A Maria Adélia

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Era tratada carinhosamente entre nós como a prima Adélia de Mangualde. Pertenceu à geração de minha mãe que nasceu nos anos 20 do século passado. Entroncava nos Pessoas, uma família muito considerada na época em Mangualde de onde saíram algumas figuras de relevo local e nacional. Era minha familiar de sangue, não de afinidade. Por outro lado era descendente do Marechal Carmona, cujo nome figura no seu.
Maria Adélia Carmona e Silva Pessoa, nasceu em 30 de Março de 1924 e faleceu com a bonita idade de 94 anos vai fazer este mês um ano em 28 de Junho de 2018.
Em certo período da minha vida nos anos a seguir à Revolução de 25 Abril, vivi com minha mulher e o meu filho Pedro, na altura único, na minha casa em Fagilde.
Invernos frios e chuvosos levavam-me , depois do jantar a Mangualde, onde em casa da Prima Adélia, em volta da salamandra quentinha discutíamos a politica da terra.
A Maria Adélia era uma seguidora do Dr. Sá Carneiro e fazia nas épocas próprias militância cerrada nas feiras, mercados, onde fosse necessário pregar a sua ideologia social democrata.
Viúva já nessa altura, vivia com os filhos, Sara e João, na sua casa sita no Largo do Rossio a fazer esquina com a rua que vai para o Largo das Escolas.
Muitas histórias se contaram nessas reuniões. Muitas sugestões, muitas criticas a pessoas e partidos. A Maria Adélia era uma personalidade forte. Um misto de senhora, pelos seus princípios e educação e uma combatente feroz pelos seus ideais.
E como senhora, que de facto era, não permitia nenhuma falta de respeito. Por isso uma noite, ainda um pouco sentida pela falta de respeito me contou o que se tinha passado nesse dia. Tinha ido à Câmara, resolveu entrar na sala de reuniões onde estava reunida toda a vereação. Entrou e ninguém se levantou. Irada com o sucedido disse bem alto : Levantem-se que entrou uma senhora ! Era assim a Maria Adélia e tinha razão. A Democracia devolveu-nos direitos. Mas não nos deu educação, princípios , que como diz o povo e bem, vêm do berço. Por isso nós encontramos, às vezes, em lugares de grande responsabilidade, uns burgessos, uns grosseirões !…
Mas, o que recordo mais vezes foi o que se passou em determinado período eleitoral.
Eu, sem filiação partidária, resolvi dar o meu apoio a certo candidato, convencido que era o melhor para a nossa terra. Empenhei-me seriamente e consegui envolver altas figuras da política nacional .
Discuti o assunto com a Maria Adélia e ela não podia estar mais em desacordo comigo.
Esgrimiu todas as armas para que eu alterasse o meu apoio. Não conseguiu.
Debalde, desabafou : -É pena , vamos perder um bom professor e arranjar um mau presidente. Palavras sábias. E de facto isso aconteceu.