SANFONINAS

dr. jose
Aquele recanto do jardim
Nunca lá vi ninguém sentado. Nem velho nem casal de namorados nem cônjuges nem crianças. Ninguém, É, todavia, um recanto bem aprazível, sempre limpo, sossegado, de ar purificado pelas árvores que o ladeiam, tranquilo num repousar de olhos sobre o verde da relva e das plantas do jardim que o envolve. Há caixote para o lixo, há dispensador de sacos para dejectos caninos. Está nas traseiras dos prédios e o movimento da rua do bairro quase ali passa despercebido.
Imagino o dia em que, diante do estirador, o arquitecto paisagista delineou esse recanto, a pensar em crianças, em velhos, em mães com filho num carrinho e ela a poder ler ou responder a mensagens… Sim, o arquitecto pensou em gente, que o seu recanto sem gente não tinha sentido nenhum!…
E não tem. Que eu nunca lá vi ninguém sentado.
Recordo o ancião que, passando boa parte do seu dia, todos os dias, sentado num banco de jardim, a admirar as flores, a ver as arvéloas aos pares de longo rabo sempre a mexer acima-abaixo, acima-abaixo, a observar a azáfama das abelhas ou das formigas ou a algazarra das crianças que, de vez em quando, o vinham saudar, decidiu deixar em testamento boa parte dos seus bens à entidade que ali superintendia, para manutenção daquele banco porque o banco o fizera feliz…
«Num banco de jardim uma velhinha / faz desenhos nas pedrinhas que, afinal, são como eu» – canta Carlos do Carmo na sua «Balada para uma velhinha».
Sim, a ideia geral é essa: o banco de jardim é para os velhinhos; por vezes, para os namorados… Mas, quando o arquitecto, diante do estirador, desenhou aquele recanto ora feito realidade, não foi só nas velhinhas que ele pensou, foi na gente, foi nas pessoas… As pessoas, porém, não têm tempo para ali se sentarem, nem ao domingo, nem ao sábado, nunca!…
Assaltou-me a ideia do recanto triste e desabitado do meu bairro. E dei comigo a penitenciar-me também: «Não tens uma mesa de verga e duas cadeiras de verga na tua varanda, amigo? E para que as queres lá? Quando as compraste, não foi para nelas te sentares, para usufruíres de momentos de relaxamento no desenfreado correr quotidiano? Não foi? Para conversares com tua mulher, com os teus filhos. Para o gato saltar para o teu colo e te deixares levar pelo seu ronronar sereno? Não foi?…