A EXTREMA BONDADE DE: D. JOÃO DA CAMARA

Humberto Pinho da Silva
Pedro Pinto, escreveu, in “ O Occidente”, em 10-01-1908,: “ D. João da Camara era a bondade em pessoa, e apesar de ser consagrado (dramaturgo,) descendente (…) da mais nobre estirpe (…), era dotado de uma modéstia de traje e de maneiras, que a todos encantava, granjeando a estima e a veneração dos mais altos aos mais humildes.”
São várias as cenas comoventes, de extrema bondade, do ilustre escritor. Na “Ilustração Portuguesa” de 18/01/1908, Júlio Dantas, narra o caso enternecedor da velha pedinte, a quem deu todo o dinheiro, que possuía.
E Mário Castrim. Na “Audácia” de 2/2002, aborda, o modo carinhoso, como D. João da Camara, defendeu um amigo, que tinha sido preso, juntamente com ele.
Mas, o episódio mais comovedor – para mim, – foi o das “botas”, que Adriano Xavier Cordeiro, diretor do: “ Novo Almanaque das Lembranças”, conta na edição de 1909:
Um aluno fora convidado para apresentar-se em local seleto; mas, suas botas, velhas, cambadas e rotas, não eram indicadas para frequentar esse meio.
Aflito, não tendo recursos para adquirir sapatos novos, contou, acobardado, ao Mestre, a desdita.
Apiedou-se D. João da Camara, e disse-lhe, que fosse, pela manhã, a sua casa, buscar botas decentes.
Na manhã seguinte, não havia meio de D. João da Camara se levantar…
Preocupado, um dos filhos, foi ao quarto e perguntou-lhe, a razão de ainda estar deitado.
Respondeu-lhe, o pai, que não se preocupasse. Apenas queria repousar mais um pouco.
Como a demora fosse grande, e perante a insistência da família, terminou por confessar que emprestara as suas botas a um aluno.
Questionado, porque não lhe entregara as botas novas, que possuía, respondeu em voz sumida:
– “ Mas, filho!: apertam-me muito…Ele tem o meu pé! …”
Esta enternecedora cena, de extrema bondade de D. João da Camara, ilustra bem o carácter e a personalidade, deste ilustre escritor, candidato ao Nobel de Literatura de 1901.
D. João da Camara, autor de: “ Os Velhos”, é dos nossos melhores dramaturgos. Faleceu, em Lisboa, no ano de 1908. Era descendente do conhecido navegador português, que descobriu a ilha da Madeira – João Gonçalves Zarco.