MEMORIANDO

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EDIÇÃO LIMITADA
Fomos como a lua que era nova e ia aspergindo um luminoso e vago encantamento pelos vales onde havia frios tons de cinza. A nossa geração dos cinquenta e dos sessenta anos principiou o fim da sua caminhada, numa jornada de sol e neblinas que se confundem com um sonho. Quem nos vai substituir?. Somos uma geração única, mais compreensiva, que riamos em gestos distraídos, ouvíamos nossos pais, nossos avós e tios, respeitávamos os professores e as pessoas mais velhas. Amávamos a natureza, o cantar das aves matutinas, sentíamos o nosso pátrio ninho o serrano coração da nossa aldeia como maravilhosa luz e uma visão de Deus. Conhecia-mo-nos por apelidos e não era nenhum desrespeito. As musicas que ouvíamos não feriam os ouvidos, eram como um delírio do vento ou as lágrimas da chuva. Ainda assim atravessámos serenamente a era do rock do ié-ié, do fockstrot e do twist, vivemos o movimento ipi. Como sombra de uma voz que pairava no ar vimos a viagem do homem á lua. Sobre a terra que chorava, terra viva, vivenciámos guerras que não eram nossas. Para mitigar a sagrada volúpia da tristeza organizávamos bailes em garagens e no terreiro. Divertia-mo-nos com o cantar das janeiras porta – a – porta, o “deitar“ as comadres e os compadres nas 5ªs feiras que antecediam o Entrudo, com versos improvisados no momento, suportando ventos que perpassavam na ramagem densa do arvoredo em noites em que esvoaçava a sombra do silencio, por baixo da janela das moças solteiras que escutavam atrás da cortina. Vivíamos o Entrudo com toda a diversão e intensidade, recordações de uma doce quimera em que as lembranças humanas têm figuras diante de nós, foliávamos até ao rubor da madrugada, ao primeiro adeus das sombras, quando já quase era luz. Em nós tudo vivia, o pio remoto mas distinto das aves que ainda estavam para nascer figurando a imagem da esperança. Gozávamos dois meses de férias vividas numa aparência imaginária desta vida translúcida e serena. Namorava-se muito e a maior parte até casava com a primeira namorada e ainda hoje se mantêm juntos e felizes. Somos portadores de uma imaginação fecunda e santa por vezes envoltos em nevoeiros de cuidados e cismas. Tivemos muito trabalho para construir o mundo mas que hoje está a ser destruído por falta daquilo que antigamente tínhamos em abundância: amor ao próximo. Em declives de brumas e tristezas sentimo-nos resvalar em corpos que se afundam na silêncio da noite. Somos cada vez menos. Vem chegando a nossa meia – noite, caminhando a murmurar, estamos indo embora e aumenta o nosso sentimento de preocupação com o mundo que deixamos para os nossos filhos e ás próximas gerações. Somos uma edição limitada de seres humanos que marcámos a história, mas neste arder em chamas de ansiedade sobre nós também chovem rosas de luz. Calculamos distancias de um astro a uma andorinha, adoramos a singeleza de um ramo em flor, exaltamos o valor de um nobre pensamento. Diferençamos a noite do dia o esboço de um sorriso e o derrame de uma lágrima. O mundo mudou e o tempo diluiu como a distancia esfuma em luar. Cintilam-nos nos olhos as lágrimas e através delas contemplamos a vida.