“Qual a minha medicação? Veja aí no computador…”

Ana Cruz
Muitos são os termos relativos à medicação! Há a “distinta” terapêutica; o “ilustre” fármaco; o “singelo” tratamento ou a “ardilosa” droga! O sentido das palavras interfere sempre na forma como a pessoa dá valor ao significado da mesma. Dizer “Olha, a Maria começou um tratamento novo para os rins” ou “A Maria vai ter de iniciar umas drogas para melhorar o rim”, torna o cenário mental sempre diferente. De fato, imaginaria a senhora envolta de tecnologia, numa divisão de cores neutras criando a ideia de limpeza, acompanhada por enfermeiras e médicos a colocarem o “tratamento”. Mas quando se fala em “drogas” …Logo a nossa mente reduz a situação para um antro escuro, onde o ambiente é esquecido pelo asseio e cujas as figuras são burlescas, passando uma imagem de corrupção e ilegalidade. Isto é o resultado da influência cinematográfica e mediática que criam um julgamento descontextualizado e apressado de uma palavra.
No fundo medicação ou outra terminologia levam sempre para a conflitos na sua toma ou administração, o que levou a histórias que parecem inventadas!
Por exemplo, reza a história que em tempos em que as mulheres pouco detinham controle do planeamento das suas gravidezes, pediam de forma disfarçada a “pílula” ao médico. Este, após o discurso em prol da continuidade da espécie, era cabalmente contrariado perante a miséria salazarista dos filhos pés-descalços e encaminhava a mulher para a enfermeira com um bilhetinho. Passado uns meses a enfermeira vinha entregar os bilhetinhos ao médico com esta frase “Por favor, informe que é para tomar com um copo de água!”. É, que a rapidez de adquirir a milagrosa “pílula” provocava alvoroço na forma de a tomar. Ora se o objetivo é evitar a gravidez, lógico seria coloca-la no local onde procede-se a “união de fato”, o coito. Muitas foram as mulheres que reclamavam que as “pílulas” não resultavam por não dissolverem, ou até por caírem no chão! Penso que a confusão poderá ter-se devido à proibição de proferir certas palavras nessa época, ainda hoje muitas mulheres designam o órgão feminino, vagina, por “boca do corpo”!
Outra também inédita e verdadeira, é a prescrição de um medicamento sob a forma de cápsula que vinha em cartela de alumínio (são as embalagens seladas com uma parte rígida e outra flexível para remover o medicamento da cavidade, com picotado individual). A esposa ficou incumbida de administrar o medicamento ao marido e uma semana depois virem para avaliar os sintomas. O médico ao questionar como foi a toma do medicamento, por ser uma cápsula de dimensões maiores que os vulgares comprimidos, obteve esta resposta: “Bem, Sô Doutor, já não lhe doí tanto os estomago, mas foram difíceis de engolir! O meu marido queixava-se que os cantos arranhavam na garganta” – o médico intrigado questionou como a esposa preparava a medicação. -”Então? Tirava da caixa e cortava pelo picotado e dava-lhe com um copo de água! E já agora se pudesse dar-lhe uma pomada para as hemorroidas, e que este medicamento também custou a sair… ”
Apesar destas descrições poderem ser consideradas satíricas, são na realidade o motivo principal para a “Reconciliação Terapêutica”. Fundamentalmente isto significa, segundo a Direção Geral de Saúde (DGS), Norma nº18/2016: “… define-se como um processo de análise da terapêutica de um doente sempre que ocorrem alterações na mesma, com o objetivo de evitar discrepâncias, omissões, duplicações ou doses inadequadas, promovendo a adesão à terapêutica e contribuindo para a prevenção de incidentes relacionados com a mesma”. Apesar da norma estar orientada para os profissionais de saúde – médicos, enfermeiro e farmacêutico- há uma óbvia omissão do utente neste processo. De fato, ao questionar qualquer pessoa que toma mais de 3 medicamentos diários se conhece os nomes e para que servem a resposta é veloz e acompanhada de ironia “Oh, Sra Enfª, não fui eu que andei a estudar isto!”. Pois, tem muita razão a pessoa! Eu também não estudei para ser chef de cozinha, mas alguém tem de cozinhar, certo! Enfim… E voltamos sempre à mesma situação: comunicação e desresponsabilização! Em primeiro lugar todo o individuo é responsável pela sua saúde e por conseguinte de saber o que toma de medicamentos e como gere esses medicamentos. Segundo, só pode assumir este papel se tiver conhecimento e aceitar as mudanças que podem ocorrer para estabelecer o seu conceito de saúde.
Aqui é importante a recolha da informação que só o utente\ pessoa nos pode fornecer em contexto hospitalar seja fidedigna e que os profissionais consigam adequar o novo tratamento sem causar dano no equilíbrio terapêutico. A “famosa” carta que os utentes são agraciados no ato da alta hospitalar, já contém elementos para continuar o processo de reconciliação terapêutica. Infelizmente, nem sempre coerente no seu esclarecimento. Continua a existir sobreposição de fármacos e balbúrdia na forma de os tomar. É vantajoso este sistema, mas ainda há um grande caminho a percorrer, cujo principio passa por uma maior inclusão do utente\pessoa através da literacia para a saúde! Espero que no futuro o que é uma norma, seja considerada uma mais valia e não um item para atingir a qualidade. Mudar os comportamentos, não só, mas também de todas as partes. Para que uma carta não fique por abrir, para que o ganho em saúde não seja considerado uma perda de tempo!