Bacalhau à lagareiro

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O bacalhau tornou-se num prato nacional! E os portugueses são mestre na sua confecção. Os turistas espanhóis, principalmente, vêm a Portugal para saborear este pitéu. Mais de cem maneiras de cozinhar bacalhau. E de todas é óptimo.
Na minha infância passada em Fagilde, recordo que acompanhado do Manuel Pina, encarregado das agriculturas lá de casa, ir à aldeia de Tabosa, onde existia nesse tempo um lagar, assistir à feitoria do azeite.
Partíamos como se fossemos fazer um pic-nic. Algumas batatas, cebolas e umas boas postas de bacalhau. Depois era aguardar pela hora do almoço, assar nas brasas da caldeira as citadas postas, cozer numa panela de ferro as batatas à racha (com pele), deitas tudo numa travessa de barro, umas rodelas de cebola e uma cobertura substancial do precioso líquido cor de ouro que escorria do lagar. Uma boa pinga do Dão e pronto, um manjar digno de reis, ou de deuses.
Na semana passada estando uns dias em Fagilde, resolvi ir a Tabosa recordar o saudoso lagar. Levei comigo o meu neto David, com sete anos, a quem procuro incutir o espírito da terra. A natureza, as tradições. Para ganhar amor às origens!
Há quanto tempo eu não visitava Tabosa, aqui mesmo ao lado! Foi uma surpresa. Tudo diferente para melhor. Estradas alcatroadas, casas novas e de boa construção, a contrastar com as antigas velhas casas, de granito, comidas pelo tempo, sem condições.
Recordo-me de uma velha taberna-mercearia propriedade do sr. Salazar. Fazia gala no nome Salazar. Nesse tempo António de Oliveira Salazar dirigia o país. E com muito respeito!…
Parei ao lado da capela, junto à ponte. Olhei para o rio , para o local onde imaginava estarem as ruinas do moinho e nada. A poucos metros um morador com a sua enxada fazia regos onde colocava pés de couve.
Inquiri: Boa tarde amigo. Então, a plantar couves? São couves para o Natal, respondeu. Sabe, eu em miúdo vinha aqui ao moinho de azeite. Já não existe?
Existe, só as paredes, está ali à frente. De facto sobre o rio, umas paredes, altas, em granito eram tudo o que restava do velho moinho.
O moinho estava em cima do rio e nesse tempo era movido pela força da água. Não se trata bem de um rio, mas de um pequeno riacho. Nasce na Serra da Senhora do Castelo, passa ao lado de Mangualde, toma o nome de Lavandeira, atravessa a aldeia da Roda, onde havia uma pequena ponte romana, muda de nome e chama-se rio da Roda, cruza a estrada nacional 16, chega a Tabosa, segue para o Convento de Maceira Dão, onde passa a ser designado Ribeira dos Frades e desagua no Rio Dão.
Um rio que só existe quando os invernos são fortes e seca no Verão. Porém, nesta minha deslocação a Tabosa, olhei para o leito do rio e corria água. Amigo, este ano o rio não secou! Ainda leva água! Pois leva, mas é dos esgotos das casas. Parece que vão construir uma Etar aí abaixo. De facto a água era escura, mas abundante. E temos aqui uma caso de poluição. Como existem outros a descarregar no rio Dão! E pior, na Barragem de Fagilde, que abastece de água centenas de milhar de pessoas, três concelhos! Não neste caso, pois desagua mais á frente. Mas na da Aguieira!
Quando pensei em visitar o lagar, não era só para matar saudades. Pensei e penso que era possível reconstruir o velho lagar. Talvez como um museu. Para ser visitados pelos jovens, para saber como se fazem as coisas. Mais tarde corremos o risco de perguntar a um miúdo donde vem o azeite e ele responder: do Supermercado. Como o frango!…