MEMÓRIAS DE UMA ALDEIA

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ENTRUDO RURAL
Tristezas levava-as o vento, voavam com o vento, evaporavam-se no ar, flutuavam adormecidas á tona da água. O tempo era frio, de um gelo cristalizado, as mãos e os pés encaramelavam, quando não caíam alvos farrapos de neve ouvia-se gritar e sonhar alto o vento. O frio arrefecia os corpos, a dança e a folia aqueciam os corações. Eram três dias e duas noites maravilhosas que em seu ventre dilatado se sentia germinar um braseiro de euforias e loucuras. Os foliões irradiavam dos seus rostos já cansados, macerados pelas noites não dormidas aquela auréola que só se projecta de uma alegria não contida, á solta. Á noite nos seus rostos reflectia-se o brilho das estrelas que luziam. É domingo gordo e os homens como iniciando uma longa jornada despedem-se das suas mulheres. “Adeus mulher até 4ª feira de cinzas“. Terça-feira, a folia está no auge, dia em que se dá mais fôlego ás brincadeiras, á imaginação á transgressão das normas. É dia de Entrudo os largos da aldeia animavam-se com bailes, danças e bailinhos. Á tardinha, quando a noite começava a estender a sua longa manta cinzenta prepara-se o enterro do Entrudo, boneco de palha que desfila num caixão pelas ruas da aldeia. Atrás as viúvas choram, gritam pela perda destes dias de alegria. E o padre impertubavelmente continua o seu mirabolante e fantasioso reportório. Á meia noite é queimado o Entrudo precedido da leitura de um longo e sarcástico testamento que culminava numa afirmação e num pedido: “A vida são dois dias mas o Entrudo ainda são três“. Não me deixeis morrer definitivamente!!!!!…. A alegria do Entrudo é uma alegria passageira. Mas sendo o Entrudo tão bom porque a alegria há-de terminar em cinzas ? Quarta feira de cinzas é o fim da época das alegrias e a transição para um tempo de esforço, reunião, sacrifício e uma determinada seriedade. Alegria, Entrudo, que amanhã será cinza.
Nesta época festiva
Deseja-se a todos os Povos
Um Entrudo cheio de Páscoas
E um Natal cheio de Anos Novos
Aproxima-se a Páscoa e como o povo na eloquência da sua sabedoria lá vai entoando a máxima de que não há Entrudo sem lua nova, nem Páscoa sem lua cheia.
O Entrudo leva tudo. Coisas do Entrudo…..