiro, cheiinhos de pão, ainda quente e estaladiço, saído da última fornada da noite , quase ainda o forno a lenha não tinha arrefecido,… começava a venda do pão.
– Quantos quer hoje , freguesa? …
– Dois trigos de segunda e três papossecos…
– Um pão de centeio escuro…
– Uma broa de milho , baixinha , com pouca côdea… (gritava outra freguesa mais apressada).
E o padeiro, numa azáfama frenética ia distribuindo o pão, que era o pão nosso de cada dia, ganho com muito suor, e grandes padecimentos.
Mas não menos madrugadora já encontrávamos a leiteira. No seu porta-a-porta, com grande desenvoltura, movimentos precisos e rápidos, verte as medidas do leite nos recipientes pendurados nas grades, ou escondidos nos vãos das portas. Há muito sabe de cor as quantidades exactas de leite que cada família necessita. Não é muito, apenas o necessário para as crianças, pois os adultos quando se levantavam dejejuavam-se ou matabichavam com o seu copito de água ardente e figos secos, secos ao sol do Verão, e religiosamente guardados em bolsas de pano cozidas á mão, aproveitando o trapo que não tinha sido vendido. Tem que ser rápida, despachada para que a distribuição esteja feita a tempo e horas de os pais darem o pequeno almoço aos filhos, e cedinho irem a correr para o trabalho. Quando o dia já estava claro, e a manhã se encontrava avançada, mais tarde, muito mais tarde, rompia no largo principal da aldeia, com a sua carroça puxada por duas possantes mulas… o azeiteiro. As pessoas iam acorrendo, providenciando a mercearia, o azeite, o petróleo para os candeeiros, para toda a semana. Vinham os produtos ao encontro do consumidor e a um preço muito mais barato.
– Meça-me dois litros de “pitrol“ para os candeeiros e para a máquina (era usual áquela época a máquina a petróleo, em vez do tão conhecido fogão a gás ou eléctrico), dizia uma freguesa á qual a vida amarga e dura não dera a oportunidade de ir á escola
Uma outra ainda, com os pés ainda sujos da terra que viera de amanhar:
– Eu quero meia barra de sabão azul para o banho e cor de rosa para a roupa.
– Sobrou-me este troquito do pão…
– Avie-me meio quilo de açúcar amarelo e um quilo de chícharos … (fiado … não havia)
( Uma senhora…. mais assenhorada, roupa asseada tez branca e mãos cuidadas, pede num tom de voz mais delicado, com palavras sibiladas a carregar um pouco nos erres.
– Senhorr, faça o favor….. meça-me dois litrros de azeite – (pediu, estendendo-lhe uma trabalhada amoltolia em barro vidrado), um quilo de arroz, um de massa, uma peixota de bacalhau…
– Faça o favor de pagar (estendeu-lhe uma nota de cinquenta escudos ).
E a vida é um romance, composta de bons e maus momentos, feita de recordações e projectos, momentos únicos e inesquecíveis, que nos fazem voltar atrás, recordar… recordar e ter um memorial desses tempos. Tempos de ruralidades, de um modo de vida… agradavelmente saudável.