SANFONINAS

dr. jose
Lua Cheia!
Antes de fechar a porta da rua, não resisti e chamei a Ana:
– Anda ver como está bonita a lua cheia esta noite!
Viu, não ligou grande importância; eu quedei-me mais uns largos segundos. Não fui apenas eu que mudei com o forte escaldão que o vírus nos está a dar, foi também o firmamento, que mais se libertou de poluições e, assim, melhor nos permite ver este luar, que, contava minha avó, atraía lobisomens e fazia almariar os humanos. E o homem que levava eterno molho de silvas às costas, por não ter guardado o domingo, dia do Senhor. Eu sabia agora serem sombras das montanhas lunares; mas, em miúdo, acabava por ter pena do condenado.
E esta atenção maior ao que nos rodeia é jeito que ora se pega. Meu amigo Zé Rocha deu em mostrar, no Facebook, recantos do seu jardim. «Adoro as flores do campo», escreveu-me ele, «apanho as sementes e lanço-as no meu jardim». A muitos quilómetros daqui, em Saragoça, Manolo, septuagenário como nós, também outro dia se deixou fotografar, de barba patriarcal, junto de mui viçoso canteiro de… alfaces!…
Para que nos havia de dar!…
Ia eu nestes pensamentos quando, antes de aconchegar a cabeça na almofada, peguei no livro de cabeceira «Parar», de David Kundtz (Sinais de Fogo, Lisboa, 2004). E li:
«Os cidadãos da viragem do século não têm tempo para parar e cheirar as rosas» (p. 49).
«Distraídos, perdemos momentos importantes. Passam por nós e nem sequer damos por eles: o telefonema de um velho amigo, a visão momentânea de uma lua cheia através das árvores sombrias, a observação ou pergunta de uma criança, a luz e a cor de um fim de dia outonal – tudo nos passa ao lado, sem intercepção, sem registo, sem utilização, e finalmente perdido. Nem sequer reparamos que não reparámos» (p. 137).
Parece-me que estou a compreender porque é que, neste últimos tempos, há tanta fotografia de pôr-do-sol e tanto novo olhar para as flores e porque é que eu parei diante do bem vistoso e brilhante plenilúnio… Consciencializamo-nos de que, afinal, vale a pena saborear o momento, não reclamar contra a aparente lentidão do computador quando não obedece de imediato ao comando que lhe demos… Segundos que, pouco a pouco, vão deixar de ser eternidades…