Quando a Nata da Sociedade azeda….

Ana Cruz
Numa sociedade cada vez mais alicerçada no conceito social e na ideologia “Todos diferentes, todos iguais”, poderia ser considerado politicamente (in) correto um discurso que inclui o termo “Nata da Sociedade” por parte de um líder…. Afinal se todos somos importantes na diferença que detemos, porquê afirmar que a “nata” é melhor que o “leite”? A metáfora é até bem interessante porque qualquer pasteleiro\ cozinheiro\ dona de casa, enfim qualquer pessoa que lide com culinária, conhece bem a origem da nata…. Trata-se da porção de gordura do leite que permanece a flutuar quando o leite fresco está em repouso; passa por centrifugação ou fervura. Possivelmente os filhos da “Nata da Sociedade”, desconhecem este processo porque consideram que o “leite de pacote” já vem processado desta maneira desde a origem, mas felizmente os filhos dos pastores,- que não pertencem à mesma categoria dos anteriores – são mais esclarecidos e não dão respostas tipo “De onde vem o leite? Vem do supermercado!” em tom jocoso.
Perante este esclarecimento acerca deste subproduto do leite, podemos colocar esta indagação: Será que quando alguém se conota por pertencer á “Nata da Sociedade”, refere à questão da gordura (termo pejorativo para caraterizar alguém. Por exemplo “Olha vem aí o gorduroso, porque é da Nata da Sociedade…) ou a superioridade devido à qualidade de a nata estar a flutuar, elevar em cima do leite?
De fato, esta última elação será a mais adequada no discurso que assisti, porque a pessoa estava a agradecer a presença de indivíduos, de número restrito, que se destacavam neste sistema democrático que vivemos, ao atingirem estatuto e consequentemente elevação social. Foi evidente a valorização dos determinados elementos, que por serem diferenciados na sua formação académica (não se põe a questão do mérito….) e foram enaltecidos perante os restantes constituintes da plateia, que metaforicamente, seriam o “leite”!!!!
Ora, eu considero que apesar de a família ser a unidade da sociedade que constrói o individuo, a escola é um marco importantíssimo na sua formação pessoal, social e académica. Logo o conceito de “Todos diferentes, todos iguais”, perante este discurso, para mim passou para “Todos diferente, maaaas… nem todos iguais”. Ora regressando ao politicamente correto, que seria agradecer a presença voluntária e dedicada de todos, independentemente, da sua formação académica, origem ou estatuto financeiro, contribuindo para um maior envolvimento de todos e não apenas de alguns. Ter um líder humilde que se importa com a organização (reforço interno) e valoriza o todo, e não apenas o momento, cria pontes e ligações fortes entre a comunidade. Falar dos pontos fortes de quem é desfavorecido e quer vencer; enaltecer as pessoas fantásticas que estão na estrutura organizacional (devo dizer que uma dessas pessoas escreve para este jornal, e relata a história e hábitos antigos como ninguém… Seria um ótimo palestrante ou professor ao retratar a vida antes das novas tecnologias, mas não é academicamente reconhecido! Merecia um diploma “Honoris causa”… ); reconhecer que um dos melhores ativos que tem são os alunos, que deve ter uma escuta ativa e não autoritária. Obrigar a obedecer, traz imediatismo, mas não traz consideração. Reconhecer que tem de melhorar a comunicação entre pares para chegar aos futuros líderes que são as nossas crianças e alunos.
Um ponto assente é a domínio que certos elementos da comunidade escolar têm perante os alunos, quase sempre por ameaça ou por discriminação. Assistir a uma cerimónia que se apercebe que nem todos são iguais, e que melhor será valorizar quem tem apetência para o ensino superior e que quem segue os cursos de formação pouco futuro tem no mercado de trabalho, vai de encontro ao preconizado na Lei de Bases do Sistema Educativo “uma permanente ação formativa orientada para o desenvolvimento global da personalidade, o progresso social e a democratização da sociedade.” (Decreto- Lei nº 137\2012 de 2 de Julho).
Honestamente, o sistema adequa-se a este tipo de atitude, em que excluí que não tem compadrios e desfavorece quem segue as regras. Mas porque não incluir todos no todo? Afinal a matéria é a mesma, e não haja dúvida que partilhando ideias haverá mais riqueza pessoal para todos… Vejo pessoal com categorias consideradas inferiores na administração pública com melhores competências sociais que muitos com categoria de técnico superior. Que estão bloqueados localmente por elementos ditos “superiores” por sentirem insegurança nas suas capacidades de liderança e gestão. Que em vez de terem abertura para o diálogo preferem escarnecer e descredibilizar quem sabe e quer melhorar. Para quem tem mérito e não vê reconhecimento profissional, posso assegurar que muitos são os pais, avós, tios, irmãos que agradecem a vossa dedicação e apoio. Apesar de o salário não compensar os vossos infortúnios diários, podem crer que há alguém que vos compensa com um “Obrigado” genuíno.
Tudo deve ser moderado, a “nata” pode fazer uns ótimos manjares com o “leite”, porque o que precisamos é de união e não de separação. E já agora peço perdão pela minha acidez…. Devem ser das natas!