TRADIÇÃO POPULAR

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O RESPONSO
Da serra começava a levantar-se um crepúsculo, um fumo de nevoeiro. E um oiro em pó, suspenso, ia juntar-se às primeiras estrelas: descia a noite.  Era às pessoas mais idosas, vistas como seres de algum poder, supostamente aureoladas de uma difusa luminosidade, que no final do dia ou noite adentro a elas recorriam quando alguma dificuldade surgia, animais ou objectos que desapareciam, trovoadas ribombantes que nos inquietavam. Num altivo porte como um sorriso de uma Santa que não conhece distancias e alumia de longe como a estrela mais remota, sentada no fundo dos degraus de pedra, firme e hirta, a rezadeira, aconchegada pelo xaile preto para se proteger da orvalha que ia “caindo”, ou do vento frio que perpassava na ramagem das árvores, escutava a choradeira ou lamentação da desgraça, sendo sentida como última esperança daquela gente tão sofrida e castigada pelas agruras da vida onde a dor não sofre mas é sofrida como flor que treme só de lembrar o fim da Primavera. Absorta do mundo e de tudo que a rodeia, calma e serenamente balbuciava algumas inaudíveis palavras. Recitava a oração de forma encadeada sem se enganar: estava a responsar.
Responso a Santo António que deve ser rezado durante um ciclo de nove dias. Acende-se uma vela branca antes da oração.
Se milagres desejais, recorrei a Santo António
Vereis fugir o demónio, e as tentações infernais.
Recupera-se o perdido, rompe-se a dura prisão
E no lugar do furacão, cede o mar enraivecido.
Todos os males humanos, se moderam e se retiram
Digam-nos aqueles que os viram, e digam-nos os Lusitanos.
Pela sua intercepção, foge a peste, o erro a morte
O fraco torna-se forte, e torna-se o enfermo são.
Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo.
E na mansidão viçosa dos planaltos, vindas do lado saudoso do poente, fortes e assustadoras eram as trovoadas em Maio, quando acompanhadas de ventos em ataques de angústias enlouquecidos. Enquanto se iam pondo na lareira bocadinhos já secos de alecrim e loureiro do ramo do Domingo de Ramos:
Santa Bárbara bendita, que no céu estais escrita
Com raminho de água benta, livrai-nos desta tormenta
Lá para a serra do Marão, onde não haja vinho nem pão
Nem leira nem beira, nem galo que cante, nem figueira que espante.
Os ritos e as preces diversificavam mantendo sempre, no fundo, a sua verdadeira essência:
Santa Bárbara pequenina, se vestiu e se calçou
Seu caminho caminhou e Jesus encontrou:
Bárbara onde vais?!…
Senhor vou para o Céu, abrandar a trovoada que sobre nós anda armada.
Mandá-la para o monte do rosmaninho, onde não haja pão e vinho
Nem ramo nem maneira, nem folhinha de oliveira.
A palavra “responso” provém do latim e significa resposta ou “procura de resposta”. O tipo de responso varia conforme a necessidade da pessoa. Após o momento de desalento ele transmitia calma e esperança. O responso é uma oração muito antiga, um misto de energia positiva que pretendia obter o bem.