PATRIMÓNIO CULTURAL (5)

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Citânia da Raposeira
Nos meses que se seguiram, e estando nós no verão de 1985 voltamos a fazer a pesquisa visual pela superfície dos terrenos e muros agora mais fixados nos que se localizavam ao longo do traçado da futura avenida. A anterior descoberta da fossa com os restos de tanta telha romana era sintomático de que nas imediações algo de importante se poderia encontrar. Então, pés a caminho e olhos muito abertos… Estávamos em plenas Quintas da Raposeira com inúmeras parcelas pertencentes a vários donos. Logo aí, uns cem metros à frente da necrópole implantada no complexo granítico que já referi atrás e, a cerca de duzentos metros para poente, erguiam-se umas casinhas de pedra, uma habitada, e uma palheira destinada a arrecadação integradas num largo terreno de olival, alguma vinha, aveleiras e espaços de cultivo. Com a devida autorização entramos e cuidadosamente atentos ao solo fizemos uma batida minuciosa, mas difícil, entre as árvores e outras plantas.
Um caminho vicinal que ladeava o lado poente do terreno era delimitado por um muro tosco construído com pedras variadas, muitas das quais mostravam um aparelho desajustado às restantes, isto é, de faces perfeitas e pico regular. Os interstícios e pequenos vãos eram preenchidos com pedaços de grossas tijoleiras e de alguma telha romana. Só estas evidências já bastavam para concluirmos que por perto, ou ali mesmo ao lado, poderiam existir vestígios de interesse. Também pelo chão na terra trabalhada no cultivo, os pequenos fragmentos de peças de cerâmica grosseira de uso diário eram abundantes.
Perante estas evidências achamos que seria útil um outro tipo de prospecção. Contudo estes trabalhos estavam a preocupar-nos já que, como viemos a saber, os terrenos pertenciam a três proprietários com parcelas distintas e antevíamos uma provável resistência no imediato. Procuramos saber quem eram e como poderíamos contactá-los para se solicitar uma autorização de sondagens. Por outro lado era preciso comunicar com o então denominado Instituto Português do Património Cultural as nossas intenções com a apresentação de um justificativo, pois sem a concordância deste organismo oficial seria impossível qualquer trabalho. Bom, depois destas movimentações e já com a concordância do IPPC, deparávamo-nos com o maior entrave – como conseguir convencer algum dos proprietários a permitir-nos prospectar na sua parcela. Eu não conhecia nenhum deles valeu-nos o Presidente da ACAB dr. Marques Marcelino que pela sua profissão de bancário conhecia meio mundo como soe dizer-se. Coube-lhe proporcionar-me um contacto com o dono da parcela que se estendia ao longo do caminho e negociarmos uma autorização de sondagens aqui também já com a interferência da Autarquia… Estava a estruturar-se um projecto que ao longo de vários anos me iria roubar muitas energias. E disso iremos dando conta…
julho 2020