Arquivo diário: 1 de Setembro de 2020

EDITORIAL Nº 782 – 1/9/2020

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Um Jornal serve acima de tudo para transmitir, para uma massa indeterminada de pessoas, através de textos e imagens, ideias, opiniões e pensamentos.
Transmissão feita de uma forma responsável, mas livre. O Homem é antes de tudo livre!
A liberdade é um direito que todos os cidadãos têm. Faz parte do conceito fundamental da Democracia e está protegido pela Declaração Universal dos Direitos do Homem e pela Constituição da República Portuguesa.
No fundo é o nosso suporte da Democracia! Desta forma, podemos e devemos, todos, exprimir ideias e opiniões, muitas vezes diferentes e às vezes contraditórias.
Escrever num Jornal, neste caso no Renascimento com 93 anos de existência é estar mais próximo da vida real, uma grande responsabilidade. E a primeira missão de quem escreve é informar e muitas vezes questionar. Porque a pergunta é a ponte de entendimento entre os Homens.
Ao iniciar uma nova postura neste Jornal, anima-nos o sonho de tornar o Jornal Renascimento, maior e melhor e seguir o Poeta – “ O Homem sonha e a obra nasce ”!
Mas também diz:- O esforço é grande e o Homem é pequeno”! Talvez seja uma loucura, mas o Poeta acrescenta:-“ Sem a loucura o que é o Homem”?

COMPENSA SER FORMIGUINHA?

Humberto Pinho da Silva
Certa ocasião, Nicolau Tolentino de Almeida, escreveu carta, dirigida ao Oficial da Secretaria do Reino, Lourenço José da Mota Manso, dizendo: “ Se tu não sabes o que é não ter dinheiro, eu to explico: abaixo dos estupores, é o maior mal do mundo…”
Para evitarem o “mal”, é que muitos passam a vida amealhando tudo que aforram.
Uns, começa, de novos, a formar o pecúlio, receando chegarem à velhice, e não terem bastante para sobreviverem com dignidade.
Outros, desbaratam tudo, levando vida de cigarra, confiados na Providência divina e na providência do Estado.
Os que imitam a formiguinha, passam duros trabalhos e privações constantes. Os que imitam a cigarra levam vida folgada a cantar, a passear e a banquetear em bons e alegres repastos.
Vem depois a calamidade, as crises económicas, as cigarrinhas, ao verem as formiguinhas, com dispensa cheia, e boa casa, descem à rua indignadas e a brados reclamam: igualdade! …
– “Não é certo, nem justo, que uns tenham tudo, e outros nada ou quase-nada! …” – dizem, revoltados.
E invejosos de não possuírem pé-de-meia, buscam assaltar a dispensa da formiguinha…trabalhadora.
Afirmam, filosoficamente: “ Quando o Sol nasce, é para todos! …. Vamos distribuir o “ mealheiro”, para que todos possuam seu quinhão…”
Conheci pobre homem, empregado de armazém, que desde muito novo amealhou. Casou com caixeirinha de loja de miudezas, que ambicionava ser senhora.
Assentaram engordar o “porco”, para adquirirem casa. Animados pelo sonho de serem independentes, mal comiam. Diariamente a janta, era apenas sopa. Só ao domingo saboreavam carne ou peixe, com batatinhas ou arroz malandrinho.
Arrecadada a quantia desejada, compraram terreno e levantaram linda moradia.
Os companheiros de trabalho, nesse entanto: viajavam, comiam e bebiam à tripa forra. Refastelavam-se no Inverno, bem aquecidos; e no Verão, nas areias morenas do Algarve e Benidorm.
Vendo a moradia do colega forreta, rosnavam à socapa: – “ Onde foi o pascácio roubar esse dinheiro?! …”
Vou, agora contar dois casos verídicos, de famosos milionários, para “adivinharem” como se faz fortuna, honestamente. Porque há, também, quem chegue a remediado, roubando parentes (até irmãos!), trabalhadores e a sociedade, em geral; estou certo, se eles têm consciência, está repleta de tenebrosos remorsos…agora, e principalmente, na hora da morte. …
Citarei, o multimilionário Calouste Gulbenkian, que depois dos trabalhadores se ausentarem, ia sorrateiramente pelos escritórios, recolher pontas de lápis que lançavam ao lixo, para usa-los no seu gabinete, no aproveita-lápis…
E o dono do império IKEIA, que ao fazer compras no supermercado, procurava produtos no fim e validade, com preços especiais, para economizar…
Quando surgem graves crises, que afectam, em regra, os pobres, aprecem, entre eles, numerosos, que usufruíam bons vencimentos, passavam férias em Saint-Tropez e vestiam-se com boa fazenda inglesa; mas nunca pensaram criar pé-de-meia….
Para quê? Perguntam. O Estado Providente, e as formiguinhas prudentes, arrecadam sempre o bastante para repartirem, por todos…; a bem ou a mal…

REFLEXÕES

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Património Cultural (6)
CITÂNIA DA RAPOSEIRA
Irei continuar focada na história da investigação arqueológica na Citânia da Raposeira uma empreitada de grande interesse e empenhamento. Por vezes surgiam situações insólitas e episódios alguns bem divertidos, a par da grande responsabilidade, e que acabavam por roubar muitas energias preciosas
Pois bem, a partir do momento em que se decidiu o local da primeira prospecção, era indispensável obterem-se todas as autorizações pela legalidade do projecto e o apoio financeiro e logístico, fundamentais. Assim foi aprovado pelo então IPPC, foi aceite o apoio da Autarquia, e a participação da ACAB na estruturação dos trabalhos através da sua vice presidente e directora do futuro campo arqueológico. Se me detenho nestas descrições é para que, a quem interesse, possa conhecer os meandros de muitos trabalhos na área da cultura que levam a um final por vezes de grande valor concelhio e nacional, a par de outros que acabam desvirtuados e perdem o que de melhor poderia ser oferecido a estudiosos da nossa história e à sociedade em geral. E este meu aparte vai ter a sua confirmação ao longo desta história.
Depois de serem obtidas todas as autorizações chegou-se ao momento de organizar o trabalho de campo. Era normalmente formada uma equipa constituída por orientadores de formação universitária e capacidade confirmada, técnicos e trabalhadores. Ora a maioria das campanhas arqueológicas eram reservadas para o tempo quente e de férias contando-se assim com a colaboração de estudantes do ensino secundário e universitário. E neste caso fomos acompanhados sobretudo por jovens frequentadores dos últimos anos das escolas do concelho. O início dos trabalhos foi bem árduo, porquanto a área onde se realizariam sondagens era ocupada em parte por olival e fios de videiras, deixando pouco terreno disponível para se marcar a indispensável quadrícula de 4×4 metros, normal numa escavação arqueológica, a partir do desenho no levantamento topográfico. Foi uma tarefa hercúlea que muitos dos jovens de então, agora já bem entrados na idade deverão recordar se porventura passarem os olhos por esta escrita. Bem vistas as coisas é também por eles, “escavadores” muito suados, que me propus montar esta história. A propósito, ainda há pouco tempo um senhor que se encontrava na esplanada do Café Melro me abordou “ Olha quem aqui vejo ! Lembra-se de mim ?” Não…realmente ,não. “Eu sou um dos jovens que escavamos na Raposeira”…. Oh !! Que engraçado ! Mal poderia imaginar… um jovem, agora senhor com algumas décadas e eu muito mais à frente !! Estou encantada!… E entabulamos uma boa conversa cheia de recordações… (foi muito bom ). São estas coisas que nos ficam de tempos duros, mas simultaneamente enriquecedores cultural e humanamente falando. Iremos continuar.
Agosto 2020

A broa

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Existem aldeias na Beira Alta que já foram palco de uma relevante economia agrícola e cujo sustento estava no cultivo e na exploração da terra, desde a exploração florestal passando pelo cultivo de vários tipos de cereais. A broa assumia grande importância na alimentação regional. Sabemos que o trigo, mais dispendioso pela sua menor disponibilidade, era o cereal que dava origem ao pão alvo, apenas presente na mesa das famílias mais abastadas e somente aos fins-de-semana. Até para os que mais posses tinham, durante a semana dominava a broa como acompanhamento das refeições.
Pesada, consistente, intensa no sabor, de uma cor amarela acastanhada, a broa revela-se uma descoberta, através da experiência sensorial que nos transporta para os alimentos mais simples que começam por fazer parte da nossa alimentação assim que deixamos o leite materno. Por isso, quando se sente aquele sabor, remetemo-nos para uma memória que não se identifica no tempo e no espaço, mas que se reconhece no aconchego do que nos saciava a fome.
Daí, agora, relembrar esta tradição tão antiga e tão enraizada na cultura popular beirã, enquanto elemento matriarcal da alimentação local. Por que os produtos não se esgotam no seu sabor ou valor económico, desde a sua origem, a broa faz parte da nossa memória coletiva. Por isso, pareceu-nos completamente plausível e para além disso fundamental, recriar o processo de fabrico da broa de milho, desde o ciclo do milho até ao forno que a coze.
O Ciclo do Milho, pela importância pedagógica que assume, desde a preparação da terra, a sementeira, o sachar e o arrendar, a rega, a monda, o cortar da ‘bandeira’ ou do ‘penacho’ ou do ‘pendão’, a desfolhada, o malhar e o limpar do milho. Percebem que, no passado, quem tratava a terra para a obtenção do milho tinha um longo caminho a percorrer, com o necessário esforço físico que todas as fases envolviam. Eram etapas e tarefas que levavam a que o milho fosse de elevada qualidade e quantidade. Além de demonstrar a importância do milho no ciclo agrícola local, também permite relevar todo o património cultural imaterial inerente a tais tarefas, como os trajes de trabalho, as práticas agrícolas, o vocabulário, os cantares e a gastronomia. Em suma, todos os elementos culturais usuais no cultivo do milho.
Também muito ligado a este processo da broa estavam os moinhos de água que já poucos resistem com atividade regular mas cuja sua importância destacamos desde já.
Fabrico de Broa
Cada comunidade rural possui as suas regras, as suas práticas e os seus costumes, e tal faz sentir-se na forma como confecionam a Broa, no seu conteúdo, na sua forma, no seu volume e no seu gosto; trata-se, em última análise, da identidade cultural da comunidade. A confeção do pão cabe à mulher; ao homem apenas cabe, quando muito, a tarefa de aquecer o forno e enfornar o pão. EM tempos mais recuados, a broa era cozida (fornada) uma vez por semana, ou de quinze em quinze dias; no Verão, pelo calor e pela falta de tempo com o trabalho no campo, a mesma é cozida com menor frequência. Atualmente, face a várias condicionantes, a mesma é confecionada praticamente em momentos festivos.

(Continua na próxima edição)

COM ALMAS LAVADAS TODOS OS ANOS O VERÃO SE INSTALA NO NOSSO CORAÇÃO  

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O VERÃO NA MINHA ALDEIA 
Correm no calendário estes dias de canícola de um estio extremamente severo que nos aquece como fornalha de ferreiro . Tem – me vindo á memória como eram passados os dias na minha aldeia e muitas recordações remanescentes dos longínquos anos sessenta do século passado . O calor tisnava os corpos daqueles que trabalhavam nos campos . Meus pais levantavam-se de madrugada para regar as hortas e só pelo fim da tarde , mesmo á tardinha voltavam de novo a essas tarefas .Terrenos sequiosos abrindo fendas que lhe dilaceravam as entranhas exigiam a rega assídua e aturada das batatas , das cebolas , do milho , do feijão verde , do tomate , do pepino , do melão e da melancia As férias escolares pareciam uma eternidade . Três indecisos meses sepultados nos lábios da natureza num tempo em que não havia ainda televisão nem outros divertimentos e distracções além daquelas brincadeiras que eram inventadas por nós , puras diversões educativas e saudáveis , próprias da nossa juventude e adequadas às épocas que vivíamos . Nos pinheirais os ventos gemiam e choravam e mais nos avivavam a ansiedade que chegasse o dia 7 de Outubro para o reinicio das aulas . As cópias , exercícios de álgebra e redacções passados pela professora, rapidamente se haviam feito . Sobrava-nos mais tempo para a brincadeira . À noite como as casa ficavam insuportavelmente quentes porque a aragem se a havia era sufocante , as famílias sentavam – se nas soleiras das portas admirando a grandiosidade do firmamento salpicado dos mais diversificados astros luzentes e tagarelavam até altas horas da noite . E as estrelas cadentes que faziam desenhos a riscar o céu ! … Quem teria inventado aquilo?! …Interrogava-me muitas vezes , mas não sabia a resposta , mas pelo meu acanho também não perguntava a ninguém . Contavam-se “ estórias “ incríveis recambulescas arrepiantes de feiticeiras lobisomens e afins que nos rodeavam de espantos e medos . Recordo aquela velha figueira que sustentava corajosamente seus frutos e nos dias amadurecendo iam tombando como folhas caducas sem serem colhidos e naquelas manhãs já muito frescas e húmidas com suas mãos de brisa que agitavam seus longos ramos como ondas revoltas de verdes esperanças .Não esqueci a queda de um secular castanheiro que tombou num estrondo e à sua volta tudo fez estremecer . E naquele abalo de dor e morte uma imensa nuvem de pó se levantou e fugiu voando . Era assim a minha aldeia onde ainda hoje paira a sua voz no marulhar das águas das nascentes num murmúrio que sai das pétalas a abrir nas ondas serenas de uma fonte onde outrora assiduamente os meus lábios ressequidos ia molhar . E os meus treze lustros deslizam no tempo fulgurantes como impetuosos ribeiros nos quais a sombra dos montes se alonga conforme o sol declina e se avizinha a noite dos purpurinos horizontes acordando num alvorecer de paz e solidão .

SANFONINAS

dr. jose
O que ela estrebuchava!

Permita-se-me que complemente a crónica anterior, de evocação dos anos 50.
Hoje, respeito e até acho graça à família de osgas que há anos se domiciliou na minha garagem e por lá tem feito criação. Vejo-as de vez em quando, elas olham para mim com ar entre desconfiado e sereno. Ontem, uma das mais pequenitas teve de se esgueirar à pressa, porque eu a não vi ao regar.
Anteontem, a Filipa chamou-me de mansinho. Queria mostrar-me, soube-o depois, a sua lagartixa de estimação, que, diariamente, pela manhã, vinha comer o pedacinho de queijo que ela lhe punha num canto da entrada do salão de cabeleireiro.
Voltámos, pois, a uma convivência normal com estas bichezas, na medida em que cabalmente compreendemos a sua missão no seio da biodiversidade. Até sou capaz de me levantar da secretária para ir abria a janela á mosca atarantada; será, porventura, bom alimento para outro bicho qualquer; esmagando-a, eu nada ganharia!…
Não era assim nos anos 50. Lagartixa ou osga constituíam desafio de caçador. Colhia-se um pé de palanco. Limpava-se com cuidado a parte mais fina e ajeitava-se em forma de laço corrido. Ficava um laço fininho, a lembrar em miniatura o dos cowboys; aqui, todavia, não era para apanhar potro selvagem, mas, sorrateiramente, a lagartixa adormecida ao sol. Enfiava-se-lho devagarinho pela cabeça e, quando lhe chegava ao pescoço, ou puxávamos ou era a própria lagartixa a querer esquivar-se. Boa caçada, para regozijo nosso de heróis.
Um pormenor me chamava sempre a atenção e hoje compreendo o seu enorme significado. Ao sentir-se em perigo, a lagartixa soltava, por vezes, a cauda, que ficava a rabear e ela… escapulia-se! O agressor… distraía-se!
E dei comigo a pensar nas muitas caudas a rabear no dia-a-dia, a fim de o mais importante se poder escapar sem dar nas vistas!…

O SER HUMANO APÓS A REVOLUÇÃO AGRÍCOLA

juiz
Os primeiros seres humanos eram nómadas, subsistiam como caçadores-recolectores e, por isso, iam mudando de lugar quando a comida escasseava.
Na época situada em cerca de 10.000 anos a.C., no Período Neolítico, o Homo Sapiens deixou de ser nómada e de viver apenas da caça e do que a natureza lhe oferecia, para passar a dedicar-se à agricultura. Foi a Revolução Agrícola.
Antes dessa transição para a agricultura, a terra constituía o lar de cerca de 5 a 8 milhões de recolectores nómadas. Após o primeiro século da era cristã, o número de recolectores ficou reduzido a cerca de 2 milhões, espalhados pela Austrália, América e África, num período em que o número dos novos agricultores já ultrapassava os 250 milhões em todo o mundo. Destes, já poucos eram nómadas, pois viviam em povoamentos permanentes.1
Enquanto caçadores-recolectores, viviam em grandes extensões de dezenas ou até centenas de quilómetros quadrados, ao passo que, ao tornarem-se agricultores, verificou-se uma grande redução do território ocupado, visto que passavam o dia a trabalhar num pequeno terreno, centrando a sua vida doméstica numa pequena casa de madeira, pedra ou barro. Por outro lado, sentiam-se presos ao lar que criaram, o que ocasionou também um certo desprendimento em relação à maior parte dos vizinhos.
Ocupavam uma pequena parte dos terrenos, rodeada por vastas áreas de florestas virgens. Sendo a superfície do nosso Planeta de 510 milhões de quilómetros quadrados, dos quais apenas 150 milhões são terra, no ano de 1400, os agricultores juntamente com os animais e plantas aglomeravam-se numa extensão de cerca de 11 milhões de quilómetros quadrados, o que constituía apenas 2% da área de todo o Planeta.
Os caçadores-recolectores, que tinham necessidade de se deslocarem constantemente, só com muita dificuldade conseguiam preservar alimentos. Por isso, não se preocupavam com o futuro. Com a Revolução Agrícola, o futuro passou a ter outra importância. Eram forçados a contar com os ciclos de produção sazonais e com a incerteza da agricultura. Dependendo do cultivo de uma variedade muito limitada de plantas e dos animais domésticos, estavam sujeitos às secas, às pestes e às tempestades que poderiam destruir as sementeiras. Tinham, por isso, de acumular reservas. Raramente conseguiram alcançar a segurança económica que ambicionavam. Para cúmulo, muitas vezes, os governantes e as classes privilegiadas – “reis, funcionários governamentais, soldados, sacerdotes, artistas e pensadores” – que viviam dos excedentes alimentares dos camponeses, deixavam-nos apenas com o essencial à sua subsistência. “Até à era moderna tardia, mais de 90% dos humanos eram camponeses” que, com “os excedentes alimentares confiscados, sustentavam a política, a guerra, a arte e a filosofia. Erigiam palácios, fortes, monumentos e templos”.
Os excedentes alimentares produzidos pelos agricultores e as novas tecnologias de transportes, permitiram a criação das aldeias, depois as vilas e, por fim as cidades, “todas elas unidas por novos reinos e redes comerciais”.
1Cfr. Sapiens, de Yuval Noah Harari

Vê lá tu, que tenho o “Castrol” alto!

Ana Cruz
Quando vamos a uma consulta médica, as análises clinicas (análises ao sangue e outros produtos biológicos) é um dos Meios Complementares de Diagnóstico e Terapêutica (MCDT) mais estabelecidos para o clínico\ médico poder estudar a saúde de pessoa que está à sua frente. Está a regressar uma corrente na prática no exercício de Medicina para valorizar o exame físico e os sintomas referidos pelos pacientes, mas ainda prevalece a panóplia de exames invés de uma boa anamnese (do grego “ana” que significa trazer de novo e “mnesis” que significa memória).
Ter uma boa entrevista entre profissional de saúde e paciente, requer competências comunicacionais que nem todos possuem: se por um lado há uma procura excessiva pelos cuidados médicos, por outro, não existem recursos humanos para essa procura, daí muitas vezes as “conversas” serem consideradas supérfluas e por isso quase inexistentes. Assim, é natural os equívocos que surgem durante as consultas, e termos técnicos que não são explicados e tornam-se erros fonéticos, quase sujeitos a escárnio para quem tem conhecimento de causa. Por exemplo, quando começaram a surgir os exames de rotina, incluindo as análises ao sangue, era frequente o “Sô Doutore” dizer com seriedade loquaz- “Pois Sr. Antero, tem o colesterol alterado! Tem de ter cuidado com o que come!”- e lá vinha o Sr. Antero ter com os amigos à tasca, com ar meio jocoso e receoso – “Vê lá tu, que o Sô Doutore diz que tenho castrol alto! Mas eu até nem como muito!”- enquanto petiscava um chouriço, chamuscado na aguardente, acompanhado de queijo da Serra com pão de trigo.
Certamente, a marca de lubrificante de veículos automóveis “Castrol®” nada tem haver com a biologia humana, apesar de ter características oleosas, não existe qualquer similaridade entre o Colesterol e o Castrol®!
O colesterol (origem etimológica grega, Chole, significa Bílis + Stereo, significa sólido, duro e sufixo do latim Oleum, significa óleo) é essencial para a boa manutenção sa saúde, porque faz parte da formação de certas hormonas (que regulam a parte reprodutora do homem e mulher, para além do funcionamento geral do corpo); participa no transporte de certas vitaminas que apenas são dissolvidas com gorduras (tais como as vitaminas A,D, E e K), para além de ser um dos responsáveis da produção da bílis, tão importante para a divisão das gorduras durante a digestão.
O aumento do colesterol, a par com a obesidade e sedentarismo, está associado a uma dieta rica em carnes vermelhas, lacticínios, salsicharia e charcutaria.
Antigamente, a alimentação era reduzida a um punhado de carne semanal, obrigando a maior ingestão de fruta e peixe, trazendo benefícios que muitos se esqueceram…. “Se morrer que morra farto”, era o que se dizia! Eu riposto, “o barato saí caro!”, porque o que paga mais barato nas compras, saí-lhe “caro” na saúde!