REFLEXÕES

Ana Cruz
GRUMAPA Grupo Mangualdense e Apoio e Protecção dos Animais
Já agora antes de continuar a descrever a odisseia da construção do Canil /gatil vou rever a cena que aflorei no escrito anterior, uma triste situação dentro de tantas que nos surgiram ao longo dos anos. Porém, antes de começar terei de avisar que esta tem rodinha vermelha para os mais impressionáveis, como uma rodinha no ecran da TV em determinados filmes.
Temos testemunhos fotográficos que não serão para publicar neste momento. Foi sensivelmente no verão de 2011, se bem me recordo, fomos avisados que um sem número de esqueletos de cães se encontravam num grande tanque localizado próximo da aldeia de Espinho. Intrigada e com pouca coragem, armei-me de máquina fotográfica e lá fomos eu, o vizinho e sócio Fábio Costa acompanhados pela pessoa que conhecia o local. Era, nem mais nem menos, uma área da exploração de urânio (ENU) e que já havia sido desactivada. Ficaram por ali largas crateras abertas onde se formaram lagos de água verde, e algumas estruturas já sem utilidade. Havia também grandes tanques que eram utilizados na lavagem das terras e minérios. Eram cavados na terra dura, em plataformas, com as faces internas em rampa em toda a profundidade, provavelmente mais de cinco metros. Depois, para reterem as águas e os minérios eram forrados com uma capa de um material negro e liso, que se assemelhava a borracha e com uma considerável espessura. Esta espécie de capa era altamente escorregadia estivesse seca ou húmida. Havia vários tanques. Quando nos aproximámos de um deles, ficámos imediatamente em choque. Parecia um filme de terror, um holocausto – teriam sido em grande número os animais que ali acabaram os seus dias num sofrimento atroz !!! Nem sombras, nem comida, nem água e um sol abrasador. Como é que foram lá parar !?…Era só o que eu repetia em lágrimas, e quem me acompanhava. Não havia explicação para tamanha desgraça…Era fácil detectar aquela larga abertura, poderia lá cair um cão, mas eles são inteligentes e temos dúvidas que fossem todos de seguida. Começámos a reflectir no que se teria ali passado- alguns dos animais poderiam ter vindo a correr atrás de uma cadela e caírem lá dentro…como as paredes eram inclinadas e escorregadias eles não conseguiriam subir. Enfim, era uma hipótese… Mas os esqueletos eram muitos…contamos dezenas. Alguns eram ossos limpos…outros não estariam ali há muito tempo porque ainda tinham a pele e o pêlo sobre o esqueleto e havia de vários tamanhos e até raças.. Conseguimos identificar por restos de pêlo e dos corpos secos um husky e um Serra da Estrela. E acreditamos que isto aconteceu ao longo de meses e até anos, muitos deles comeram parceiros de infortúnio para matar a fome – os mais fracos e pequenos pelos mais fortes.
Depois desta desgraçada cena e de umas conversas que ao tempo fizemos por lá, chegamos a uma revoltante conclusão – a maior parte dos animais foram ali parar pela mão do próprio dono… pessoas que resolvem problemas pelo processo, para eles, mais barato, prático e rápido – atira-se o animal lá para baixo e vamos embora, ele nunca conseguirá sair – uma maldade, frieza e ingratidão que nos revoltou até à medula. Ali já nada poderíamos fazer a não ser constactar até aonde chega a desumanidade. Recorrer às autoridades, para quê? Resolvi dirigir-me à Sede da Empresa, na Urgeiriça, contar esta comovente descoberta e solicitar medidas urgentes para que aterrassem aquelas armadilhas. Sei que algum tempo depois a situação ficou resolvida…só não se resolveu na minha mente a lembrança daquela imagem arrepiante…Vida de protectora…